Péssima estreia, filha, péssima estreia

Si tu vois ma mère

A minha televisão é mais inteligente do que eu: queria o Sidney Bechet mas não o tinha trazido na mudança, o pc está com o som esquisito, e ela, toma Sidney Bechet. Salvou-me a vida.

É verdade, mudei-me finalmente. Nem sei como, com tanta coisa junta. O meu tio tão doente e depois tão morto – sim, a morte é uma gradação ascendente antes de ser um ponto final. E o caos da transportadora? Tudo se resolve. Até a morte vem por catálogo, à sala, vestida de agente funerário, facilitar a sobrevivência de quem fica. É só outra transportadora, afinal – não tinha pensado nisto.

Também não sei como, mas em três dias mal medidos e uma viagem pelo meio, tenho uma casa quase em ordem. Melhor. Uma vida quase em ordem, sem pontas soltas, nada por rematar – tive aulas de lavores, aprendíamos a bordar, de bastidor e fio de seda, ou Ponto Cruz ou de Assis. Era muito pequenina. Depois o colégio terminou os lavores, acho que os deram por fascistas e anti-feministas. Ainda não arrumei aqueles papéis obrigatórios nos dossiers, a certificação do gás, a Via Verde, sei lá o que mais.

A minha avó era assim, mas em bom. Dizia Faça-se! apontava, aquilo, fora dali, já não posso ver o raio daquelas cortinas, estão uma vergonha, e apareciam feitas novas cortinas mesmo que fosse só ela a ver a vergonha. Eu não digo Faça-se! Faço, paciência, ou nada acontece.

Hoje, pela primeira vez, pensei, ainda bem que a minha avó está morta.

Dos outros, não sei grande coisa. De mim, sei pouco todavia um pouco mais. Para que vivemos, para quem? Acho que é para fazermos o que cá viemos fazer o melhor possível e que a nossa família, e os que amamos, se orgulhem disso e de nós. Se não conseguirmos, ao menos que não lhes causemos embaraços.

Aqui estou, neste azul Alasca, sem pontas soltas, nem remates por dar, aula de lavores terminada, tudo feito e nada para mostrar, e por entre o Sidney Bechet, de facto, desde o trânsito parado na ponte que só me ouço a perguntar o título de Chatwin, o que faço eu aqui? E na voz claríssima da minha avó, as palavras do avô Afonso, o avô de Carlos da Maia, péssima estreia, filha, péssima estreia.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Péssima estreia, filha, péssima estreia

  1. Bea diz:

    Eu gostei do post. E tenho certeza que senhora sua avó também o não desdenharia e até, quem sabe, sentiria, ao lê-lo, o tal orgulho. O resto, como diz, é bordar a rematar sempre que é para não perder o bordado.
    E tenha muita sorte com a nova casa, seja a Eugénia. E basta.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    As casas são a nosso força, é verdade, mas a força de uma casa vem sobretudo da força que pomos dentro delas. Parece-me que a sua avó está ainda (e bem) nesta sua casa.

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