Ai porra!

Duas tentativas frustradas, preparo-me para a terceira. Nada. Nem uma letra. Digo-me são só anotações, então, que é isto?! Porra. O que é não sei. Sei que estou no jardim da Gulbenkian e o telefone toca e sim, a marcação para segunda-feira está confirmada. Assim, à queima roupa quando já não esperava. Portanto, tenho de ir para Santa Apolónia. Não vou a casa. Não vou buscar o carro: a senhora do Google Maps diz que são sete quilómetros de carro e apenas quatro a pé.  Nesta altura, ainda não descobri que a senhora do Google Maps é uma cabra. Não uma pejorativa cabra, antes uma cabra no verdadeiro sentido da palavra pois deve trepar tudo quanto há e encarrapitar-se no cimo de uma árvore. Cabra.

As ruas desertas, não é menina? Só cá estamos nós…

Tudo muito bem, Rua Joaquim Bonifácio fora e quando dou por mim já passei a Almirante Reis, ah, isto faz-se num instante, e então é quando começa a cabrice. Primeiro, sonsa, sotto voce, ali na Rua do Forno do Tijolo, mansa, a subir devagar. Depois, bem, depois, já bem mais lá para baixo e ainda antes de saber o que me espera, vejo tanta rua deserta, nem uma alma pelos passeios, só carros estacionados, estes milhares de habitantes de quatro rodas. Que tristeza. Casas a apodrecer. O que vasculhei esta Lisboa à procura de casa… propostas, leilões, o diabo, e ruas inteiras a apodrecer à sombra. Quando chego à Travessa do Cardeal – travessa ou beco? – a seguir ao Campo de Santa Clara, percebo o raio da toponímia: só pela vontade de Deus é que uma pessoa não escorrega como se tivesse esquis nas patas, logo eu que nunca fui bicho de neve e me estou bem lixando para o snowboard. Ai porra que ainda vou de reboleta!

Comam tremoços, senhores; Comam tremoços! Olhem que não há mais metafísica no mundo senão tremoços.

Bilhetes comprados. Água das Pedras gelada ali entre turistas e dois nativos de volta de duas imperiais e um pires de tremoços. Volto à madame dos mapas para saber a que distância estou da Vencedora, na Rua de São Lázaro, quase a tocar no Martim Moniz. É logo ali. Dois quilómetros mal medidos.

Neste exacto instante, não diria tanto.

 

A Travessa do Cardeal a subir consegue ser pior do que a Travessa do Cardeal a descer – não há-de a igreja ter má fama. Quando emerjo, de rosto encarnado cardinalício do esforço da subida, dou com os olhos num mural de azulejos no mesmo Campo de Santa Clara. Não o vi antes – ângulo cego. La vie est belle, informa-me. Pois sim. Tem dias. E mon amour. Mon amour? De certeza? Portanto, meu amor, a vida é bela. Devo amar alguém e não sei. Talvez sofra de sonambulismo romântico e ande a pintar azulejos à minha própria revelia. Ou alguém me ama e também não sei pois, tímido, comunica através de mensagens em murais, deve ser mais barato do que usar espíritas ou pombos ou CTT. Porra para o amor.

O raio do mon amour… que fartura!

Não quero saber. Mandas-me para a Costa do Castelo? Eu vou. Lá em cima, no Beco dos Fróis tenho uma epifania: o Homem Aranha não é, nunca foi da Marvel, é lisboeta, e é por isso que se adesiva às coisas, para subir inclinações de 500% que a madame do Google Maps, vire aqui e trezentos metros para ali, a debitar ruas e distâncias, a cabra, inclinações, nada, nicles batatóides… Ainda por cima enganei-me, porra. Era para a Rua dos Cavaleiros – toca a descer. Do muro sujo caem romãs maduras, abertas. É por esta e por outras como esta que os turistas ficam de cabides à roda e andam aí com as suas malinhas à medida low cost: em cem metros, cai a humidade e as romãs, faz-se escuro e sujo e lixo, e do nada, calcário e branco, um edifício inventa a claridade, uma casa recuperada, de azulejos azuis a tinir, rompe a brilho o sujo e o lixo, e ilumina as pedras da calçada.

Vai medir mala, vai já…

Chego à casa de molduras, a bonecagem está pronta, e eis senão quando, seis franceses assanhados, três casais ruidosos, começam a tirar fotografias à Vencedora como se as pessoas lá dentro fossem adereços. Não há mínimos, porra. Porém há compensação. O proprietário, um senhor dos seus oitentas, minucioso nos embrulhos, nem me deixa, mas é que não deixa mesmo, pegar num só quadro. É muito pesado. Ora essa, eu levo até ao outro lado da rua e espero consigo pelo seu taxi. Está a vê-lo chegar no telefone? Agora é assim, não é? Chega o carro – é um facto, sou cliente da Uber. É ele quem põe os embrulhos no carro, adverte o motorista que terá de os tirar, e não me deixa ficar com o casaco entalado na porta. Talvez seja o último cavalheiro de Lisboa: sim, la vie est belle, porra, mesmo sem mon amour.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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8 respostas a Ai porra!

  1. Carlos Ribas Monteiro diz:

    A fotografia é uma arte, tem salvo-conduto. A fotografia de rua especialmente.

    • EV diz:

      As minhas fotografias são naturalmente más. Nem têm outra outra pretensão que a de serem más fotografias mesmo que estejam a ilustrar um percurso.

  2. Bea diz:

    A menina Eugénia está com azia?! É que nem o post parece seu.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Lisboa já mereci-a que a palmilhassem assim. Pé a pé.

  4. albertino ferreira diz:

    Há sempre uma Lisboa desconhecida á nossa espera! A propósito de porras :” Ora porra! Então a imprensa portuguesa é que é a imprensa portuguesa? Então é esta merda que temos que beber com os olhos? Filhos da puta! Não, que nem há puta que os parisse”. Álvaro de Campos – Livro de Versos- Teresa Rita Lopes.

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