Sábado à tarde

Faz hoje um ano que morreu o meu lindo Cão. Tanto amor… como só um cão sabe ou pode. Hoje vi tantos meninos de quatros patas a passear, vestidos e em pêlo. De trela, peitoral ou em perigo livre. O meu lindo Cão não tinha pêlo, coisa da raça, tinha cabelo, logo, tinha frio. E quando via uma poça de água ia de roda para não molhar as perfeitas patas de ballet, não é? Seu gatini anti-aquático, príncipe de grande elegância… A morte mata e o amor, bicho resistente, fica. Quero o meu lindo Cão sempre comigo, então, ele lá faz a fineza de me andar no pensamento, no coração, nas saudades, nos outros cães que vejo com focinho de eu sei e eu para eles, eu sei que tu sabes minha beleza, e moita carrasco, nenhum nós diz uma palavra, eles seguem com os seus donos e eu sigo sem dono. Ão.

Enfim. Já passava um bom bocado das quatro da tarde, estava lá para Campo de Ourique, um céu azul postal, e lembro-me. O ano passado, quis estar aqui hoje e não estive. Sei porque, não é segredo, sou como os miúdos e os índios de sabe Deus, brilha, eu gosto. Tinha visto as iluminações de Natal, em Lisboa – acho, no jornal da noite que, conservadoramente, teimo em ver, faz-me lembrar o meu avô, aquele globo a girar o noticiário do mundo das pessoas crescidas – papava-o todo! Tão bonita a Avenida da Liberdade. Vou lá perder de ganhar? Perder de ganhar era uma coisa toda da minha avó: ela achava da tristeza um vício em que gente se põe, uma coisa da ordem da falta de duche matinal, uma auto-comiseração de quem fica no choco a desperdiçar a vida. Da tristeza, do logo faço como se os dias fossem a eternidade, do que não fosse agarrar a vida a beijos… Vejo-a, na cozinha, a segurar entre a ponta dos dedos longos e brancos, cerejas, e com o verde agudo dos olhos bem postos nelas, sem perder um detalhe que fosse, há lá perfeição melhor? Tudo quanto a natureza é… Recusava perder fosse lá porque fosse. O que nos é tirado contra vontade, chega. Agora jogar fora vida só porque sim, não. Também acho, avó, chega. Tanto chega que já estou na Rua do Sol ao Rato. Passo pela casa que quase foi minha antes de encontrar esta. De quem és tu? Passeio de sábado à tarde, tão bom, nenhuma febre de sábado à noite. Rua do Salitre e da sombra e já estou na Avenida da Liberdade. Ainda é dia claro. Vou ter de ir até ao rio para fazer tempo de se acenderem as luzes, aproveito e passo na loja para ir ver com as mãos o vestido que vi só com os olhos online, mas que diabo de brincos mais giros, e olha, outros, que belo casaco, calorzinho puro, levava-te já que estou um entroncho gelado, mas és caro que te fartas, tenho quatro, sim, quatro blusas, umas leggins que uso debaixo das calças quando vou a pé para o treino, cachecol, luvas e uma coisa quadrada por cima, sem mangas que nem sei o que é, cheia de bolsos onde cabe de um tudo. Lixe-se, é street style. Gelado. Decido levar o vestido, é de lã, quentinho… mas à vinda para não andar com sacos a reboque. Faço bye bye aos brincos e ao casaco.

Na Adidas páro outra vez. Não resisto. Não vás por aí, disse a mãe ao Capuchinho Vermelho… Esta gente devia patrocinar-me! A Stella McCartney à cabeça! Fujo a sete pés antes que o Lobo Mau me apanhe – não foi difícil, tenho um vestido-forno lá cima, à espera.

Sobre o rio, alta, uma enorme lua redonda e branca só para dar brilho ao céu do fim de tarde. Turistas, centenas deles, fotografam o Terreiro do Paço em todas as direcções: a minha lua, o pôr-do-sol, o músico, a árvore de Natal apagada e sem jeito, não há respeito por uma senhora assim, em camisa de dormir, tudo em modo selfie e com stick. Estou quase dentro de água. Adeus lua.

Começo a subir, Rua Augusta acima, páro na montra da Lord, que saudades – nem sabia. Que diferença. Comprava os meus sapatos rasos aqui, há mil anos atrás: sempre iguais, de cores diferentes, pretos, azuis escuros, castanhos, bordeaux, da mesma marca, portugueses, bem cosidos. E um boné de cabedal preto que perdi o ano passado, como novo, tinha trinta anos o raio do boné. Ah o tempo…

No Rossio há um mercadinho de Natal. Que sorte, pantufas da Serra da Estrela! Quem vai ficar tão quentinha? E giras, parecem umas babuchas.

A Avenida da Liberdade já está em festa. As luzes caem das árvores. As esplanadas estão cheias de gente e de frio. Os passeios cheios de miúdos, em bando, sempre, esguios, de ténis, andar elástico, são tão bonitos, de uma frescura ainda intocada pelas mortes todas que hão-de atravessar, esplendem mais que as luzes em queda, os cabelos, a pele, o riso. O trânsito está parado. Engarrafado. Apitam. Vou buscar o meu vestido. No Marquês intransitável, faço um miradouro para encher os olhos. Mil vezes melhor do que no telejornal do ano passado. E ali está a roda gigante de antes do amanhecer. Ou terá sido antes do anoitecer?

Daqui até casa, é um pulinho para quem usa os ténis, perdão, as botas de sete léguas – miau! Ui, desculpe lá isto, Senhor Cão.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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8 respostas a Sábado à tarde

  1. Bea diz:

    Muito bom este passeio com a menina Eugénia numa tarde de sábado. Flanando por Lisboa com um subtil de Natal.

  2. albertino.ferreira diz:

    Para o passeio ter ficado completo (uma maravilha!) só faltou mesmo a companhia do Cão, que Deus tenha! Pessoalmente gosto mais de gatos que são mais caseiros.Já agora aconselho o site sobre os gatos de Istambul referido pelo MEC numa das suas crónicas do Público.

  3. Creatur diz:

    com o Cão no coração….pois sim! é assim mesmo.
    eu vou para a montanha que é plana, ver o tecto das estrelas….bom domingo! com o Cão

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Lisboa tão bem pisada. Patinha a patinha.

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