je suis un autre 4

«Há muito tempo que abandonei a denominada arte moderna»

                                                             Joseph Beuys

Não colocarei os meus pés em solo americano antes do fim da guerra do Vietname.

Voarei para N:Y.  Serei recolhido e transportado deitado na maca de uma ambulância.

O meu corpo será coberto, um rolo de feltro servirá de mortalha.

Cadáver?

Assumo representar uma civilização que se distanciou tanto da natureza que está moribunda.

Atravessamos as ruas da cidade.

A ambulância pára às portas da galeria no Sonho e deitado na maca deslizo para o interior da sala.

Ali espera-me o meu novo trabalho, a minha mais esperada experiencia.

Depositam-me numa sala vazia como se fosse um embrulho.

 No chão palha e jornais.

Será este o espaço, os quatro muros, onde durante 3 dias vou coabitar com um Coiote.

 (o coiote na mitologia nativa americana simboliza a possibilidade de cura. É um espirito

 animal que ensina como sobreviver.)

Escolho esta forma para falar do grande trauma americano. O conflito e a destruição do Outro.

O Índio.

Serei o feiticeiro, o shaman. O meu equipamento, os meus instrumentos: um bastão, um cobertor, uma lanterna.

Procuro a cura, o encontro, o reencontro.

A comunicação, a reconciliação entre o homem e o animal.

Simbolizarei a cicatrização, serei o curador da cultura ocidental, doente de si própria.

(O coiote urinava todos os dias nos jornais de Wall street que lhe serviam de cama)

 

Os dias passaram. Um tempo de silencio olhares e gestos.

Mediamos aproximações e afastamentos.

O comportamento do Coiote mudou. De cauteloso a distante, agressivo e finalmente amigável.

Ao fim dos três dias enrolaram-me de novo no feltro, depositaram-me na maca, colocaram-me na ambulância.

 Regressei.

 

 «Interessa-me a transformação, a alquimia de uma coisa a transformar-se noutra.»

Joseph beuys

 

 

 ( Joseph Beuys , pensador, criador e professor alemão da 2ªmetade do sec.XX. )

 

Sobre Ana Marchand

sou uma creatura
sou uma creatura no meio de imensas outras criaturas.
sou um pouco deste planeta e muito deste universo.
busco o calor e a luz.
fabrico imagens , olho atentamente ,deixo nas folhas dos cadernos essa memória , o registo, o arquivo
leio , leio muito.
rodeio-me de sons.
sou nómada , viajante, curiosa, estudante.
gostaria de me consumir totalmente, sem deixar resíduo.

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3 respostas a je suis un autre 4

  1. Nano diz:

    Não foi nem é fácil entender o Beuys, mas cada vez que me aparece mais forte e central em todo o pensamento pos guerra. Uma crítica lúcida e clara sobre uma sociedade que julga ser superior porque acha que é suficiente apontar o dedo aos culpados e aos vencidos … Um dos meus livros de cabeçeira é o Thinking is Form …

  2. Ana Marchand diz:

    belo e importante livro.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Tenho de o ler. Fiquei com mais vontade.

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