Aforismo surrealista XIV

 

 

Quando Leão B. (mais tarde Leão T.) entrou pela última vez com vida no parque Lisky sentiu uma dor imensa num dos aros dos óculos. Súbita, metálica, de um tartaruga muito vivo. Pragmático, limpou o ouvido esquerdo com a unha de um mujik esfomeado que por ali andava e lançou-se ao Mar Negro.

Diz um jornalista americano que assistiu à cena que Leão B. nadou para cima de dez dias sem nunca se esquecer de cofiar a barbicha entre cada duas braçadas. A viúva de um Marechal que foi feliz para sempre haveria, muitos anos mais tarde, numa roda de amigas, de asseverar exatamente o mesmo.

Lembraria ainda o jornalista pertinente que naquela época do ano o calendário era ainda Juliano e Leão B. chegou atrasado ao médico. Viria mesmo a morrer nos trópicos de uma série de complicações nos óculos.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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7 respostas a Aforismo surrealista XIV

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Ah, Leão!

  2. EV diz:

    Muito bem caçado!

  3. Creatur diz:

    eu diria mesmo…gato escondido com o rabo de fora!

  4. Guilherme Godinho diz:

    Não fossem os óculos de tartaruga… e a coisa era ainda mais séria.

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