O escadote e a peste

 

Será mesmo verdade que somos o que lemos? É que se for, estou feito num frangalho. Nem eu sei o que sou, nem com um espanador me hão-de apanhar os destroços. Passei agora pela  minha estante, a mais alta estante, a que subi de escadote. Procurava o que não encontrei e encontrei o que não procurava, mais exactamente o meu lamentável passado. Seis livros seguidos e neles um daqueles espelhos deformadores de feira popular, o género de feira a que pensava nunca ter ido.

O primeiro livro foi esquizofrenicamente datado. Logo na primeira página, antes da folha de rosto, tem a inscrição Luanda, 1969. Mas na página seguinte, assinado Mané Santos, nome de guerra de um puto de 16 anos admirador de Garrincha e do toureiro Manuel dos Santos, a data é 2/5/1970. Capa azul, com o título Pearl Harbor, tem lá dentro uma novela do poeta soviético Ievtuchenko, popular no Ocidente pela denúncia chique e champanhe do execrável estalinismo.

Encostado ao russo charmoso, comprado na mesma Lello, de Luanda, mas já em Dezembro de 74, assinado a nome completo Manuel dos Santos Fonseca, o que, para o maoismo em que eu então me deitava, denunciava um pendor individualista e possessivo de valha-nos Deus Nosso Senhor e perdoe-nos a Amélinha do Padre Amaro, eis que encontro, de Jean Cohen, Estrutura da Linguagem Poética, traduzido por José Victor Adragão, livrinho de 240 páginas que me saíram a 50 centavos cada uma. Foi nesta obra, entre o azul e o verde, que me confrontei com o problema poético – e pasmem – a nível fónico e a três níveis semânticos, a predicação, a determinação e a coordenação. É fácil de perceber que quem aguenta estes quatro níveis, está pronto para mandar o MFA às urtigas e para mergulhar em qualquer movimento guerrilheiro que advogue a fuga para a mata e a luta popular prolongada.

Pois bem, saio da mata, venho a Lisboa e, em Setembro de 1975, o que compro? Posições, de Jacques Derrida. Não se iludam, não era um livro escapista e o subtítulo não incluía a graciosa simetria de algarismos do tipo 69 ou afins. Posições tinha por subtítulo Semiologia e Materialismo e foi editado pela Plátano, numa colecção dirigida por Eduardo Prado Coelho, de que eu não sonhava ainda vir a ser amigo e editor. O livro é praticamente impossível de ler. Por uma razão simples: sublinhei-o desarvoradamente, seguindo aliás um conselho preambular, um dos poucos troços que escapou à veemência dos meus riscos azuis e vermelhos, e cito: “Toda a clareza é reforço da ideologia dominante, fazendo da leitura um mero jogo de alusões e reconhecimentos.” Citação que, creio, é uma deliciosa contribuição para a hermenêutica do pensamento de esquerda que Henrique Raposo tem vindo a fazer no Expresso.

Nem um mês depois e já estou no Lobito a esportular mais cem paus, em angolares, para comprar o Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure, de novo numa tradução de José Victor Adragão. A tensão no Lobito era grande, a FNLA era uma sombra, exército da noite, a UNITA tinha, como sempre Herodes tem, o povo consigo, e o meu MPLA era, para nós, Jesus Cristo superstar. Agora, onde é que eu tinha a cabeça para, no meio desse florescimento simultaneamente sincrónico e diacrónico, andar a comprar e a perder dioptrias com livros destes?

As hostilidades prosseguem, andam pelas ruas guerrilheiros de jipinhos Suzukis amarelos, e eu venho a Luanda – julgo que foi o ministro Jeronimo Wanga que me intimou a comparecer. Compareço, tenho uma leal e mal aconselhada conversa com ele e para onde é que levam os meus 20 aninhos? Para a livraria Lello, claro, que o selinho amarelo com a referência 1293 e o preço de 105 escudos angolanos, não engana. Era Fevereiro de 1976 e eu, obstinado, adquiri Literatura e Semiologia, com textos de Barthes, Gérard Genette, Todorov e da abençoada Julia Kristeva. De que falava? Da guerra, da pulsão libidinal de um rapaz branco sozinho em África sem a família, da espada geo-estratégica suspensa sobre a cabeça de Angola? Pois está quieto, o livro tinha textos arrebatadores sobre “a verosimilhança que não se pode evitar” e, se não quiserem acreditar, não acreditem, sobre “a análise do discurso narrativo em Urbino”. Eis o que eu lia antes de partir para comícios no morro da Bela Vista e para acções de esclarecimento político a militantes do obscurantista galo negro. Não era uma missão fácil, mas eu estava preparado.

Nessa mesma viagem a Luanda – qual viagem, razia! – comprara A Estilística, de Pierre Guiraud. Comprei-o no Centro do Livro Brasileiro de Angola, na Rua Luis de Camões, 15, que tinha a Caixa Postal (delícia, né?) 3583. Encabeçava o livro a epígrafe certa “Quoi qu’en dise Buffon, le style c’est l’homme”. Conscienciosamente sublinhei 134 das 268 páginas. A meio, exactamente a meio – ou não fosse o estilo o homem – abdiquei, como se uma ausência zen se tivesse apoderado de mim ao deparar-me com o capítulo dedicado à idiomatologia. Terá sido uma decisão de foro interno, uma tomada de posição próxima de um balanço estilístico genético? Ou terá sido uma convulsão político-militar externa ditada por um dos comunicados da situação político-militar lidos pelo comandante Juju?

Estes são seis livros da minha estante. Estavam seguidos, enternecida e insidiosamente encostados uns aos outros. Olham-me com laivos de amargura e o rancor dos esquecidos da História. Temo, agora que lhes voltei a tocar, que uma doença desconhecida, uma peste de Camus, me invada. Este texto que vos escrevo é já um texto de quarentena.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a O escadote e a peste

  1. Bea diz:

    Também tenho assim uns da universidade moderna com títulos semelhantes. Sou incapaz de entender que obscuros caminhos me levavam para os campos da linguística que de certeza não compreendia. Seria moda? Apesar da potência dos sublinhados, tenho certeza que, à luz da idade, pouco entenderia. Não creio que alguém volte a lê-los, eu incluída. Fazem parte da história pessoal. Assim a modos que um retrato antigo da mente.

  2. EV diz:

    Nem lhe passa pela cabeça o que me ri com esta colagem livros/vida! Desde o fado procuro e não te encontro à quarentena final – coisa bem pensada – e com tudo o que está entre e apanha de surpresa como os hilariantes quatro níveis e decorrente mergulho guerrilheiro, a ausência zen e a leitura pré Bela Vista… fun!

    • manuel s. fonseca diz:

      Menina Eugénia, olhe que a minha guerrilha é toda mental. Passe a leve pistola-metralhadora Vigneron capturada à FNLA sobre a qual um dia farei um post. Gostei de a ouvir rir.

  3. Gonçalo diz:

    Maria João Freitas escrevia aqui há uns meses um texto delicioso sobre a sua estante e a biblioteca que a enchia. O Manuel agora volta à carga, com outra roupagem, mas sempre em redor dos livros. Neste blog “triste” composto por tantos tristes que vivem de caneta e A4 diariamente (e um computador, concedo), por que não nos “entristecerem” elocubrando acerca das respectivas bibliotecas? Não seria uma belíssima “tristeza”?
    G.

  4. A Vieira diz:

    Para tristezas basta o latir do buda-elástico-montado-na-vaca~voadora,sorrindo-sobre-o-deserto-negro de Portugal.

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