Ombro a ombro vão

 OMBRO A OMBRO VÃO

O meu avô deseducava-me com primor e, socialista para a infância,
dizia em tu cá tu lá, anda, vamos ao cinema.
Eu gostava de ir. Havia outro mundo por trás da cortina, plasmado no ecrã.
Outro mundo. Era a preto e branco o mundo adulto,
de tanta vida ali mesmo entre o bem e o mal,
ficava tudo cinza fronteira assim-assim em pasmoso preto e branco.
E enrolado em fumo, paixões, honra e seu contraditório,
ou o orgulho e a humilhação: o preto e branco da vida na zona cinza fronteira
presta-se ao desfile dos pares antitéticos:
o ódio enfia as unhas do desprezo
no músculo mais tenro onde o amor suspira ainda.
Não recordo o título. Nem a trama. Penso que seria a Dietrich pois tínhamos
visto o Anjo Azul antes e as coisas aconteciam por ciclos, como aliás
sempre acontecem – o problema é quando não percebemos o padrão…
Tenho ideia de que, prostitutas, ou talvez não, rondavam acampamentos de militares.
Da Legião Estrangeira? E seguiam-nos.
E uma mulher, que não era puta nem de seguir quem quer que fosse, por amor,
acaba, ao fim do filme, no deserto, seria? o sol de frente, a seguir, também ela,
o homem da Legião por quem se apaixonara. Era cantora de cabaret. Era isso!
Não sei o que pensei. Só o que senti. Nem sabia o nome desse sentimento:
vergonha alheia.
E tristeza… Não sabia que aquilo existia, aquilo de alguém ir pelo deserto,
a arrastar uma mala, e a alma, pois escreve-se com as mesmas letras,
pela anagramática lama em que se tornou. Uma mulher livre. Uma escrava, afinal.
Os pares também vêm por dentro: a minha avó deseducou-me com esmero:
anti-clerical, enfiou-me num colégio católico até à pontinha dos hábitos negros,
corvos litero-bíblicos, obrigada por São Pedro que falava do eu e do outro eu,
daquele que tinha de morrer mil vezes por dia para que o outro eu tivesse vida.
Ai da besta sem trela…
Depois de se saber, não se pode não saber.
Este é o presente da maçã serpentina.

Não sou São Pedro. Mas fui ao cinema. Se tens ouvidos, ouve:
fecha a boca à tua fome ou ela devora-te!

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Ombro a ombro vão

  1. Ana Marchand diz:

    parentes , pares , e a sabedoria silenciada. Um corvo come o outro apenas vê…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Bem se vê que concorrem em si duas deseducações poéticas. E que alma, lama e mala sejam assim palavras anagramáticas é muito bem lembrado.

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