A contra-revolução sexual

Foi em 1963, diz o poeta Philip Larkin. Tinha eu 10 anos e tinha chegado a Revolução Sexual. E o que ele disse é tão bem dito, que eu cito-o, palavra a palavra, as minhas palavras a traduzir em português o que ele disse em inglês:

Annus Mirabilis

O sexo livre começou
Em mil novecentos e sessenta e três
(Tarde demais para mim) –
Entre o fim da proibição de Chatterley
E dos Beatles o primeiro LP.

Até então fora só
Uma espécie de regateio,
Conversa fiada por um anel,
Uma culpa que aos dezasseis começava
E a tudo, tudo, se propagava.

De repente a bagunça irrompeu:
Toda a gente sentia o mesmo,
E todas as vidas se converteram
Numa brilhante conta bancária,
Num jogo impossível de perder.

A vida nunca foi tão boa
Como em mil novecentos e sessenta e três
(Embora tarde demais para mim) –
Entre o fim da proibição de Chatterley
E dos Beatles o primeiro LP.

Annus Mirabilis, 16 June 1967, in High Windows ( Collected Poems, p. 167)

Era tarde, disse o desanimado Larkin. Mas para quem, como eu, tinha 10 anos em 1963, os anos que vieram foram uma web summit de prazer, de all you need is love e de uma lúdica harmonia entre os sexos como, julgávamos, a História nunca tinha conhecido. Havia, como há sempre as bestas do costumes.

Nunca pensei que as bestas do costume voltassem a ganhar. Mas vão ganhar. Há uma contra-revolução sexual em curso. Como sempre, a contra-revolução funda-se em acontecimentos que são tão verdadeiros como são vergonhosamente inaceitáveis: na minha geração e na minha educação, semi-camponesa e pequeno-burguesa, catolicíssima e progressista, a violação era um crime, ponto final. Era um crime contra as mulheres que se amavam e até contra, pasme-se, Nossa Senhora. E mesmo deixando-me de portuguesismos e portugalidades, a violação – forçar o sexo – era uma vergonha para quem gostava das maravilhosas pernas de Joan Baez e do que ela representava como mulher livre, ou dessa Grace Slick, vocalista dos Jefferson Aiplane, senhora e dona do seu sexo e dos sexos que quisesse juntar ao dela. Ser amado por mulheres que amavam – e que queriam amar – era a única glória. Mas à pala das bestas do costume, esse meu liceu misto dos anos 60, que era um triunfo civilizacional, os jogos proibidos de mãos, joelhos e pernas por baixo da mesa, mesmo as mini-saias abertamente provocatórias, que partiram ao meio uma moral hipócrita, parecem tristes, vencidos e vencidas por propostas assépticas de carruagens separadas para mulheres e homens no metro e nos comboios, pela ressurreição da figura do chaperon, isto é, do pau de cabeleira, que até na forma de gravação de telemóvel vai provar que houve declaração de consentimento, pelo recuo cultural que é as mulheres terem de vestir-se com recato para não parecer que as estão pedir, o que é um insulto à mulher que, na Luanda dos anos 60, foi levada a um tribunal salazarento e colonial por andar de magnífica e curta mini-saia na Mutamba.

Como para Philip Larkin, em 1963, também agora, em 2017, já é tarde demais para mim. Mas para e por quem chega agora a esse maravilhoso teatro de sedução e sombras, que chamamos sexo e amor, não deixem que o medo triunfe sobre o prazer, não deixem que uma imensa barreira e barragem de normas frustre, escolástica, a física e a metafísica da gloriosa fusão dos sexos.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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3 respostas a A contra-revolução sexual

  1. Bea diz:

    Assino por baixo de tudo que vise separar os homens das mulheres. Somos todos pessoas, caramba. Mas se agora até as casas de banho (WC) são comuns – estão as duas dentro da mesma divisão -, por que carga de água se andam a lembrar de chinesices retrógradas e que só ficam mal a quem as propõe?!

    • manuel s. fonseca diz:

      É assim mesmo Bea, Vamos de abaixo assinado em frente. E muito obrigado por vir aqui tantas vezes conviver connosco..

  2. Pedro Bidarra diz:

    Ó tempo volta pra trás. E já agora leia-se este artigo do FT:
    https://www.ft.com/content/902581a0-99ff-11e7-b83c-9588e51488a0

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