Espelho Teu, Espelho Meu

ESPELHO TEU, ESPELHO MEU

Um homem não consegue perceber
isto de sapatos e carteiras – nem precisa…
Nem isso nem o espelho da Madrasta da
Branca de Neve onde nos vemos todos os dias
e todos os dias ouvimos dele: claro que há alguém!
Alguém mais belo, mais jovem, mais fresco,
alguém mais risonho, mais feliz e mais amado
por ser mais belo, mais jovem, mais fresco.
Não percebem nem quando dizem de si mesmos:
já não sou quem fui…
Os espelhos deles somos nós, não eles,
e se têm cabelos brancos
são sexy, e se têm rugas é experiência –
a mulher ama melhor.
O nosso espelho, a puta da madrasta, são eles.
Eles que ficam encandeados, e disfarçam
tão bem como um veado na estrada quando lhes passa
um decote ao lado, um bom cu, e nós diante deles, à mesa,
a fingir que não vemos a ponta de um corno, melhor,
a fingir desconhecer o par de cornos porque
também sabemos que somos o decote de alguém.
E compramos sapatos e carteiras. Um homem que amemos
é um cabrão omnipotente – felizmente, isso, também não percebe,
como nem sonha que, se batermos com o salto
e atirarmos com a carteira, a casa vem abaixo e não há
braços de homem que a ponham de pé.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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7 respostas a Espelho Teu, Espelho Meu

  1. Bea diz:

    Belo poema. Mas se há mulher que viva o inseguro complexo de superioridade da madrasta, está lixada. È certo, há quem se recuse aos efeitos do tempo. Mas é muito inglório. E talvez o olhar se demore nos decotes e mais sítios por compreensível saudade de quando. Se até eu olho os mais jovens com essa ternura de neles me relembrar…

  2. EV diz:

    Olá Bea, bom dia. Não é só a natural impiedade do tempo, que é só uma educação para a morte e o amor, é o tempo na relação amorosa, e o olhar do homem, da mulher, como espelho… 😀

  3. A Vieira diz:

    salut les copines…..

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Eugénia, tem de pôr este seu poema ao lado do Borges. Acho que é no Tlon, Uqbar , Orbis Tertius, que os compara à cópula.

  5. Creatur diz:

    o meu espelho transformou-se numa telha de barro. È nele que me NÂO vejo todas as manhãs!
    a vida é bela…

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