Ontem cantei o corpo eléctrico

 

 

Ontem, a convite do Nuno Miguel Guedes e do Alex Cortez, cantei o corpo eléctrico do Walt Whitman nos Poetas do Povo. Numa sessão dedicada à América. Uma belíssima sessão onde tive por companheiros a Isabel Lucas, o João Morales e o José Luís Peixoto.
A versão do “Eu canto o corpo eléctrico” que cantei, traduzi-a eu. Uma trabalheira, para arranjar as palavras certas e, mais importante, os ritmos certos. Não queria ter tido tanto trabalho — até porque ler aquele texto, não sendo actor nem locutor, é, em si mesmo, obra. Mas como só tinha a versão original, e nenhuma livraria telefonada tinha um exemplar para me vender, teve de ser.
Tive como cábula algumas versões encontradas na rede, mas eram brasileiras e não me pareceram certas; para além da utilização de prenomes, gerúndios e expressões que são do sul.
Fiquei contente com a tradução. Já com o cantar nem tanto. É difícil dizer, é difícil ler em voz alta. Noutros tempos, a leitura em viva voz, e antes disso o dizer de memória grandes histórias e poemas, era uma forma de entretenimento. Lia-se e dizia-se em voz alta para audiências que não o sabiam fazer. Depois, com a aumento da literacia, a coisa caiu em declínio. Hoje, dizer um poema ou contar uma história concorre com o narrador interno de cada um. É uma luta desigual. É preciso ser-se profissional. Ainda assim, com vinho e sem vergonha, nos Poetas do Povo atrevemo-nos.

Também cantei um texto do Almeida sobre a América. Um inédito informalmente encomendado pelo Nuno. Aqui o deixo.

 

 

Sex. In America an obsession. In other parts of the world a fact.
(Marlene Dietrich)

 

I never had sex in America

Aprendi sexo na América, aqui, em tardes de cinema.
As primeiras tumescências devo-as à Ingrid Bergman, à Joan Fontaine, à Grace Kelly.
Às vezes, quando me imaginava a enfiar a língua na boca da Ingrid Bergman, ou da Joan Fontaine, ou da Grace Kelly,
elas que tinham sido modelos da minha mãe e de muitas mães,
sentia-me errado, culpado, porco, pecador
— elas tinham os mesmos penteado, as mesmas roupas e a mesma pose da minha mãe e de muitas mães, apenas a luz era melhor nos filmes;
mas logo passava porque a minha mãe não era americana.

Quando o Whitman escreveu Eu Canto o Corpo Eléctrico,
o Antero de Quental escrevia À Virgem Santíssima, Cheia de Graça, Mãe da Misericórdia.
Oiçam:

N’um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…

Um místico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Não há sexo nisto.
A minha mãe não era americana. A Ingrid Bergman sim.
Como americanas eram as mamas e os lábios com que sonhava. Americanas loiras, felizes, dispostas.
Ainda assim, nunca fiz sexo na América.

Um dia, no 1285 da Avenida das Américas em Manhattan, lá em cima, num gabinete de canto longe da rua,
eu e um outro negociámos o nosso peso em ouro.
Eu já tinha o meu ouro. O outro, mais leve do que eu, discutia a injustiça da diferença. Resolvi sair:
— Vou lá para fora flirtar com as tuas assistentes — disse ao Andrew, contente que estava com os meus 84 quilos.
Eram quatro: uma Ingrid, uma Joan, uma Grace e uma outra.
— Nem penses — respondeu o homem do ouro e da balança.
Fecharam-me num gabinete por causa dos assédios, e dos processos por causa dos assédios.
Um gabinete de uma só janela que vertia sobre a avenida aonde passavam americanos e americanas que podiam fazer sexo comigo se quisessem.
Mas nunca fiz sexo na América.

Nem em Março de 1998 em L.A..
No Baked Potato, ouvi o John Pizzareli dedilhar o My Funny Valentine na guitarra.
Não havia fumo no clube. Foi a primeira vez que ouvi jazz sem fumo.
Fumei cá fora, no beco, junto à entrada dos artistas. Fumei com eles
— até os artistas fumavam cá fora, em 1998 em LA.
Depois jantámos no Mondrian, eu e dois espanhóis feios e malvestidos.
Um deles tinha ar de Guardia Civil de aldeia da Estremadura,
apenas lhe faltava o chapéu ridículo de dormir encostado à parede.
No Sky Bar encontrei-as todas: as Bergman, as Fontaine, as Grace Kellys, as Jane Russels, as Dorothy Strattens;
eram todas brancas, mesmo as pretas e eram todas pretas, mesmo as brancas.
Nasci para isto, pensei. E bebi e falei.
Os espanhóis, barrados à porta, ficaram fora a olhar para dentro: cabisbaixos, salivantes, mas cabisbaixos. Derrotados.
Também eles tinham sonhado enfiar as suas línguas castelhanas na boca da americana Bergman, da americana Dietrich, da americana Loren, da americana Grace.
Tive pena deles, à porta, olhando de fora para dentro com olhos de rafeiro sevilhano.
Devia ter percebido o augúrio: jazz sem fumo, noite sem sexo.
Nunca fiz sexo na América.

Nem quando voltei a L.A. e enchemos limusines de mulheres brancas e pretas
e dos amigos delas brancos e pretos
e festejamos na suíte do hotel, aos saltos nas camas, até à expulsão.
Nem quando dormi no Waldorf-Astoria em Nova York, depois de uma noite em que fui gado premiado,
e bebi no bar onde estava o Alberto do Mónaco rodeado de Ingrids, e Fontaines, e Roussels.
Nunca fiz sexo na América.

Três vezes aterrei em Denver e subi as Rocky Moutains
pela estrada 70 em direcção a oeste, emparedado em desfiladeiros nevados
— os mesmos desfiladeiros que serviram de cenário a John Wayne em True Grit,
e por onde, muito antes, passaram milhares de colonos europeus à procura da Califórnia.
Eu, e os que comigo iam, nada procurávamos a não ser as montanhas e a paz que delas exala.
Black Hawk, Goergetown, Silverhorne, Frisco, Brekenridge, Vail, Beavercreek, Mineton, Aspen.
Milhas e milhas americanas.
Milhas e milhas americanas aspirando o ar rarefeito e a sativa que se compra em lojas de cruz verde.
E em todo lado apareceriam Ingrids ternas e recatadas, Marlenes e as Marlyns provocadoras e sorridentes, Joans e Dorothys lascivas.
Milhas e milhas a viver o sonho — o dos poetas da minha adolescência.
Milhas e milhas pela estrada fora — mas sem sexo.
Nunca fiz sexo na América.

Também não fiz sexo em Dallas, onde estive quatro horas entre aviões.
Aproveitei para ir a um outlet nas redondezas do aeroporto
onde havia uma enorme livraria. Queria comprar tudo o que fosse Cormac McCarthy em inglês, farto que estava de o ler reescrito pelo Paulo Faria.
E foi lá, no outlet, que vi o fim do mundo.
O fim do mundo é gordíssimo, obeso, disforme;
os corpos, no fim do mundo, explodirão colesterol e banha de porco e de porca, ridiculamente.
O fim do mundo só dá aflição, nenhuma tesão.
Mas elas estavam lá, brancas e pretas, as Ingrids e as Graces:
— Olá, não te lembras de nós?
— Desculpem, não estou a reconhecer-vos.
— Conhecemo-nos nas tardes de cinema.
A gordura rebentava-lhes pelas costuras. Ou rebentaria, se as calças e os collants de viscose tivessem costuras.
America the beautiful, o catano.
Não, em Dallas, entre aviões, não havia condições.
Nunca fiz sexo na América.

Nem em Brooklin, onde as falas das Ingrids e das Joans são só ênfase e afetação cultural.
Nem em Miami, onde o calor e a branca anestesiavam o interesse.
Nem em Providence, onde o trabalho anestesiava o interesse.
Nem em Port Chester, onde o Eric estragou tudo.
Eric o comediante, Eric o chalaceiro, Eric o punchliner.
Duas horas a seduzir uma Ingrid e uma Joan,
enxutas delegadas a um congresso de propaganda médica no hotel onde estávamos;
e quando finalmente ia ter a minha noite de cinema na América,
o Eric pôs-me o braço por cima, deu-me um beijo na boca e anunciou que era hora de nos recolhermos.
Everything-for-a-joke-Eric, tão americano como a Ingrid, e a Grace, e a Dorothy.

Nunca fiz sexo na América. (From sea to shining sea.)

Almeida

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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10 respostas a Ontem cantei o corpo eléctrico

  1. Alfonso diz:

    Olá, Vidorra.
    Um abraço bonito e elegante de um dos dois espanhóis feios e malvestidos.

    • Pedro Bidarra diz:

      Alfonso
      Hombre! Durante 19 anos é apenas uma memória, e quando finalmente te converto em personagem tu apareces.

      Como estás, meu querido?

      ps: Para que conste, tu não és feio, mas estavas mal vestido.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Parece-me muito bom de ouvido. Gostava de ter lá estado

  3. albertino ferreira diz:

    A minha obsessão não era nenhuma dessas mas a Lauren Bacall quando tinha vinte anos…

  4. João Morales diz:

    Foi uma noite bastante interessante, e tens razão, um dos grandes méritos da iniciativa é arrancar-nos da zona de conforto. Um abraço, J Morales.

  5. Estava lá e aplaudi! Mais palmas aqui também!!

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