Cortem as alusões intelectuais

a inocente namorada da adolescência

Nem a mãe gostava dele. Em “Dead End”, um filme de William Wyler, Bogart é um assassino impiedoso. Acompanhado por um dos seus facínoras, regressa ao bairro onde cresceu, na busca nostálgica de um pingo perdido de afecto. Vai ter com a mãe e a mãe diz-lhe, com asco e fel, o que as raras folhas do deserto terão dito aos cascos dos cavalos de Átila. Bogart ainda tenta encontrar a inocente namorada de adolescência – tropeça, porém, num trapo sifilítico, que o trottoir desgastou e atribulou. Ora, embora quase ninguém saiba, nem um gangster é de ferro, e Bogart corre a extinguir o fogo daquela amargura no primeiro bar de porta aberta. Leva a tiracolo o pistoleiro de segunda classe que o ajuda. Pedem dois gins. O barman serve-os, deixa a garrafa, vai a virar-se e volta atrás. Tira detrás da orelha um lápis contabilístico e risca forte e grosso, marcando o nível do gin na garrafa.

O produtor Samuel Goldwyn deu um salto da cadeira. “Isto é para cortar!” Visionava a montagem final do filme com Wyler. O realizador estava já de nervos em franja, tantas as tesouradas com que Sam lhe queria despedaçar o filme. Não admira que tenha desatado aos gritos: “Sam, és maluco, isto é a chave do filme. Estes dois gajos são tão assustadores, que até o barman lhes adivinha a maldade.” Goldwyn não desarmou: “É o tipo de cena que faz fugir o público e eu não ando a deitar dinheiro à rua. É uma alusão intelectual, nenhum espectador decente a vai perceber.” Wyler deixou-se cair no cadeirão e disse, sem saber que antecipava a mesma resignada incompreensão de um Passos Coelho: “Sam, mais límpido não há, até um miúdo de 10 anos compreende isto.”

Mandado pelos deuses de Hollywood, irrompeu na sala o filho de Goldwyn. Já tinha 12 anos, mas de pés descalços e Coca-Cola na mão, era como se tivesse 10. Goldwyn exultou: “Anda cá, Sammy, senta-te aqui ao pé de nós e vem ver uma coisa.”

O projeccionista apagou as luzes e passou a cena. Logo Goldwyn: “Então, filho, percebeste tudo?” “Claro, pai, o barman dá-lhes a bebida, vê que os dois homens têm ar de bandidos, desconfia e marca a garrafa para ter a certeza do que eles bebem.”

Goldwyn rompeu o silêncio irónico e reprovador da sala com o seu melhor sorriso: “Ah, estes miúdos de hoje, até parece que já nascem ensinados.”

a célebre cena

Publicado no Expresso, no último sábado de Outubro de 2017

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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