O que a SIC me deu a mim

A Manolo Bello e Pedro Norton
À minha equipa de Direcção de Programas (Gualdino Paredes,
Ana Torres, José Navarro, Victor Moura Pinto, Rui Silva Lopes)
A Francisco Balsemão e Trigo de Sousa 
A Francisco Grave, José Bastos e Silva e Emídio Rangel

Entrei para a SIC no dia 1 de Abril de 1992. No ano anterior, cumprindo desígnio genesíaco, o suor do meu rosto tripartira-se por actividades de programação e descentralização na Cinemateca Portuguesa, pela minha segunda fase de crítica cinematográfica e muita entrevista no Expresso, e por um ano de programação de filmes na RTP 2, de que a coroa de glória foi a exibição do Império dos Sentidos, que muito sobressaltou nessa noite a hora de deitar dos lares de terceira idade e a cidade de Braga.

No dia 1 de Abril de 1992, na SIC ainda não devíamos ser mais de 10. É pelo menos o que insinua o nº 11 que o meu cartão de funcionário ostenta. O armazém de bananas, de que há pouco Francisco Balsemão falou no Jornal da Noite, estava em obras apocalípticas. Era em Lisboa, na Rua Castilho, em frente ao Hotel Diplomático, que decorriam os preparatórios trabalhos de parto. E lembro-me que, por baixo do apartamento – e eram dois, em pisos diferentes se a memória não me trai – estava uma loja de presentes, regalos, gifts e souvernirs. Chamava-se Artesanato e prenunciava ao que íamos, ainda que poucos de nós o soubessem e outros até hoje não se tenham dado conta.

A primeira emissão da SIC, tão deliciosamente artesanal, faz hoje 25 anos. Eu estive lá treze anos. Comecei, pela mão de Maria Elisa, que me convidou para estranheza do mini-meio audiovisual, como director de programação estrangeira, a comprar barato e o que podia, nos intervalos dos packages gordos e volume deals, que o hoje meu caríssimo José Eduardo Moniz então comprava. Quatro meses depois era director adjunto de programas, por proposta de Emídio Rangel, bem acolhida pelo director-geral Melo Heitor – e isso durou 9 anos. No Verão quente de 2001, também por proposta do Emídio, numa mesa a que se sentavam Francisco Balsemão e Luís Vasconcelos, passei a director de programas. Fui-o por quatro anos, o meu mini Vietname. Em Setembro de 2005, a SIC e eu rescindimos com elegância, no que também muito ajudou a sensibilidade, que alguns diziam chinesa, de José Alberto Bastos e Silva. Ficaram em Carnaxide 13 anos da minha vida. E é mentira, que trago-os sempre comigo e valem por 26.

Mas não é propriamente um relato curricular o que aqui me traz. Quando aceitei ir para a SIC, eu mudei de galáxia. O meu mundo era a Cinemateca, os grandes ciclos de cinema na Gulbenkian e que o João Bénard da Costa me pôs a escrever a meias, era a crítica de cinema no Expresso com o João Lopes, e muitos dossiers fizemos em conjunto, era a programação de filmes de Yasujirō Ozu ou de Wim Wenders na RTP2, eram os resquícios ainda do curso de filosofia na Clássica. Trocar esta pequenina, e prestigiada segundo me explicavam, barroca caverna dourada pelo bazar turco que era o mundo do audiovisual, era um mau passo. Um mau passo blenorrágico nos melhores dias, porque nos dias cinzentos e de chumbo era uma traição. Et pourtant eu sufocava na caverna dourada.

Não me entendam mal, eu não queria trair a caverna dourada, a que reconheço a necessidade e o contributo alimentar para sermos uma melhor humanidade. Acho a teta cultural lindíssima, e quem não mamou do tumescente bico perde proteínas de bondade (tem dias!), de beleza e de verdade. É desse leite e desse maná que eu gostava que toda a humanidade pudesse desfrutar. Por igualdade de oportunidade se me faço entender.

Mas a minha cosmovisão (ui! sem aspas) continha ao tempo a ideia de que o mundo era parecido com uma monumental cebola. Achava, por isso, que me estavam a escapar camadas. Talvez eu estivesse no fundo e húmido centro da cebola, mas queria era vir por ali fora, atravessar toda a carne da cebola até derrapar na casca e contemplar outside, esse outside negro e luminoso, ao mesmo tempo caótico, turbulento e supremamente organizado.

Hoje, 25 anos depois da primeira emissão histórica desse projecto que contribuiu também para fazer de Portugal um país mais livre e mais plural, eu quero dizer a quem então me reprovou ter dado o passo que dei, da caverna dourada para o bazar desvairado, que se enganaram – valeu a pena.

Sei muito bem o que dei à SIC, mas sei muito mais, e é só disso que quero falar, o que a SIC me deu a mim. Quero agradecer à SIC as camadas de cebola que me deu a ver. Camadas ácidas e doces, do ponto mais acrisolado do núcleo do bolbo até à estrutura folhada que o cobre, corri a cebola toda. De Cannes a Hong Kong, de Londres e Brighton a Los Angeles e Las Vegas, de Roma e Milão ao Rio de Janeiro falaram-me mundos que só assim pude conhecer e pude escutar – e não estou a falar das cidades e de turismo, estou mesmo a falar de comportamentos, de ideias, de formas de pensamento e de organização, de vivências sociais e políticas, da verdadeira democracia que supõe iniciativa e risco e diferença e partilha. A SIC foi, para mim, a vitória sobre o paroquialismo, a percepção de que há um cosmopolitismo que tem méritos. Um dia o Manolo Bello, um dos maiores amigos que fiz na SIC, contou-me que ia ele e mais dois amigos galegos, tão saudosos da revolução como ele, pelos salões dourados do Hotel Carlton, em Cannes. E iam com as respectivas mulheres no meio desse luxo de cristais e mármores, quando um deles disse: “Foi contra tudo isto que lutámos”. E logo a minha amiga Beatriz, francesíssima mulher do Manolo, cortou cerce: “Ainda bem que perderam.”

Mais do que lutar é preciso construir. Ainda bem que há 25 anos fui para a SIC.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

2 respostas a O que a SIC me deu a mim

  1. mario rui castro diz:

    Manel
    Tenho um sentimento muito semelhante ao teu. O mundo da televisão abriu-me portas que não teria conseguido atingir se por lá não andasse. Primeiro na RTP, onde estive quase 30 anos e depois na SIC, através do Manolo Bello e onde tive o privilégio de te conhecer. E foi lá que percebi o ser humano excepcional que és:)
    Toma lá um xi apertadinho!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Mário, és um anjo. E é isso que vale a pena, encontrar anjos na vida. Sei que estamos os dois a cair para o “um bocadinho lamechas”. E o que é extraordinário é que ainda está por abrir a garrafa de tinto com que vamos comemorar isto. Um valente abraço

Os comentários estão fechados.