Ébano

Não faco ideia de quando, mas foi no transcorrer do ano passado que fui jantar a casa da I. e do P. (uso iniciais para esconder a sua identidade, estamos outra vez numa época de medo e da caça às bruxas; todos os cuidados são poucos).

Ao serão, palavra que não tem imoji, falávamos de livros, e o P. comentou com outro convidado, que lhe tinha emprestado: o “Ébano”, do Ryszard Kapuscinski.

Convém se calhar fazer aqui uma breve introdução, e antes de falar o livro ou do autor, e explicar brevemente quem é o P. O P. é uma personagem invulgar, arquitecto, leitor obsessivo e detentor de um metaconhecimento invulgar e perfeitamente actual. É um animal social disfarçado de tímido e um bailarino exímio camuflado de pé-de-chumbo. É um dos raros seres com quem se pode ter conversas extensas sem nunca se ter a sensação de monólogos monocórdicos. Conversar com o P. é com um longo bater de bolas em Wimbledon. Na verdade, é como um longo rally em Roland Garros, exacerba-se a calma da terra-batida; não nos podemos esquecer que ambos vivemos em África.

E por falar em África, a lo que íbamos: o Ébano.

O Ébano é muito mais do que um livro, é um manual de instruções não-formal de África. Se fosse formal, não podia ser um manual de África, evidentemente. Apresenta a complexidade continental, até hoje não compreendida pelos ocidentais (europeus e norte-americanos), de um modo sinóptico e estruturado.

O Kapuscinski, jornalista polaco e correspondente de agências noticiosas um pouco por todo Continente, começa a(s) sua(s) viagem(ns) pelas Áfricas e pelos movimentos de libertação, guerras coloniais e sociedades africanas  que de norte a sul habitam a grande extensão do Atlântico ao Índico.

Tudo começa no Ghana em 1958 e ao longo de 29 capítulos, numa linguagem simples, e com algum toque de humor, faz relatos que me teriam sido muito úteis se os tivesse lido há 4 anos, precisamente quando comecei a minha jornada africana.

Mais do que as aventuras históricas por que passou, as façanhas e os riscos que correu, o Kapuscinski consegue demonstra-nos a génese de algumas Áfricas e de alguns africanos (ou proto africanos, como foi o caso do descendentes de escravos da américa do norte que regressados à sua “casa” na Libéria adoptam o modelo de sociedade a que tinha assistido no sul dos EEUU até serem destronados pelas tribos que os substituem também segundo os mesmos cânones), revela procedimentos que, de tao iguais, vieram a criar modelos sociopolíticos reiterados.

A versão que li foi em castelhano, mas acaba de ser editada uma outra em português que, se não estiver esgotada devido a todos os exemplares que ofereci, ainda se poderá encontrar nas livrarias de referência.

Muitos dos Tristes já o leram, aos outros: A ler!

Sobre Guilherme Godinho

Cuanto mas bonito es el campo, mas me gusta el mar; e a cidade. O preto e o branco dão-me a nostalgia da melancolia. Esta, como tantas bipolaridades clínicas, faz parte dos meus desassossegos. Se escrever é triste, fotografar pode ser depressivo.
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2 respostas a Ébano

  1. Nano diz:

    Pois fiquei com água na boca…

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