Sunday dreams, jardim & black coffee

sunday dreams

Começar por onde? Um passo. Outro. E outro. Assim. Andar e nem saber que se anda.

Tudo é novo à minha volta. Tenho outra vez dois anos e a vida é um lugar grande. Já tinha cafés onde ir, um com e o outro sem sumo de laranja natural, aqui mesmo ao pé da porta. Hoje acrescentei o terceiro. Já percebi que é o meu preferido. É no jardim. E um quarto, de facto, há um quarto: sempre fui de café-café, mas a minha mãe ofereceu-me para casa nova uma Nespresso e lá comprei um saco cheio de Arpeggio e Indriya. No entanto, e porque Deus também é outra mãe, ali ao fundo da minha rua, da minha nova rua, há uma velha loja de café. Café mesmo, em grão, em pó, daquele que se vê e toca e cheira. E cafeteiras. Amanhã passo lá a bisbilhotar tudo que o aroma do café acabado de fazer, a fugir da cozinha, a espalhar-se pela casa, é uma alegria que o dia ganha logo cedo.

Então, um passo atrás do outro, com a senhora do Google Maps a falar-me ao ouvido, lá fui. Era mesmo do outro lado da rua, mal começou a falar, calou-se. Ri-me de mim, claro. Ontem, quando precisei dela para me dizer se saía do túnel pela direita ou pela esquerda, estava muda, e dei por mim em cascos de rolha. O que vale é que os cascos de rolha eram da Lisboa de antes de me ir embora e consegui perceber onde estava – se passei, um dia que tenha sido, a pé por um lugar, não me esqueço dele. E perder-me não me atrapalha, sempre me perdi em todo o lado e nem por isso deixo de ir dar ao sítio certo.

Tinha esta ideia de que, quando regressasse a Lisboa, o meu jardim seria o mesmo que foi o da minha avó quando ela cá viveu, o da Estrela. Não. O meu jardim é o da Gulbenkian. Que saudades. E nem sabia. Todo domingueiro. Calha bem: I’m hangin’ out on Monday my Sunday dreams to dry, não é menina Ella?  Gente estendida na relva a dormir, pais e filhos e cadeirinhas a passear por entre os bambus e os papiros encostados ao lago, os patos quá, e nem rasto da quebra de natalidade e da taxa de divórcio.

Antes vi as exposições. Pareceu-me que estava na loja. Ando eu à procura de um tapete e aquele não ia malzinho. E os belos Cães de Fo também marchavam para cima do meu livreiro. Como não trouxe a minha caixa chinesa, a vitrine com secretária portátil e o resto, olha, também não era pior… Gostei de rever o amor centauro de Rubens e o cão, um Cavalier King Charles que lá está com a sua linda dona. Do lado moderno, reencontrei a juventude politizada de Pomar, e uma peça de que gosto tanto, dos anos cinquenta. A modernidade, bem se vê, já tem uns anos valentes.

Mas o tempo avançou e, de repente, já era muita gente. Dei a volta toda e fui beber café ao outro lado. Pus-me eu a ver os bonecos emoldurados quando estes bonecos vivos reproduzem os outros, com cheiro, textura, temperatura, e drama dentro que a gente nem sabe. Do anfiteatro estive a vê-los, ao sol, à sombra, a ler. Os turistas e os lisboetas. E encontrei um cantinho de sombra e verde e água, onde nem a gente sabe onde está. Dois miúdos aí de nove anos, lado a lado, ele loirinho, ela morena, mais que cinematográficos, e sem qualquer adulto vigilante, atiravam pedrinhas à agua. Há mil anos naquele gesto. De certeza, no princípio, também o terei feito, todos o fizemos. Onde está esse que fomos?

Gosto deste silêncio. Como quase não tenho voz, estou afónica outra vez, há simetria entre a voz com que o mundo me fala e voz com que lhe respondo.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Sunday dreams, jardim & black coffee

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    A Gulbenkian é um amável labirinto que Lisboa bem merece.

  2. Rita diz:

    Se não gosto bastaria não mais ler, mas apeteceu-me dizer-lhe que acho uma chatice entediante aquilo que escreve.

    • EV diz:

      Não perca tempo: a vida é curta, leia o que gosta.

      E quando lhe apetecer ser masoquista, já que o prazer também lhe advém da chatice/tédio e de se queixar, leia o que não gosta – de outro autor, no entanto. Está dispensada, com todo o gosto, de ler o que escrevo.

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