House of what?

A menina Audrey até de venda e tampões nos ouvidos pode abrir a porta…

Os meus cortinados chegaram – finalmente. Foi na quarta ou na quinta-feira? Para quem gosta de dormir no absolutamente escuro e tem uma janela sem persiana nem portada, cortinados com blackout fazem a diferença. Estou farta de dormir de venda. Ainda por cima com tanta volta e reviravolta e levanta e deita, não venda nada, caneco… Nesta época de festas, não consegui quem viesse montá-los. Talvez para a semana. Apesar de uma das janelas do quarto estar escancarada à luz, a verdade é que gosto muito dela. Tem um banco e umas pequeninas prateleiras cheias de livros por baixo. Então, sento-me ali, à noite, a ver não sei bem o quê na rua vazia antes de me ir deitar. E sento-me ali, de manhã, de secador em riste, a secar o cabelo e o sol em cheio.

A minha casa faz-me feliz. Ainda tenho uns quadros por pendurar encostados ao aparador, na sala. Ainda há o que falta, a chaise longue no quarto. Ainda há as pequeninas coisas: um objecto que não encontrou o seu lugar, uma nota dissonante, mas pouco a pouco este Tetris arruma-se. Gosto do bem organizado, limpo, sem pó. De abrir qualquer gaveta ou porta e encontrar tudo em ponto Disney: perfeitinho. Quem sabe o que é viver num caos de letras, percebe. Não há escritor que não seja as formigas nos trabalhos de Psique, a separar alfabetos internos. A minha casa está em ordem. Mas nem assim, hoje, poderia abrir a porta se me batessem à porta: vesti uma camisa de xadrez, de flanela, aí com uns mil anos, umas calças velhas, pantufas e meias de lã. E decidi passar o dia assim.

Hoje vou ver a quinta temporada de House of Cards. Toda! Pensei. Sem pensar: sou pouco tecnológica. Resumido: não consegui ligar o velho dvd à nova tv. Falta-me um cabo. Cedi e decidi: vou-me vestir e comprar o raio do cabo. Que cabo? Não sei. Espreitei as traseiras do animal, os fios que o prendem à box, e nada, só arreios mistério. Não posso chegar ali e dizer, olhe, queria um cabo mágico, se faz favor. Lixe-se. Fico de flanela.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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8 respostas a House of what?

  1. carlos diz:

    eu penduro-lhe os cortinados, com uma perna às costas

  2. Creatur diz:

    boa flanela então!

    eu para finalizr o ano mergulho em «como representar o IRREPRESENTÀVEL»

    bom ano.Bom ano NOVO.

  3. teresa conceição diz:

    Venda ou não venda, BOM ANO e CASA FELIZ Eugénia!
    (Que texto tão quentinho e bonito. Beijinho)

  4. B. Ferreira diz:

    Um “piqueno” truque de pessoa ainda menos tecnológica, que teve de lidar com algo ainda menos tecnológico: uma torneira. Tira-se uma fotografia ao problema e leva-se à loja do Sr. António, que tem tudo e sabe de tudo. Problema resolvido… 🙂
    Feliz Ano Novo

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