A beleza interior

Publiquei este post noutro blog, o Livro, Labirinto e Letras. Lá só escrevo praticamente sobre os livros da Guerra e Paz editores, que é minha e que oito esforçados e talentosos trabalhadores tudo fazem para tornar melhor. Se republico o post é só para ter o prazer e ver a escrita de Jorge de Sena e a pintura de Mariana Viana aqui estampados, uns dias antes deste Escrever é triste fazer 6 anos.

A beleza interior

Já dissemos, desta edição de O Físico Prodigioso, tudo o que sobre as soluções tipográficas se pode dizer. Mas, por mais espectaculares e inovadoras que sejam essas soluções, a força deste livro vem do excepcional valor da escrita de Jorge de Sena e da pintura de Mariana Viana, que com esse texto dialoga.

Mais do que mil qualificativos sobre este livro erótico, que tanto antecipa as discussões de género que atravessam o mundo contemporâneo, convido-vos a ler três excertos e a olhar para três das magníficas ilustrações de Mariana Viana. Silêncio, que escreve Jorge de Sena:

«Não havia, nem ao longe, sinal de gente. Ficou então completamente nu. Mas, quando ia para entrar na água, e já os pés lhe estavam dentro dela, ouviu de leve um riso casquinado que, quase desde o berço, lhe era familiar. E, arqueando as sobrancelhas numa expressão de tédio, recuou para a fina erva, e alongou-se no chão languidamente. Com paciência, num abandono indiferente, com a cabeça pousada nos braços, deixou que o Diabo se desesperasse invisível sobre o seu corpo. Carícias prolongadas que leves lhe corriam pela pele, beijos sussurrados que o mordiam pelo corpo adiante, mãos que se obstinavam no seu sexo, durezas que se encostavam nele tentando penetrá-lo… — era o costume, desde que primeiro se soubera homem e se despia todo, e se estivesse só. Sofria aquilo como um vexame inapelável que o não excitava, e nem sequer lhe dava horror ou repugnância. E que, até certo ponto, o divertia de algum orgulho por paixão tão teimosa e tão ridícula, a que não encontrava em si mesmo, por mais que se observasse, a mínima correspondência que a justificaria.»

«Nua sobre o lençol branco, Dona Urraca não se moveu nem abriu os olhos. A sua pele tinha uma cor marfinada, que se destacava na brancura e ao mesmo tempo parecia alastrar-se nela. O pescoço era longo, e magro como os ombros. Mas da cava peitoral das clavículas os seios avançavam fortes, ainda que descaídos, em curva e contracurva, que mamilos crespos, largos e escuros, coroavam. Depois, a cinta era estreita, e as ancas, ossudas e largas, espetavam levemente as pontas de seus ossos, de que a barriga fluía redondamente como que precipitando-se no umbigo que parecia aquele buraquinho a meio de uma água que se esgota. E, numa onda que se encurvava, o ventre descia para uma altura cuja outra encosta um negro matagal cobria, sumindo-se no fino vale das coxas unidas. Os braços vinham magros até ali, terminados por longos dedos de compridas unhas. As coxas, então, afunilavam-se para os joelhos aguçados, e as canelas eram magras, com a barriga pousada ao lado. Mas os tornozelos eram de todo frágeis, e só os pés se alteavam tensos, os dedos entreabertos e recurvos.»

 «Retendo a respiração, encostou-se à parede e esperou. Agora, ela vinha vindo, como se esperasse que ele estivesse pendurado qual tapeçaria. A mão dela encontrou-lhe o ombro, que apalpou cravando-lhe as unhas. E logo o outro braço lhe rodeou a cabeça, puxando-lha para os lábios entreabertos que gorgolejavam saliva. Toda ela se lhe colou violentamente, esfregando-se contra ele. E, sentindo-se sorvido por beijos calcados e intermitentes, ouviu que ela lhe dizia rouca:
— Assim, assim, quero-te assim invisível. Vem.
E ele, cujo corpo era todo uma tensão que estourava, segurando o gorro para que lhe não caísse, deixou-se despir por aquelas mãos que todo o percorriam, sem deixarem recanto que não perscrutassem com dedos interrogativos, para o que ela se abaixava e levantava em volta dele, beijando-o por toda a parte; e, cerrando os olhos, deixou-se ser levado para o leito onde, invisível o corpo mas não o prazer que sentia, perdeu de todo a virgindade.»

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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