From Iran with Love (I)

Fui ao Irão. Sim, ao Irão. Fazer o quê, perguntam alguns, fazendo acompanhar a interrogação com um esgar de estranheza, quase incompreensão, pelo destino escolhido para passar uns dias de férias. Férias, questionam as mesmas vozes, atónitas, como se estar no Irão fosse uma penitência que não desejariam nem ao pior inimigo. Pois então, a esses, que insistem em tratar com condescendência, para não dizer piedade, quem se decida a pôr os pés em terras persas – e digo “persas” já para suavizar o estigma que me acompanhará pela vida fora de ter um passaporte carimbado com um visto iraniano (“coitado, nunca mais podes ir aos Estados Unidos”) -, deixem-me cá desmistificar umas ideias feitas ou clichés que por aí se ouvem ou leem sobre o “país dos Ayatollahs” (na expressão, simplista e redutora, que os adeptos de Trump poderiam usar se soubessem o que é um Ayatollah).

Começo pela afirmação, tantas vezes repetida, de que o Irão é um país perigoso, inseguro, ou inimigo do turista ou viajante ocidental.

Mentira. Bem pelo contrário, o Irão será, talvez, o país mais seguro e pacífico do mundo para um visitante que venha com “boas intenções”. Nas ruas ou no espaço público, nenhuma tensão se sente, nenhum olhar inquisidor se vislumbra, nenhuma pergunta inconveniente se faz, nenhuma vigilância ou controlo é visível. O que se vê, sim, são sorrisos e atenções a toda a hora, vindos de quem, manifestamente, quer projetar do seu país uma imagem diferente daquela com que ele é pintado pelo mundo ocidental. Diria mesmo que, mais hospitaleiro, acolhedor, afável e prestável que o iraniano, não vi em parte nenhuma do planeta por onde já andei. É certo que nos sentimos observados. Mas nunca com um olhar reprovador ou suspeito, sempre com a curiosidade própria de quem nos vê como inspiração ou modelo para a mais funda aspiração de grande parte da sociedade iraniana: a liberdade. Nada parece haver mais libertador para um iraniano do que lhe darmos o privilégio do diálogo ou comunicação – muitas vezes, quando falta a língua comum, com aquele tipo de gestos que vêm carregados de afetos, ou através da simples menção de duas palavras mágicas como “Ronaldo” e “Queirós” (sim, há destes paradoxos, o aqui impopular Carlos Queirós, no Irão, é venerado por ter qualificado duas vezes seguidas o país para o Campeonato do Mundo de Futebol).

Mas, perguntar-me-ão, o que é isso das “boas intenções” que acima referi, e que a um visitante se exige para ser recebido de braços abertos. Começa, desde logo, pelo respeito dos códigos de vestuário locais – os mesmos, que, paradoxalmente, vêm sendo contestados pelas novas gerações, urbanas, instruídas e liberais que, em maio passado, reelegeram o moderado Rohani (estava tentado a qualificá-lo como reformador, mas tal será excessivo para quem vê o seu poder altamente condicionado pelo Líder Supremo Ali Khamenei e pelos Guardas da Revolução). Esse é, só, o tema mais candente da atualidade na sociedade iraniana. E que tem tradução mais evidente na imposição às mulheres do uso do hijab (vulgo véu), bem como na obrigatoriedade de não se deixarem à vista curvas do corpo feminino (ou seja, tudo menos mãos, pés e cara, incluindo ainda a proibição de roupas apertadas ao corpo). Para evitar tentações das senhoras iranianas, nem os homens se livram de cobrirem pernas na totalidade. Segundo consta, é pela conquista de direitos pelas mulheres que tem passado ultimamente a vontade de emancipação das gentes locais. O hijab é simbólico dessa conquista: ano após ano, com a tolerância das autoridades, vão aumentando os centímetros de cabelo descoberto. Aspeto meramente simbólico, repita-se, quando a vida das mulheres vale metade da do homem no Irão. E digo-o no sentido literal: os homens herdam o dobro das mulheres, o testemunho das mulheres em tribunal tem um valor probatório equivalente a metade do do homem, tal como é duas vezes inferior a indemnização a pagar a uma vítima mulher por comparação com a de que um homem nas mesmas condições beneficia.

Mas, antes que me desvie muito do que me trouxe aqui, a desmistificação do mito de que o Irão é inimigo do turista, deixo-vos com imagens que, estou certo, contribuirão para vos convencer do contrário. Não esperem pela demora: eu voltarei muito em breve para (tentar) desmontar outros preconceitos que toldam a perceção que muitos têm de um país que não conhecem.

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a From Iran with Love (I)

  1. Ana Marchand diz:

    pois é Diogo eu tambem não me importva delá ir!

  2. albertino ferreira diz:

    É uma das mais antigas civilizações, tem gente simpática e mulheres bonitas, não há dúvida!

  3. Luisa Clode diz:

    muito bonito o teu texto

  4. Bea diz:

    O facto de ter mulheres bonitas não o torna um país mais livre; apenas tem mulheres bonitas, cada uma valendo metade de um homem (diria que valem menos de metade). E não sei mesmo se o que escreveu é suficiente para mudar a opinião das gentes acerca desse país. Mas pronto, tentou.

  5. Gonçalo diz:

    Conheço quem lá foi e diz mais ou menos o mesmo que o autor do texto. Também conheço um iraniano casado com uma portuguesa que me diz o mesmo. O Estado é policial mas não há polícias para tanta gente, segundo ele me diz… Tem-se cuidado mas não é tão mau como transpira. As coisas estão a mudar, espero.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Bem descrito, Diogo. E bem fotografado, também. São sempre fascinantes os mundos onde há dois mundos.

  7. Pingback: From Iran with Love (II) |

SEJA TRISTE, COMENTE