Micah P. Hinson, Musicbox Lisboa, 14 de Novembro 2017

Repesco este velho post para vos dizer que este rapaz, amanhã, estará aqui. Ide!

Se gosta de Neil Young, Bob Dylan, Johnny Cash, Woody Guthrie, do mais novinho e meio-francês Charles Pasi, de Amy Lavere e de Seasick Steve, dos Lucero, vai gostar deste sacana. Bem sei, sacana não é palavra que use, mas não me ocorre uma melhor e alguma coisa me diz que esta alma está convencida que não é flor que se cheire.

Porquê? Não, não é porque beba como se vivesse a Lei Seca, fume, ou enfie drogas pelos orifícios que entende. Isso é natural quando é natural. É uma daquelas coisas.

James Christopher Monger diz que ele é um rapaz problemático formado na linha dura do cristianismo e da cadeia, tudo metas cumpridas, droga, álcool, bancarrota e viver atrás das grades, antes dos vinte anos.

Parece-me muito razoável que tenha sido antes dos vinte, pelo menos tanto quanto o mais fundamentalista dos cristianismos andar de braço dado com a morte – é outro nome para destruição, para o infame pecado. É um par antitético. Também são estas cisões que desgraçam a gente e a faz criativa, ou as mata, ou dois em um. Desgraçam quer dizer, graçam: são uma Graça, uma Bênção. Uns Cristos crucificados em pequenino. Não parecem, pois não? mas são. Olhe, o meu Johnny Cash é um. Vê? Se não fossem eles como é que chorávamos os nossos desgostos profanos por aquilo que nos é mais sagrado? É preciso que alguém sofra para nos levar o sofrimento ao colo, quero dizer, consolo – não estamos sós. Não são é cruzes que se usem ao peito, usam-se no ipod. E é preciso alguém que sonhe. Tenha esperança e outras irracionalidades que embatem contra o mundo e não se desfazem.

E o que é isso dos vinte anos de álcool, droga, cadeia? Se começasse a ser o que é depois dos 30, num de repente, talvez houvesse alguma coisa aí. Assim não, é triste, é feliz, bom e mau, é previsível. É lógico, perverso, mas lógico. E por nós homens e por nossa salvação descem dos céus.

Os alquimistas medievais afirmaram: o que toca no céu tem as raízes no inferno. O que Micah P. Hinson deixa no palco está em trânsito entre o Texas, com o fundo em Memphis, e o futuro em Jerusalém Celeste.

Micah P. Hinson tem  quatro ou cinco álbuns e já passou por Portugal algumas vezes. Já sabe, saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Enjoy.

Sobre Escrever é Triste

O nome, tiraram-mo de Drummond. Acompanho com um improvável bando de Tristes. Conheço-os bem e a eles me confio. Se me disserem, “feche os olhos”, fecharei os olhos. Se me disserem, “despe-te”, dispo-me.

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6 respostas a Micah P. Hinson, Musicbox Lisboa, 14 de Novembro 2017

  1. Micah (com o Cash de american recordings), rosários de ipod. Ou assim.
    “Se não fossem eles como é que chorávamos os nossos desgostos profanos por aquilo que nos é mais sagrado?”
    Magnífico. Porque o que é verdadeiramente importante não são as respostas que nos damos mas as perguntas que nos fazemos.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Muito bom, e é hoje….!!!

  3. Creatur diz:

    não vi mas ouvi….e é bom , verovero!

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