Água para a flor

ÁGUA PARA A FLOR
O rei Samuel chorava e chorava a traição de Saul:
que engano… engano como se fora escolhido?
Samuel, apesar de rei, não sabia que a liberdade
subordina a decisão.
Deus, todo Verbo, só queria avançar, e de ver Samuel parado
no desgosto do tempo já ido,
a dar de comer à dor, há-de ter-se fartado.
Quem rega ervas daninhas quando as flores morrem de sede?
E, porque era Deus, mandou-o.
Samuel, porque era rei, obedeceu.
E foi à Casa de Jessé, dar água à flor,
as mãos em concha, elegê-la.
Foi à Casa de Jessé onde, desconhecido de si mesmo,
morava o rei dos reis,
o ungido.
Dele seria o que Saul quisera perder.
Mas Samuel antes de ser rei era um homem.
E um homem escolhe com os olhos porque só vê
o que está diante dos olhos.
Pensou Samuel que o amado de Deus era Eliabe. Alto. Forte.
Eliabe não era. E Deus explicou.
Pensa com o coração. Ama com a cabeça.
Vê como uma mulher vê.
Então, de nada serviu a Jessé desfilar Abinadabe,
depois Samá, e cada um dos seus sete filhos,
pois Samuel via como tu e eu e Deus.
E quando não havia mais filhos para apresentar,
inquiriu. E finalmente trouxeram-lhe David,
que andava nos montes a apascentar cabras, David,
onde a linhagem de Cristo se abre.
A vida não é diferente disto:
a água é para a flor.
Não se pode perder o futuro a chorar o passado –
crescem ervas daninhas ao sal das lágrimas.
É preciso que Saul parta para entregar o trono a David.
É preciso saber que Eliabe não é David.
E só no pequeno há espaço
para o infinito habitar.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Água para a flor

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Entre a obediência e o infinito…

  2. Bea diz:

    “um homem escolhe com os olhos porque só vê
    o que está diante dos olhos.

    E só no pequeno há espaço
    para o infinito habitar.”

    A menina Eugénia podia reescrever o Antigo Testamento que ficava logo todinho tão mais bonito e cheio de sábias verdades poéticas! Eu comprava.

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