A mulher imperseguível

Jean-Pierre Léaud toma o petit déjeneur com a terna, suave, angélica, doce, amorosa e cheia de graça Claude Jade

Não sei o que pensava Camões, mas eu estou farto de mudança: invoco um tempo definitivo.  Não quero que nada mude. Num filme, “Baisers Volés”, de Truffaut, havia um detective que anunciava esse tempo sempre igual, perene.

Soluça-me a prosa de tão ansiosa sinceridade. É compreensível, estou a falar-vos da minha vida precária e mutante. Revejo-me, por antinomia, em Monsieur Tabard, comerciante de sapatos em “Baisers Volés”. Tabard julga que toda a gente o detesta ou odeia. Mesmo a porteira do prédio encolhe os desdenhosos ombros quando ele fala. E a mulher dele, que se veste com a rutilante beleza de um milhão de francos, ri-se de tudo o que ele diz, salvo quando ele diz uma piada.

A rutilante beleza de um milhão de dólares de Delphine Seyrig

Incomodado por essa conspiração permanente, que tanto o magoa, Monsieur Tabard quer mudar. Comigo é pior: anima-me a ideia de que toda a gente me ama, a porteira que não tenho, a minha mulher que, com a rutilante beleza de um milhão de euros, se ri, magnânima, das minhas raras graças. É uma crença insustentável, bem me avisa Mário Centeno. Tanto o milhão de euros, como o amor ubíquo.

Farei como Monsieur Tabard, que pediu ajuda a uma agência de detectives. Pedir-lhes-ei que investiguem o amor dos leitores, o amor até da menina que me serve a bica matinal. Ininvestigável é o incomensurável amor do presidente Marcelo.

É aquela avalanche amorosa que me faz temer a mudança. Não quero perder o omni-amor. Apetece-me apontar uma pistola ao tempo e gritar: “Não te mexas!” Volto, por isso, ao sossego de “Baisers Volés”, filme em que se tomava chá e se barravam torradas com manteiga ao pequeno-almoço.

Há um detective que persegue a outra mulher do filme, a terna, suave, angélica, doce, amorosa e cheia de graça Claude Jade. Claude Jade é a inocência, é o feminino que agora inexiste. É imperseguível, porque só pode ser amada como nenhum homem é já capaz de amar. A não ser esse detective.

O detective, no final, declara-se: “Toda a gente trai toda a gente. Mas eu não a deixarei nem uma hora.” A menina, essa Claude Jade mais macia do que uma fresca farófia, está espantada. Ele sossega-a: “É demasiado súbito para que a menina abandone as relações provisórias que a ligam a pessoas provisórias. Eu sou definitivo. Eu sou feliz.” Só é feliz quem é definitivo, imutável. Não sei é se isso é amor, se é a morte.

Publicado no Expresso no primeiro sábado de Fevereiro

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a A mulher imperseguível

  1. Bea diz:

    Pronto, o vídeo foi retirado; concluí que devo ser do tempo do baisers volés e se calha fiquei definitiva sem quê nem quê, que barro torradas com manteiga pela manhã e tomo chá a hora variada. Não sei de remédio para voltar a ser provisória porque até os cigarros desse nome desapareceram deste mundo. Mas gostei do filme quando o vi. E da crónica por falar em maciez de farófia e pela primeira vez alguém supôr que talvez a morte seja felicidade. Mas, tirando amores e seus desmandos (ou mesmo com eles), o definitivo da morte não se parece nada com felicidade. Ou serão os mortos grandes fingidores.

  2. EV diz:

    Que texto do caneco! Bem sei que o filme tem Trenet, mas esta crónica tem Caetano, é o avesso do avesso do avesso do avesso de Truffaut e ele teria gostado tanto quanto eu me fartei de gostar!

    Ps: apontar uma pistola ao tempo e gritar “não te mexas” é muito bom!

  3. Guilherme Godinho diz:

    “Só é feliz quem é definitivo, imutável. Não sei é se isso é amor, se é a morte.” Já estou como a Ofélia: Caneco Manel! São umas a seguir às ostras! Com limão e pimenta preta!

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