Mas ontem no sofá

A cara era de trombalazanas. Charles Laughton se fosse cão seria um bulldog. Marlon Brando, se quis ser Don Corleone, teve de atafulhar as bochechas com algodão. Laughton tinha as bochechas cheias de Shakespeare e Old Vic. Era, como os actores que se amam a si mesmos, um actor difícil: amador, disse ele, profissionais são as putas.

Filmava “They Knew What They Wanted”. Fim do dia, o realizador, Garson Kanin, a regalar-se na quinta onde se instalara e aparece-lhe um alvoroçado Laughton: não filmaria a porcaria da cena do dia seguinte. Não agarrava o ritmo. Exaltado, ia dizendo o texto e a verdade é que era uma sem-graça de Jesus, Maria, José. Foram conversando, embrenhando-se no pomar da quinta. A noite caiu e, no escuro, aos tropeções, Kanin levava em cima com os 120 quilos de Laughton, sempre a balbuciar o texto por entre ramos e silvas. Desembocam numa clareira, a lua a banhar o corpo gorila de Laughton e foi a melhor representação que a boquinha de Kanin já degustara. Laughton sabia: “Agarrei a cena”, exclamou com desdém e superior paixão.

No dia seguinte, filmam. Laughton bem tenta, mas diz tudo sem convicção. Repetem até que Laughton grita: “Perdi a cena!” Furioso, Kanin provoca-o: “E perdeu-a onde?”

Perdera-a no pomar, claro. Cabeça esquentada, Kanin meteu-se num carro com Laughton, direitos ao pomar. Laughton deambulou e reencontrou a cena, mas tinham sulfatado as árvores e um alérgico Kanin começou a espirrar este mundo e o outro. Voltam a estúdio, ensaiam e Laughton raiava a perfeição. Começam a filmar, estava a ir bem, mas um invencível espirro de Kanin arruína tudo. “Perdi outra vez a cena – gemeu o desolado Laughton – tenho de voltar ao pomar.” Exigiu ir sem Kanin. Trinta quilómetros de carro sempre a murmurar o texto e Laughton voltava ao estúdio. Fez três takes maravilhosas. A melhor sequência do filme, jura Kanin.

Uma rádio convidou Laughton a declamar um poema. O produtor veio ao hotel. Sentado num sofá, Laughton disse o texto como o anjo falou a Maria. No estúdio, um desastre. “Mas ontem, no sofá, foi magnífico”, disseram-lhe. Era o que Laughton queria ouvir: “Ah, se o pudesse dizer no sofá!”. Foram ao hotel buscar o sofá e sentaram nele o actor. Disse o poema: fez do comovido estúdio um vale de lágrimas ou não fosse Laughton uma salve-rainha.

Do livro do profeta Daniel, capítulo 3: Nabucodonosor ergue uma estátua de ouro e ordena aos seus súbditos que a adorem

Publicado no Expresso, no último sábado de Novembro.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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5 respostas a Mas ontem no sofá

  1. Bea diz:

    Vendo o senhor a declamar ninguém diria que perdia assim as cenas do pé para a mão. É extraordinário. Tudo na sua voz faz o texto e nem nos parece que ele exista fora dela. Vou ali verificar a minha bíblia. Com licença.

  2. EV diz:

    Isto está tão bem contado que dá gosto reler!

  3. Creatur diz:

    pois é Há ….uns estilo sofá

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