Um Marlboro, se faz favor.

Não há? Então, pode ser um Camel…

 

Um Marlboro, se faz favor

Não fumo. Mas, na verdade, tenho pena de não fumar. Não tenho uma única tatuagem nem um único piercing, e ainda que pense que não tenho pena de não os ter, na verdade, tenho, ou devo ter…

Tal como 20% da população mundial, tenho alergias. Não tenho asma. Com certas alergias, desencadeio uma asma diabólica que quase sempre passa a toque de Symbicort 320. Hoje, e depois de um desses números asmatiformes de grande aparato, meti-me no carro, capota para baixo, e conduzi até à praia. Fiquei dentro do carro a olhar para o céu do fim de tarde de Outubro como se fora Agosto, a noite a chegar devagarinho e exuberante. Foi então que os vi.

Eram dois grupos. Ou duas famílias. Ou uma. Enfim. Eram duas caravanas. Dentro e fora andavam uns miúdos novos, tatuados com sóis de Maui e mais bonecagem nativa. As respectivas namoradas, ou mulheres, e duas crianças – duas meninas – sem saias de ráfia. Mais as pranchas. Elas, as duas mulheres, sentadas no chão a fumar aquela treta a vapor que não sei como se chama e veio substituir o tabaco.

E pus-me a pensar. Para que raio andei eu a dar cabo da cabeça para arranjar casa em Lisboa? E para quê isto de ter quinhentos copos e mil pratos e quilos infindos de livros? Vou dar algum baile, vou abrir uma biblioteca? Se em vez do carro e da casa, tivesse comprado uma caravana e um portátil, não me andava a consumir com transportadoras de pouco profissionalismo e grande nome no lombo dos contentores… Quem é que, no tempo do Ikea, no mundo descartável em que vivemos e perfeitamente adequado à nossa própria descartabilidade, ainda perde tempo com linhos e iluminação e em transformar uma porcaria de um armário de copa num aparador, só porque sim, porque estava lá na cozinha de uma infância que correu no sentido oposto ao da vida adulta?

Se pudesse, mandava tudo à merda e ia passear com O Cão.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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18 respostas a Um Marlboro, se faz favor.

  1. Maria Isolete Lage Campelo Calheiros diz:

    Há um jovem escritor que pôs isso em prática. Andrew Blackman do blog A writer’s life http://andrewblackman.net/. Conhece?

  2. Carlos Ribas Monteiro diz:

    …e fumar um charro

  3. ana marchand diz:

    pois é eu chamaria a isso os trabalhos de hércules , ou do Milarepa. Constroi, destroi , constroi…

  4. Bea diz:

    Mas felizmente não pode. Porque a caravana não tem sedimento e nem lhe servia como a casa. E ia ter saudade deste canto e daquele sofá e do cheiro que as casas têm e não existe na caravana. Para as pessoas em geral, caravana é coisa de férias e feriados ou fins de semana. Para alguns poucos, é casa

  5. riVta diz:

    Ó Eugénia …uma caravana? Venha mas é daí depressinha porque aqui também há passeios à beira mar fresquinhos.

  6. Já fumei, parei depois de 35 anos. Eu sim, asma tenho, assim como 6 gatos e 4 cães, o que não facilita. Tatoos resolvi faze-las depois dos 40, tenho umas 20 tbm com filho tatuador é mole. Mais sim, como vc invejo uma vida com menos cousas e mais tempo, mais leveza.

  7. Os gajos das caravanas também não podem mas fizeram essa opção. A chatice é que não pode ter o melhor dos dois mundos…

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    Leve a infância consigo. Fume-a e inale-a. É melhor que cigarros e charros. Não é lá por que a infância nos aparece na forma de aparador que desatamos a descartá-la.

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Mesmo sem cão, e sem cigarros também me apetece mandar tudo à merda e ir passear para sei lá onde…

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