Ano Novo, Garagem Velha

Quando chegar a Primavera, compro-te o suporte e a cesta de picnic. E mando-te pintar, meu lindo…

E pronto, já bati outra vez na garagem. Não uma, mas duas, duas vezes! Na primeira curva à esquerda, zás, até me arranhou os tímpanos, faço a segunda curva, perfeita, e na última, vá, contra a esquina com convicção! Se o meu estacionamento fosse no -4 em vez de ser no -2… No outro dia saí lindamente. Até pensei, este é o ano em que não vou fazer tabelas na garagem: enganei-me. Não é como se andasse a bater por aí, sou do tipo prudente, mas o diabo da garagem tem pedaços de parede em falta e posso jurar que não fui eu quem os arrancou: estava a entrar no carro, olho para o lado e vejo o carro vizinho todo riscado no mesmo sítio… e não é só este. Ó bebés de quatro rodas, a quem vamos dar um tau-tau? Os projectistas de garagens pensarão que somos pilotos de Fórmula 1? Onde se escondem? Podemos fazer um workshop de estacionamento em garagens-espirais de maluquedo? Ao regressar, andei à procura de lugar na rua, mas qual o quê, nem um. Contra vontade, abre-te Sésamo, e vim por ali abaixo, sem danos. Estacionei. Quero dizer, entreguei o refém. E nem sei quando voltarei para o resgatar. Caneco! Gosto tanto do meu mini carro, sou uma material girl…

O ano abriu bem. Ali, no cocuruto do prédio da frente, há um recuado com uma boa varanda. À meia-noite, estava eu sentada na minha janela a comer as doze uvas – sim, sei, em Portugal comem-se passas, mas eu é mais uvas – e a brindar o ano com um belo Tokaji pois champagne não é comigo, quando sai para a varanda e desata a bater na parabólica quem? o vizinho do cocuruto frontal. Comecei o ano a rir tanto com a sessão de tambor na parabólica que tive de deixar as uvas de pousio. No prédio à minha esquerda, de enormes apartamentos de duas frentes, um grupo selecto-enfastiado na sua pose também saiu para a varanda de taças na mão e braços cruzados ao frio. Nem se mexiam, os zombies. Tambores, zero. Lá em baixo, na rua, uns miúdos batiam panelas, abriam garrafas com estouro, e vá de cornetas.

É suposto que nada mude quando o ano muda. Que os votos se desfaçam ao primeiro embate da vida, ou da malvada parede – os votos são uma coisa terrível, não conheço uns que se aproveitem: dos de baptismo ao de casamento, passando pelos de sucesso e Ano Novo, votos de amor então, foge cão que é maldição!

Mas há um ano em que não. Tudo muda. Provavelmente porque a mudança estava em curso e atingiu aquele ponto. Momentum – Newton dum raio, é que pensou em tudo o homem… Não são precisos votos. O que é, chega. Cresce a raiz e alongam-se os ramos. Diante disto, o que são umas batidinhas com o meu rico carro na garagem?

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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6 respostas a Ano Novo, Garagem Velha

  1. manuel s. fonseca diz:

    Está a ver, em compensação, aqui, nos post, fez as curvas todas a grande velocidade e sem bater em nda. É um post de Fiat que até a Virgem abençoa.

  2. Bea diz:

    As batidinhas são um quase nada que não dá nem tira preocupações. Há muito por onde sem necessidade de esfoladelas de carros:).

  3. Creatur diz:

    de Novo domingo de manhã, de Novo cafézinho em cima da mesa, de Novo a crónica intima da Eugénia, de Novo…gostei!

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