From Iran with Love (II)

Já antes vos escrevi sobre a perceção errada de que o Irão é inimigo do turista proveniente de paragens da chamada “civilização ocidental”. Isso leva-me a tentar rebater outra das ideias feitas que por aí se têm sobre o país, a de que é, de alguma forma, “incivilizado”, e que essa é uma característica que se manifesta, desde logo, no modo como o Islão – que aí é uma religião de Estado, que o justifica e lhe dá enquadramento para toda a ação política – oprime e abafa, até aos limites da intolerância, tudo o que com não se coadune com os preceitos do Corão.

Trata-se, uma vez mais, de uma conclusão precipitada. É certo que o Xiismo dos Ayatollahs que controlam o poder político no Irão é pretexto para restrições inadmissíveis à luz dos padrões de qualquer Estado de Direito que se pretenda livre e democrático (já aqui referi o papel menor que é atribuído às mulheres e a discriminação a que são votadas em muitos aspetos da vida civil). Mas daí a dizermos que, no Irão, não há espaço para o que se afirme anterior, exterior ou mesmo contrário à cultura islâmica (como acontece noutros Estados não laicos de maioria sunita), vai uma enorme distância. Basta dizer que algumas das principais atrações turísticas do país (sendo que, no Irão, o turismo vem sobretudo de dentro do país) nada têm a ver com o Islão, quer por lhe serem anteriores (Persepolis, Pasargadae, Nacht-e Rostam, Torres do Silêncio em Yazd), quer, porque respeitam ao período da dinastia Pahlavi (o Palácio de Niavaran, o Tesouro das Jóias, a Azadi Tower), assumidamente adepta de um Estado laico à maneira de Attaturk na Turquia (Reza Shah, pai de Reza Pahlavi, chegou a tornar ilegal o uso do chador).

Isto não acontece por acaso, claro. Acontece porque, na cabeça da esmagadora maioria dos iranianos, o Irão continua um Estado laico (como o era, de facto, até 1979). Menos de 1,5% da população frequenta a mesquita. Boa parte das mulheres, se lhes dessem oportunidade, encheriam as ruas com cabelos esvoaçantes e mini-saias espampanantes. Por enquanto, limitam-se a olhares malandros e a sorrisos insinuantes. Os homens, se pudessem, acabavam com os dotes matrimoniais. Todos juntos, arrancariam os cartazes ao melhor estilo “Big Brother is watching you” de Khomeini e Khamenei que espeitam a cada esquina, abririam bares e discotecas (uns e outros proibidos no Irão, como proibido é o consumo de álcool) onde pudessem conviver livremente, e aproveitariam, certamente, as águas cálidas do Golfo Pérsico para se banharem quase nus.

Mas, por mais ou menos frequentada que seja no Irão, para o estrangeiro a mesquita é uma experiência imperdível. Porquê? Desde logo, pela riqueza dos interiores, pela beleza arrebatadora dos painéis de azulejos, dos vitrais policromados e dos tetos abobadados. Mas sobretudo pela espiritualidade a que tais espaços convidam qualquer visitante, ainda que “infiel”. É bem vindo o turista de qualquer crença como o é o ateu. É bem vinda a câmara fotográfica – os iranianos gostam de ver os seus espaços de culto fotografados ou filmados para consumo além fronteiras. É extraordinária e surpreendente a obsessão do iraniano em projetar para fora uma imagem diferente daquele que os media ocidentais vendem. Pela parte que me toca, e por mais ceticismo que já me merecesse alguma da imprensa que diaboliza o Irão (dou graças aos contrapesos que têm sido os recentes filmes de Jafar Panahi e de Asghar Farhadi, ou os mais antigos de Abbas Kiarostami), confesso que ainda olhava para o espaço (que julgava fechado, aliás) da mesquita iraniana como centro de radicalização da fé islâmica e de propagação do ódio pelo Ocidente. Não podia estar mais enganado. Foi tal o arrebatamento aí sentido por alguns dos meus companheiros de viagem, educados noutra fé religiosa que não a aí professada, que se ajoelharam para rezar. E, por momentos, julguei ver Maomé e Jesus, ali a um canto, a conversar animadamente como dois bons velhos amigos.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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4 respostas a From Iran with Love (II)

  1. Creatur diz:

    uma terra com uma história incrivel…boa reportagem!

  2. Luisa Clode diz:

    excelente, fico a espera dos próximos relatos

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