O gato de Schrödinger

O Gato de Schrödinger

Lá fora, a constante de trânsito
num motor único, a obra,
intermitente, ao lado.
Por cima, mais alto, nas copas das árvores,
pássaros conversam noutra língua.
O ouvido, deste campo de vozes,
colhe o que quer. O meu pensa querer a passarada.
O ouvido é como a razão:
não percebe que ao dizer sim está a dizer não.
Trânsito. Obra. Trinado na pontinha das asas:
este é o mundo, sem sim nem não.
Dou um passo para trás.
Observo que me observo observadora.
Enquanto isso, do outro lado da rua,
no penúltimo andar do prédio calcário e branco,
de pano azul, um rasgo de céu claro na mão, a empregada, fardada,
agora limpa o vidro da janela por fora.
Sou esta que vê e esta que escreve.
E estas mãos no teclado são minhas também.
E nada disto que sou eu contém aquilo que também sou,
a fonte comum onde somos juntos, eu e tu, pano e céu e sons.
Mas também não impede que tenha de tomar o antibiótico
e voltar a enfiar-me na cama.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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10 respostas a O gato de Schrödinger

  1. é um prazer ler letras que se colam no nosso dia… e por outras vezes já habitam o nosso corpo há tanto tempo… e tantas outras nos questionam porque fazemos ou não fazemos…

  2. ana marchand diz:

    boas mEl …horas!

  3. ah! boa. um gato para ir comer o meu ratinho.

  4. Carlos Ribas Monteiro diz:

    Apanhou a gripe, coitada, de tanta azáfama

  5. albertino ferreira diz:

    Esse é um gato que percebe de mecânica quântica, merecia o prémio nobel da física mais que muitos “fanhosos” que para aí há. Bonito poema. Parabéns.

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