Com muita noite

A Ana é que o trouxe. Aqui está a prova.

Medoro, e se fugíssemos para a China? Angélica, filha, olha que aquilo mudou muito, de Catai não sobrou quase nada…

então, sentei-me ali, na janela do quarto, nem sei se a ver para fora se a ver para dentro, às vezes o mar é água, às vezes o mar é vento, e nisto, inesperados e em perfeita formação aguda, esquadrão preciso a riscar o azul tímido de depois da chuva, em verde alto e tropical, um bando de periquitos de colar e as suas longas caudas, chega ali ao cruzamento, toca uma linha invisível, e retrocede. É isto. Papagaios voam sobre Lisboa, e aqui vivem e adormecem, e recomeçam de manhã cedo. Tudo tem destino. Um bicho que nesta terra só em cativeiro, evadiu-se das gaiolas e agora tem colónias de liberdade.

Gosto de pássaros. Não é verdade. Gosto da criação, pássaros, cães, gatos, flores, do lago e da vaga, do céu quando chove e quando não, irmão sol, irmã lua, irmã morte. Ontem, um gatini e eu ficámos de olhos nos olhos, parados. O vidro do café termina na linha do passeio e parte das mesas ficam ao nível do que seria a cave, também nós na linha do passeio. Tinha entrado. Num pingo. Com esta mania de andar a pé, medi mal a quantidade de chuva e ao voltar do ginásio, escorria mais que a água pela rua. Antes ainda, no caminho pedonal ao lado da estrada, vinha a lamentar os condutores fechados nos seus carros quando cortam passagem e levantam ondas de mar partido em dois contra quem passa. Pássaros sem fuga. E eu feliz de ir ali a segurar a sombrinha inútil e a fintar rebentações. O gato parou. Era um bicho jovem, alvo de puro. De tão cristalinos, via-se o fundo dos olhos verde água. Às vezes penso, é por isto que a senhora da frutaria do super-mercado conhece de cor o que levo – não fui lá vezes suficientes. Vejo-a. Ela sabe. O gato também sabe.

Há pouco, no banco da janela do quarto, las venas con poca sangre, los ojos con mucha noche. (Versos onde o pulso bate ainda e nascidos de uma resposta de Góngara a Lope Vega por um equívoco a propósito de Angélica e Medoro! Estaladas de brancas luvas métricas. Vá-se lá perceber isto…) À muita noite chega a luz. É assim. Em cinzento chuva, em azul tímido, e verde gato, verde pássaro, cor de fruta arrumada num sorriso. E não sei por onde ela se decantou mas derramou um mínimo arco íris sobre a fronha branca da almofada da cama. E eu disse obrigada. Lembrei-me de Israel que amava José por este ser o filho já da sua velhice, e de o ter preferido e abençoado, de lhe ter feito um casaco de muitas cores.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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6 respostas a Com muita noite

  1. ana marchand diz:

    e antes da noite cair cruzam os ares de Lisboa papagaios verdes que me transportam para longe , muito longe…afinal onde estou?

  2. Bea diz:

    Texto tão bonito!

  3. albertino.ferreira diz:

    Os papagaios verdes embora não autóctones alegram as noites de Lisboa com o seu chilreio estridente, é verdade!. Não era o Scoth Fitzgeral que dizia “Terna é a Noite”?

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