Talvez o careca fosse o Senhor Pinto

Quem é que, naquele tempo, tinha uma cabeça mais lisa e alva do que o deserto do Namibe? Tenho de perguntar ao Abílio e ao Simão, meus mais-velhos dos felicíssimos anos 68 e 69 da Luanda colonial. Talvez o careca fosse o Senhor Pinto, Mr. Magoo da minha remota rua. Sentava-se ao volante do caquéctico e negro Volkswagen e, de fora, só se via a calva elipsóide da sua cabeça. Foi o primeiro carro de condução autónoma que vi circular, deixando atrás de si um alvoroço de gritos, buzinadelas, gente a salvar-se saltando muros: “Abre, muadié!”

O careca não tinha prestígio, é o que, compungido, quero dizer. O careca ou era o velho, nesses tempos pré-viagra em que não se ia novo para velho, ou então o careca era o chorado menino de sua mãe, novíssimo, máquina zero, chamado à tropa para mata-mata, se não morres tu.

Eu tinha um caracol. Tombava displicente sobre o lado direito da testa e acalento a longínqua e meiga ideia de que terá mesmo despertado alguns precoces instintos maternais. Por mais afagos com que o tenha enrolado algum gentil e adolescente indicador, esse saudoso caracol era uma sentinela. Protegia as generosas entradas que prefiguravam a calvície por chegar. A pérfida e vergonhosa calvície.

Uma matinée espatifou essa Weltanschauung. Tanto se dá que tenha sido no Cinema Império, na Casa do Alentejo ou no São Domingos dos padres capuchinhos. Foi na Luanda negra que parecia branca, no começo de uma noite cálida, em que nem sequer se sentia o intestino rumor da obstipada História. Toda a História, sobretudo a que, então e nossa, era tão adolescente, se silencia face à dimensão faraónica de Ramsés II. O filme era “Os Dez Mandamentos” e quando a cabeça de Yul Brynner encheu o ecrã, a glória do close-up arrancou-nos um entusiasmo apopléctico. Não havia só a careca burra e velha. Estava ali, lisinha e em grande plano, a careca inteligente e real, a redonda cabeça perfeita, brilhante espelho de poder e glória. A careca de Yul Brynner, egípcia, glabérrima, sem pêlo ou cotanilho, era soberba obra humana, delicadamente traçada à navalha.

Nessa matinée, nem sei se dava a mão a alguém, o meu displicente caracol encrespou-se. Yul Brynner era o Nietzsche que, morte de Deus capilar, remetia a cabeça à sua irremediável e tentadora solidão primordial.

Publicado no Expresso, sábado, dia 30 de Setembro

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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4 respostas a Talvez o careca fosse o Senhor Pinto

  1. Bea diz:

    Bem verdade, Yul Brynner, um charmoso careca que ninguém quer imaginar com cabelo, mudou o conceito das e dos carecas. Deu-lhes brilho e glamour.

  2. Simão Sanches diz:

    Meu kandengue e meu kamba, esta foi uma uma recordação que há muito estava no arquivo e que agora surgiu com toda clareza. Não estou a falar da inovadora careca do Yul Brynner que só o ambiente entusiástico do São Domingos enaltecia tão perfeita ausência capilar!
    A recordação do mais-velho Pinto rebentou a minha adormecida caixa de emoções e fez-me voltar aos tempos de adolescência na Alberto Correia. Lembras-te do velho carocha a circular, perante o gáudio de todos nós, com burgaus introduzidos nos tampões das rodas? Penso que até a Joana Maluca se riu…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pois é, meu irmão, estou-me a lembrar dessa e do nosso velho Pinto a pintar com tinta de óleo os estofos do carro. temos de recapitular um destes dias a matéria dada.
      Um kandando rijo

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