Songs of a Lost Time (2)

titulo : “one more cup of coffee”

album : Desire

artista : Bob Dylan

O álbum foi gravado em 1975 e lançado em 76, o décimo sétimo álbum de estúdio de Dylan…

Em todos os aspectos este é um dos clássicos. Desiludido com os músicos de estúdio disponíveis,  sempre na procura de novos caminhso musicais , sonoros, Dylan a querer , uma vez mais , surpreender-se a si mesmo e ao seu público.

Muito se escreveu sobre este álbum que coincide com a procura de uma nova banda de suporte do músico. Jacques Levy e Roger MGuinn, o primeiro como co-escritor de quase todos os temas, o segundo como elo de ligação entre Dylan e o novo naipe de músicos, foram peças fundamentais nesta mudança. Quem participou acaba por ficar na história da música popular norte americana. Todos revelaram, entre entrevistas e memórias, a singularidade da construção do que viria a ser  Rolling Thunder Review, com quem Dylan tinha começado a tocar no verão de 1975, e que viria a ser a escolhida para a maioria das gravações de Desire.

Os ensaios começaram caóticos e desorganizados, com dezenas de músicos à espera de saber se iriam participar, onde se incluíram os guitarristas Eric Clapton e Neil Hubbard, este último que viria a ser mais conhecido pela suas notáveis participações com Brian Ferry e os Roxy Music. Nem um nem outro acabam por participar no álbum tendo sido Mike Ronson o guitarrista escolhido para acompanhar a tournée de divulgação…

Como sempre acontece, a história foi feita de acasos e improvisos. Que seria do álbum sem a participação do violino de Scarlet Rivera, ou das segundas vozes de Emmylou Harris ?
Dylan atravessando o Village na sua limo, descobre Rivera na rua e pede-lhe para vir ensaiar temas novos que andava a compor. Nada estava programado. Simplesmente aconteceu. Emmylou apanhada desprevenida logo no primeiro “take” de “Oh Sister” olhando a letra que ainda não conhecia à sua frente, mas sem deixar de olhar Dylan que poderia sempre surpreender com a uma mudança de ritmo e até de acorde. O baixo que entra porque a guitarra se atrasa, a voz que foge do tom mas que volta quando quer.

O álbum ficaria conhecido pela produção limpa mas não polida de Don Devito  que não gostava das tendências para a improvisação de Dylan. Hoje reconhecemos como exemplos únicos de uma era musical o intenso e extraordinário “Hurricane”, primeiro tema do álbum, homenagem ao boxer negro Rubin “Hurricane ” Carter injustamente acusado de um triplo homicidio, a  longa versão de “Joey”, ( 11.05 m), ou ainda “Sara”, raro exemplo de Dylan a revelar pormenores da sua vida privada e da sua primeira mulher Sara, de quem se divorciaria pouco tempo depois :

Sara, oh Sara,
Glamorous nymph with an arrow and bow,
Sara, oh Sara,
Don’t ever leave me, don’t ever go.

Não  sendo fácil escolher entre as muitas pérolas do álbum ” One more cup of cofee” é uma das minhas favoritas. A melodia transformada pela voz de Dylan, a linha do baixo que com o violino definem, logo no início, a atmosfera do tema. A guitarra acústica anuncia , insegura, o baixo que enche e abre caminho ao violino. A bateria seca que vai crescendo.

E depois a letra na voz aguda de um Dylan cigano, entre a imagem de um amor que se perde e um mundo estranho que se pode vir a abrir.

Curiosamente uma das músicas que é escrita unicamente por Dylan.

Your breath is sweet
Your eyes are like two jewels in the sky
Your back is straight, your hair is smooth
On the pillow where you lie
But I don’t sense affection
No gratitude or love
Your loyalty is not to me
But to the stars above
One more cup of coffee for the road
One more cup of coffee ‘fore I go
To the valley below
Your daddy, he’s an outlaw
And a wanderer by trade
He’ll teach you how to pick and choose
And how to throw the blade
He oversees his kingdom
So no stranger does intrude
His voice, it trembles as he calls out
For another plate of food
One more cup of coffee for the road
One more cup of coffee ‘fore I go
To the valley below
Your sister sees the future
Like your mama and yourself
You’ve never learned to read or write
There’s no books upon your shelf
And your pleasure knows no limits
Your voice is like a meadowlark
But your heart is like an ocean
Mysterious and dark
One more cup of coffee for the road
One more cup of coffee ‘fore I go
To the valley below

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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4 respostas a Songs of a Lost Time (2)

  1. Ana Marchand diz:

    belo text Bernardo que nos transporta de novo para estas «vontades» de sonhar.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Das melhores chávenas de café que bebi recentemente.

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