Sublimação

Os românticos do séc. XVIII definiram o Sublime como algo que coloca a natureza numa posição de superioridade face ao ser humano. Esta evidência desencadeia uma tomada de consciência no indivíduo, reafirmando-o como um ser frágil e insignificante quando confrontado com toda a força, poder e magnitude da paisagem. O Sublime carrega assim um certo sentimento de temor associado a uma inevitável beleza trágica.

Hoje o Sublime transcende já a sua condição filosófica e estética. A iminência de uma catástrofe do planeta faz com que o Sublime se torne muito real. Precisamos de encontrar uma nova forma de ser, antes que evaporemos por completo.”  Telmo Sá

Olhamos para as imagens de Telmo Sá e sabemos que as reconhecemos. Não sabemos de onde e isso causa-me estranheza. É inquietante. A mente procura e não encontra, mas reconhece.
Têm algo de premonição. Alguma coisa de belo se aproxima. Uma sensibilidade sedutora.
Telmo Sá, trabalha com a matéria dos sonhos deste lado de cá. Dá vontade de desviar a cortina e descobrir o que há do outro lado.
Sublimação – a mistura gasosa entre o sublime e a evaporação.

Para ver até dia 21 de Maio no Centro Português de Fotografia, Sublimação integra a exposição colectiva Unidade & Divisao.
Porto – Antiga cadeia da relação.

www.telmosa.pt

 

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Ensaio Jon Rafman

Jon Rafman é um artista que centra o seu trabalho no impacto emocional, social e existencial da tecnologia na vida contemporânea.

Isto da tecnologia é um pau de dois bicos e para quem como eu nasceu no período a que chamo “TRANS” projectos como “9-eyes” são essenciais.

No projecto fotográfico JR compila imagens bizarras e interessantes captadas pelo Google Street View.

Inspirada nesta procura de Jon Rafman abri o Instant Google Street View e teclei o primeiro sítio que me veio a cabeça: o caminho que durante a minha infância fazia todas as manhãs com a minha avó.

Todas as manhãs ia com ela à mercearia do bairro e haviam sempre aqueles minutos que me pareciam horas quando a minha avó encontrava alguém e ficava à conversa (quando se é criança a realidade aumenta vezes sem conta).

Voltando ao ensaio JR e ao Google abro a imagem e quem lá está?

A minha avó a conversar com alguém…ainda estou a pensar se tudo isto é bizarro ou interessante!

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Entalado

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Confutatis Maledictis

Ao meu lado, dois pares de jovens olhos aguentaram estóicos a prova. Não sabiam bem ao que iam é verdade. Enganei-os. Mas fiz bem. Direi que no princípio da noite seguiram a infância de António Salieri com alguma curiosidade, o aparecimento da grotesca gargalhada de Wolfie com um sorriso, e que se divertiram a valer com o olhar malicioso do Príncipe da Áustria. Confesso que lá mais para o meio se aborreceram um bom bocado com os dramas do pai Mozart e com as dificuldades económicas da família mas direi que num instante se voltaram a animar com os bailes barrocos das noites de Viena, a bizarria dos trajes, o encanto da flauta mágica e sobretudo as sonoras flatulências do mal educado compositor.

Foi uma maratona. Mas aguentaram de olhos abertos. Aguentaram até onde os queria levar. Àquela que é uma das mais empolgantes e ao mesmo tempo trágicas noites do meu cinema.

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Lost Words

Isto que lêm são palavras tiradas a ferros. Escritas e reescritas vezes sem conta. Não há maneira. Estou bloqueado. Nem é isso desculpem. Bloqueados ficam os escritores. Estou simplesmente avesso a esta coisa da escrita. E depois há também esse maldito do tempo que não há maneira de se dobrar sobre si mesmo, que mentirosos são os Físicos. Se não estivesse assim tão avesso ou entalado no espaço-tempo porêm, podia estar aqui a contar as histórias falsas e verdadeiras das minhas aventuras mais ou menos imaginárias de subidas e descidas a altas montanhas e  mares profundos, dos meus encontros e desencontros com as mulheres mais ou menos fatais que encontrei, ou talvez não, pelas estradas da minha vida e de todas as amizades que pelo mundo fiz ou gostaria de ter feito. Palavras que contariam, se imaginadas e escritas, como no aeroporto do Cairo fui uma vez escoltado pela pista fora por um agente da EL’AL armado de metrelhadora e de como quase andei ao soco com um enfurecido encarregado de obras Paquistanês em Jeddah na Arábia Saudita. De como fui apanhado a traficar estupefacientes no aeroporto de Amsterdam e me mandaram uma multa para casa. De como apertei a mão ao Kurt Kobain dois meses antes de este ter estoirado os cornos com uma carabina. De como numa barcaça atravessei o lago de Titicaca na companhia de uma misteriosa alemã que metia beatas fumadas no entrelaçar dos sapatos para não contaminar a paisagem Andina e de como desci da porta do sol até Machu Pichu envolto num sonho de neblina e mescalina. Ou de como numa fábrica no Tennesse fumei cigarros de enrolar com os meus operários numa estrada chamada Tobbacco Alley porque era proibido fazê-lo dentro do raio de uma milha da mesma. E se me viesse a inspiração contaria ainda como num ano fui desasseis vezes aos Estados Unidos e de como dei a ganhar a outros que não eu,  dois milhões de dolares inteirinhos numa missão industrial entre a Alemanha e a Tailândia. De como nadei uma vez com um simpático tubarão baleia na ilha de Ko Tao ou de como à volta de uma fogueira em Misore na Índia central, bebi de golo uma garrafa de wiskey com um velho caçador que um dia tinha trocado as suas carabinas por máquinas fotográficas. Ou ainda de como sob um céu estrelado e a pensar na mulher dos meus sonhos, corri enérgico uma noite inteira à volta do palácio imperial de Tóquio para depois em plena maratona de Nova Iorque colapsar a meio da quinta avenida, arrastando-me a custo até à meta.

E por último, se nesta noite sem estrelas tivesse o tempo e a alma no sítio certo, contaria como um dia sem dar por isso me apaixonei loucamente por uma mulher que assim me deixou como vêm. Sem palavras. E sem mais histórias para contar.

Tiguana Bibles – “Lost Words”

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Mãe, quero ser americana!

Agora que penso nisto, verifico: o que pode lixar um escritor não são os seus vícios, mas a overdose das suas virtudes. Há-de ser também por esta razão que os diabos americanos, e os americanizados como o meu rico Conrad, são limpinhos na frase – se se pavoneiam, é às escondidas, dentro da cabeça ou no rascunho.

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Para um poema da Eugénia

Poema de Eugénia de Vasconcellos

Banda sonora e voz: riVta

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bashô

sobre o caminho ao sol

bosque de sobreiros

perfume de mel

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A Murmuração das Aves

 

“Acho que Mozart não te vai valer de nada”

Midge Wood

A irmã mais velha da ponte sobre o Tejo unia as sequóias ao muro de Fort Point.  São Francisco comprazia-se num erotismo de colinas, sol, eléctricos, namoro marítimo. Os pilares da Golden Gate Bridge encravavam-se nas costas da residência dos velhos faroleiros, e o forte que servira espanhóis, mexicanos e cowboys andava numa excitação pouco usual.

Cabos de electricidade entravam e saíam pelos portões de ferro. Holofotes rivalizavam com a luz natural da enseada. Duas câmaras Mitchell VistaVision e um equipamento de gravação magnética de som Westrex eram retirados com todo o cuidado de um camião cujo caixilho anunciava: “Paramount Pictures”.

James Stewart, ainda em roupão índigo, alto e magro como um espantalho de muitos outonos no cachaço, abriu a porta do trailer, apertando a mão de Hal Pereira. Aos cinquenta anos, o cabelo de Jimmy era já platinado, mas os olhos mantinham aquele azul Big Sur. Hal, filho de um pescador da Ilha Terceira, nascera de mãe norte-americana, em Chicago. Como o cinema o amamentara desde miúdo, começou por desenhar os interiores de cineteatros com o irmão mais novo, William L. Pereira, um dandy tão esguio como Jimmy Stewart, amante de Bentleys e de secretárias peitudas que os soubessem conduzir pelas infinitas autoestradas da Califórnia. Entrara em Hollywood em 1942 pela mão do lendário Hans Dreier e tornara-se director artístico da mesma cepa e inspiração a partir de 1950. Em quinze anos, engendrou as escadas onde Barbara Stanwyck despia pelo tornozelo o fio de ouro que desgraçaria Fred MacMurray; inventou as grutas onde Kirk Douglas perdia a alma no carnaval macabro de Billy Wilder; desenhou o ringue onde Cornel Wilde, como Francisco Codona antes dele, caía estropiado sobre o folhetim circense de Cecil B. De Mille; criou as naves-cafeteira de olho vivo e esverdeado pensamento de “A Guerra dos Mundos” – o mais perto que Portugal alguma vez estivera de Marte; encostou as doces mãos de Audrey Hepburn à Bocca della Verità; e construiu o puzzle de estúdios, música e corações partidos na mais Indiscreta das Janelas.

Em 1955, Hal subiu ao palco nobre de Los Angeles para receber um Óscar após dúzia e meia de nomeações, por “A Rosa Tatuada” de Daniel Mann, com Bruto Lencastre, Anna Mamma Magnani e uns vudus de Tennessee Williams. O pai falara-lhe dos Açores desde que ele era pirralho e desenhava pelos cantos, e Hal pensou no papá Zé Pereira e no arquipélago – que via num mapa emoldurado na parede da casa virada para o Lago Michigan, desde que se lembrava de lembrar – quando recebeu a estatueta.

Olhou para o seu lado direito, onde a baía se espraiava no cais de passeio. Mais ao fundo, quando os arranha-céus cresciam como espigas de trigo, havia espaço para uma torre maior. Passada nova década e meia, a Transamerica Pyramid, projectada pelo irmão, iria tornar-se um dos edifícios mais altos do mundo, consagrando William L. Pereira como o arquitecto da moda  na Costa Oeste.

Desceu os três degraus do trailer e aproximou-se de um homem gordo e calvo afundado numa cadeira de lona onde se lia, nas costas: “Mr. Hitchcock”. Era o ponto limite da Marine Drive. O exosqueleto  da ponte sombreava actores, técnicos, duplos, junto às águas que contemplavam o Pacífico.

Hitch, o mestre do medo, romântico necrófilo, católico impenitente, o rapazola de cinquenta e oito anos que ainda acordava a chamar pela mãe porque o pai o enfiara na esquadra durante um dia húmido de 1904 para ver se o badocha decorava o sabor metálico do castigo, tinha o fato azul-escuro apertado num único botão acima do umbigo, o umbigo que forçaria Madeleine Carroll, Joan Fontaine, Ingrid Bergman e Vera Miles a beijarem em sonhos. Vivia nesse limbo de pré-orgasmos, cujos terraços e marquises eram desenhados a cada semana por Bummy Bumstead, outro discípulo de Hans Dreier, e por Hal, a sua melhor lapiseira, mão da mente de Alfred Joseph Hitchcock.

O realizador apreciava a serenidade de Hal Pereira, que nunca perdia a paciência. Os sketches e os croquis ficavam sempre prontos no dia anterior à data estipulada.

A cadeira estava a dois metros do limite do passeio marítimo. Uma escadaria temporária, desembocando na água, fora construída segundo as indicações de Hal. Atrás do corpo balão esparramado na cadeira, Olive Long, a secretária, anotadora e assistente de casting, fazia jus ao nome de baptismo, espalmada azeitona absorvendo as derradeiras indicações de cena.

De acordo com a versão final do argumento de Samuel Taylor, um guionista com paciência de Job e fígado de aço para as longas sessões de revisão de texto na varanda a laranjas e conhaque do mestre em Bel Air, Scottie Ferguson, o detective de São Francisco com reforma compulsiva após as vertigens o impedirem de salvar um polícia numa perseguição pelos telhados da cidade, é contratado por um velho amigo, Gavin Elster, para seguir a mulher deste, Madeleine. Ela parece um espectro d’entre les morts, tolhida pelo fantasma de Carlota Valdez, uma infeliz maltratada pelo amante e falecida seis décadas antes. De cabelo platinado, preso à espiral do eterno retorno, Carlota era figura bem real da Baja California. Mais tarde fixada em São Francisco, tratava-se da bisneta de Ricardo Valdez, natural de Avilés, nas Astúrias, marido de Paz de Huerta Preciosa e candidato louco mas exitoso à febre do ouro de 1849. O nome completo de Carlota Valdez, a hispano-mexicana do retrato por Ernesto Hernandez no Legion of Honor, o museu do Presídio,  era não menos do que Carlota de Huerta Preciosa Valdez, descendente de Rossana Preciosa Ibn Battuta, mãe de Romina Preciosa, falecida aos 26 anos – a mesma idade com que Carlota deu de finados – num quebra-gelo a caminho de Hallifax, ascendente mística de Elizabete Preciosa, a alentejana.

No filme, Madeleine assombra-se sósia de Carlota e decide prestar-lhe culto nas catedrais de sequóias de Muir Woods, a norte da Golden Gate Bridge. Apaixona-se por Scottie, que lhe arrasta a asa desde o primeiro segundo, como só um Orfeu de cinquenta anos pode ousar face a uma Eurídice de vinte e cinco.

Mas Madeleine não aguentará o tormento de Carlota. Antes de se atirar duas vezes do alto da torre da igreja de Mission San Juan Bautista, uma quinta de franciscanos cento e vinte quilómetros mais a norte, a doppelganger mostrará devoção ao abismo, lançando-se às águas gélidas entre a baía dos pescadores e o Pacífico, ali, sob a ponte pênsil, em Fort Point.

Kim Novak, num vestido preto que lhe afagava as formas, saiu do segundo atrelado, ajeitando o cabelo quase cinza.

Hitch olhou para trás, como que sentindo o perfume oriental, de âmbar repousado em incenso, a arder nas resinas. Kim tirou o lenço transparente do pescoço, erguendo-o no ar pelo momento que a brisa determinou. Hitch abanou um pouco a cabeça, rodando o pescoço para Olive, e comentou no habitual tom traquina, suficientemente audível para Hal escutar:

– Diz à Kim para apertar o último botão do vestido. Já desisti de a convencer a usar soutien…

Hal sorriu. Ele sabia que Hitchcock trocaria todo o projecto de “Vertigo” por uma hora de botões desabotoados com Kim Novak, a rapariga lavanda, desbravada em incenso apenas para aborrecer o mestre.

Quando Kim passou por Hal, este suspirou, quase embaciando os óculos. A actriz trazia o bouquet de flores que ele desenhara duas semanas antes, em Encino. Estavam lá as rosas brancas, os lírios e um par de papoilas, para sublinhar o perigo.

Os saltos altos erguendo as pernas no bamboleio, miss Novak arrastou consigo novo nevoeiro, que se agarrou ao pilar sul da Golden Gate como garoto com sede. Ao ouvido de Hal, a liebestod, a valsa maldita das primeiras cenas imaginadas, transformou-se numa habanera de Carlota. Cha-cha-cha.

Madeleine irá lançar-se ao mar, ali, em Fort Point, na primeira de várias tentativas de suicídio. Depois, quando ela parece atirar-se do cimo da torre de San Juan Bautista, Scottie Ferguson quase enlouquece e nem Mozart, “a vassoura que varre todas as teias de aranha”, o conseguirá ajudar. Morto-vivo, defrontará Judy, ruiva de Salinas, cor de fogo como Ofélia, sal de chama como Laura Rutledge, dupla de Madeleine, que irá moldar até que a amada ressuscite, harpa sinda, sussurrada à heroína em êxtase.

Scottie não descansará até transformar as cores de Judy nas cores de Madeleine. A roupa de Judy na roupa de Madeleine. Os gestos de Judy nos gestos de Madeleine. No nº 1127 do Empire Hotel onde Judy vive, ela surgirá perante Scottie, vestida, penteada e maquilhada como Madeleine, cabelo quase branco na cornucópia de amour-fou, matéria tão fulgente no desejo de Scottie. Não é apenas Madeleine/Carlota que vive duas vezes. É Scottie.

Uma gaivota-prateada interrompeu os pensamentos de Hal, sobrevoando a perche. Poisou no braço da cadeira da Hitch e olhou para ele por uns segundos. O realizador desconhecia que a gaivota lhe prestava uma visita desde Bodega Bay, uns sessenta quilómetros a noroeste. Nenhuma das avis raras percebeu que se iriam encontrar cinco anos mais tarde, num filme chamado Os Pássaros. A gaivota levantou voo.

Enquanto Jimmy Stewart recuava, colocando-se junto ao carro verde de Madeleine, Hitchcock acenou com o queixo a Robert Burks, o director de fotografia, impecável de fato e gravata, os olhos escondidos em óculos de massa, a perscrutarem a lente.

Kim passeava junto ao limite do cais. As correntes tinham sido retiradas. Estava na hora.

Hitch levantou a mão, silenciando o plateau natural. Jimmy sabia que era suposto aproximar-se do limite do cais, para que o mergulho de salvação de Madeleine nas águas sob a ponte, a concretizar uma semana depois na piscina dos estúdios da Paramount em Los Angeles, fizesse raccord com os planos a filmar hoje. Polly Burson, a dupla de serviço, morena do Oregon, em vestido, lenço, bouquet e alva cabeleira postiça, estava a postos para substituir a protagonista no derradeiro momento, atirando-se ao colchão flutuante que, preso ao cais fora de campo, almofadaria a queda.

Vindo de dois grandes altifalantes colocados na parede do forte, surgiu o som do “Prelúdio de Vertigo”, a mais fatal das danças hitchcockianas. A compulsão percorreu o passeio marítimo até à ponta do cais e deu lugar a um Lento Amoroso.

Ao sinal da claquete, Kim abeirou-se do precipício, começando a lançar pétalas à água. As dissonâncias do Prelúdio aumentaram de tom, com o Dó menor a snifar a morte.

Kim Novak mostrou-se perfeita no hipnotismo. As pétalas eram lançadas uma a uma, os dedos guiados pelo além, de morbidez perfurando os olhos. Hal olhou um segundo para Jimmy Stewart: até o rei das galerias parecia surpreendido com a performance. Os acordes da banda sonora apertaram o círculo. No bouquet, restavam as papoilas. Hal focou-se em Hitch, que estava prestes a dizer “Corta”. Perfeito.

Sem esperar pela dupla, ignorando as ordens do mestre, Kim Novak lançou-se ao mar.

 

Ninguém sabia como reagir. A água estava gelada. Hitch ficou de boca aberta. Os técnicos gritaram: “Alguém a ajude!”.

Jimmy correu para o extremo do cais. Hal Pereira, o filho de pescador, atirou os óculos ao chão e mergulhou no Pacífico.

Kim estava à tona, de braços abertos, as pétalas de lírios e papoilas cruzando a quietude. Olhou para cima, para o dorso do gigantesco tabuleiro, seiscentos metros acima. No topo de uma das vigas, a gaivota-prateada que voara até Hitch juntou-se a duas centenas de companheiras. Num triângulo tenso, os olhos pretos, miudinhos, das aves observavam a ocasional Ofélia.

Hal chegou junto de Kim, puxando-a pelos braços. Ela não reagiu. Manteve o olhar vítreo, como se não estivesse ali. Não houve tempo para maiores heroísmos.

Dois técnicos de iluminação e um sonoplasta, completamente vestidos, chegaram junto de Hal e Kim, sustentando esta, rumo à plataforma do cais.

Devagar, estendida numa manta, com o vestido a pintar-lhe as formas em congelada sensualidade, Kim Novak parecia voltar a si. Hal esfregou-lhe com uma toalha o cabelo quase branco. Nunca tinha estado tão perto dela. A pele, mesmo exangue, era de um pubescente esplendor. Ousou.

– O que aconteceu?

– Não sei. Perdi-me…

– Foi a Carlota?

Kim olhou para Hal. As íris, muito azuis, duplicaram de tamanho.

– Senti-me como ela. Desesperada. Não diga a ninguém. Sobretudo ao Hitch. Vão pensar que estou louca.

Hal Pereira nunca disse. Os açorianos sabem guardar segredos.

 

As duas centenas de gaivotas voaram rumo às sequóias.

 

 

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Fenómenos

– Vivemos num mundo curioso.
– Não me vais falar do terço da outra pois não? É que já não se pode.
– Não!
– Então?
– Lembraste daquela exposição de fotografias a que fui?
– Sim.
– O tipo vendeu as fotografias todas.
– E o que é que isso te importa?

– Ele é cego.

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Um tempo hormonal

Alguém escreveu que um optimista é aquele que julga viver no melhor dos mundos, e um pessimista aquele que teme que isso seja bem verdade. Eu acho que este é o único mundo. Os outros, os paraísos que imaginamos, são ficções. Normalmente, sou um pessimista. Os optimistas são do futuro. Os pessimistas são do agora. Optimistas são do que pode correr bem. Pessimistas são do que pode correr mal. Os optimistas acreditam em Deus (nas suas mais variadas manifestações, o ideal, a religião, a ciência) os pessimistas no Diabo.
Este é o tempo do Diabo.

O mundo tem estrutura e textura. Isto me disse, vezes sem conta, o meu professor de epistemologia. Aparentemente ouvi-o, mesmo quando ignorava as suas lições, fingindo-me blasé. Uma parede pintada de branco é diferente de outra parede pintada de branco. A diferença está no toque, na textura. É passar-lhe a mão e percebemos que uma é sedosa e outra rugosa. É a textura. O mundo no papel, o mundo dos números e das estatísticas, os mundo das teorias, das ideias e dos planos é um mundo estrutural, onde é impossível experimentar a textura. É o mundo do mapa, não do território. É o mundo de que escrevem os plumitivos, de que falam os comentadores e painelistas. E é o mundo que hoje nos chega pelos ecrãs. Se há coisa difícil de apreender num ecrã é a textura do mundo. As paisagens que vemos de lugares longínquos, plasmadas em ecrãs de alta definição, com todo um paradisíaco espectro de cores, ainda assim, não chegam a ter a textura de um velho postal ilustrado; que, também ele, não tinha a textura do lugar. Hoje, do mundo, chegam-nos postais electrónicos, sem textura. Deus é a estrutura das coisas. O Diabo vive na textura, na rugosidade, ao toque.
Este é um tempo rugoso.

Aterrei em Dallas, vindo da Europa. Viajava com uma família amiga: pai, mãe, filho e duas filha adolescentes. Ficámos cerca de uma hora na fila para passar a fronteira. Um a um, lá nos íamos chegando ao guichet onde estavam os polícias prontos a recolher impressões digitais, a fotografar a nossa cara e a perguntar o porquê da viagem. O polícia que me calhou era grande, branco, com uma profissional cara de poucos amigos. Eu também sou branco e grande. Passei rapidamente. A família que viajava comigo é morena. Brown, diz-se nos Estados Unidos. Todos falam um inglês impecável, aprendido de tenra idade na escola. Um inglês que os mais novos exibem com orgulho. Falaram em inglês com o polícia. Mas depois, enquanto o agente passava os passaportes pela rede, a família desatou a falar português.
What are you doing? Perguntou o polícia alarmado. Why are you speaking Portuguese?
Porque somos portugueses, disse a mãe. É a nossa língua. But you all speak English. You cannot speak Portuguese. Here you speak English. You don’t speak Portuguese in front of me. You have to speak English in front of me, repetia.
Havia alarme na cara do polícia. Aquela algaraviada fazia tocar as campainhas do medo.
Sendo eu dado a dramas e distopias imaginei uma América onde fosse proibido falar outras línguas que não o inglês. Até em casa, onde os aparelhos de autovigilância ligados à rede poderiam detectar e alertar para uma inocente troca de mimos até em espanhol. Te amo cariño, por exemplo, daria multa. E parágrafos inteiros de uma inflamada discussão conjugal, por causa de uma qualquer flausina ou de um gabiru, daria prisão.
Ontem foi tempo de viver a utopia da paz e do progresso. Este é o tempo da distopia.

No Verão passado, numa belíssima tarde de offshore na minha praia favorita, naquela que fora, até ai, a melhor sessão de surf do Verão, fui abordado por um francês com cara de poucos amigos. Havia muito estrangeiro dentro d’água, sobretudo franceses, turistas fugidos da Côte D’Azur e de Biarritz; fugidos dos autocarros que arremedam pelo meio da multidão, conduzidos por prosélitos suicidas que falam línguas incompreensíveis para nós europeus. O surfista francês vinha tirar explicações, porque eu tinha passado por cima da prancha namorada que, ineptamente, se tinha colocado na minha linha. O homem falava em francês. Queria que eu pedisse desculpa à namorada. Lá expliquei, também em francês, que as desculpas devidas eram em sentido contrário, mas que eu as dispensava porque não queria estragar tão gloriosa tarde. O parvalhão insistiu, insistiu, insistiu, até que eu perdi a paciência e desatei a responder-lhe em português. Afinal estava em Portugal. Disse-lhe, com voz grossa “Vai-te foder ó filho de uma granda puta, sai mas é da água e deixa-me em paz, cabrão de merda”; ou qualquer outra coisa do género. Ele olhou-me siderado com a mudança de língua. O português que eu lhe dirigia, e que ele não entendia, deixava-o fora de pé. Alarmado, apenas lhe ocorreu gritar “Parle normalement, parle normalement”.
O sangue que nos corre está cheio de química. Cheio de medo do desconhecido.
Este é um tempo hormonal.

Sempre estive convencido que o Trump ganhava. Como estou convencido (ainda hoje, véspera das eleições) que a Le Pen ganha. Talvez me engane. Mas é indiferente. Ganhe ou não, este é o tempo da megera e do Trump e dos outros que virão iguais a eles, de um lado ou de outro do espectro político. São eles que sentem a rugosidade dos tempos, a textura das coisas. Os outros são teóricos, fazem contas, vivem dos números e das teorias, planeiam saques ou utopias, mas são da lógica e da razão, são dos mapas que desenham e não do território onde se vive e vota.
Postulava o Jacques Atalli, no seu livro oracular A História dos Próximos Cinquenta Anos, escrito em 2006 — e que relido hoje se mostra particularmente acertado no que aos dotes cassândricos do autor diz respeito — que as duas grandes motivações do tempo, deste tempo, a segurança e o entretenimento, derivariam da incerteza; do medo da violência, da penúria e da precariedade. Segurança e entretenimento. Uma para evitar a incerteza, o outro para a esquecer.
Se pensarmos no Trump e na Hillary, qual dos dois produzia mais assunto, mais disparate, mais paragonas, mais espanto e novidade? Qual dois tinha mais capacidade de entreter? E qual dos dois, num contexto de precariedade e incerteza, cavalgou o medo e se mostrou destemido? Qual dos dois mostrou força e entreteve? O mesmo não se passará agora em França?
Segurança e entretenimento: os grandes motivadores deste tempo.

Há, aparentemente um deficit hormonal em Macron. O homem parece fraquinho, pouco masculino, pouco estadista. Não emana aquela força simbólica que magneticamente atrai os rebanhos. É mais padre que guerreiro. É mais da negociação à mesa que da luta na barricada. É mais cerebral que visceral, mais lógico que endocrinológico. Já na megera há todo um arrebatamento hormonal que transmite força. Será o que os franceses a querem? Quererão força? Um animal?
Pode ser que não. Afinal aquilo é a França, e a França foi pioneira na emasculação do poder. Há anos que os franceses preferem o frágil e escolhem fracas figuras para o cume do poder. Talvez porque assim se sintam seguros de que nada nunca mudará. E todos sabemos como os franceses amam as convencões e gostam que tudo fique como sempre foi: os mesmos equilíbrios, os mesmos privilégios, os mesmos gestos, as mesmas palavras, os mesmo pensamentos, os mesmo tiques, a mesma França. Plus ça change…

Este é o tempo do Diabo. Este é um tempo hormonal. Este é um tempo rugoso, bruto, feito de lama e de pó. Metade de nós ainda vive longe da lama e do pó. Mas são cada vez menos os que têm esse privilégio. O exército dos que são largados por terra aumenta e aumentará. Dizem os números e diz quem os sabe ler.
Quem irá parar à lama e ao pó? É esta a fonte de todas as incertezas.
Este é um tempo que pede e escolhe quem se mostra forte, seguro, arrogante para com as convenções, visceral, hormonal, bruto.
Este tempo pede megeras e trauliteiros.

 

 

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Wake Up Call

 

Acordei estremunhado no meio de insónias, pesadelos e ameaças, era cedo, mas o sol do Sul já ia alto.

Domingo, e agora?

O barulho ensurdecedor do relógio digital matraquejava a minha cabeça como uma marcha militar em manha de ressaca.

Deparei-me com uma luz de inverno que cuspinhava languidamente os últimos dias da casa grande.

As paredes e as fotografias queimadas estavam de um preto e branco ténue, amarelado.

Como do além, de repente, deparei-me com uma aparição, como estamos em Maio ainda pensei que fosse algum pastorinho, mas apercebi-me que o espectro me perseguia, ou melhor, que se me adiantava, que me imitava; era como se fosse o Espírito Santo que descia sobre a Sommerschield.

Wake Up Call @ Honigod, 2017.

Aleluia! ALELUIA! ALELUIA!!! Bradei em silêncio. Senti-me inundado pelo ululante fogo divino.

Tomei um duche e um ristretto; passou-me.

 

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Emmanuel Macron

Por uma vez sem exemplo falo de política. Isto é, parece que falo, porque no fundo, esta é mais uma das minhas histórias de fim de adolescência. Dos dilemas que vivi por não saber mais do que se conseguia saber. 

Nunca ninguém me viu queixar-me aqui da minha adolescência, da minha exaltante juventude. E hoje, quero queixar-me. Quero dizer ao Dr. Salazar que olho para a sua defunta figura com o ressentimento que consigo arranjar, eu que de quase nada ou tão pouco me queixo ou ressinto.

O universo que me criou – esse seu proteccionismo, esse seu “orgulhosamente sós” – obrigou-nos, senhor doutor, a mim e à esmagadora maioria de quem tinha 15 anos no Maio de 68, a pensar que nem uns doidos maniqueístas: ou reacção ou revolução. O senhor doutor, primeiro, e os que pareciam mais sexys a gritar contra o senhor doutor depois, foram piores do que as granadas de gás lacrimogéneo: faziam-nos chorar, sem nos deixar abrir os olhos e puseram-nos a correr sem eira nem beira, cabeça contra as paredes. Não sei quantas gerações de portugueses andámos a tactear durante 40 anos a ver se adivinhávamos o que mais de meio mundo sempre soube: não há, nunca houve, na História da humanidade uma democracia que não fosse uma economia de mercado.

O senhor professor de Coimbra fez do capitalismo um corcunda de Notre Dame e os seus rubros adversários, com aqueles espelhos deformantes com que trocavam as voltas aos inspectores do seu circo, fizeram do mesmo capitalismo um Nosferatu a chupar virgens logo que o sol se punha.

Digo-lhe isto, hoje, eu que já tinha esquecido quase tudo desse seu tempo, porque daqui a nada a França, a mesma França que no fim do seu tempo se estilhaçou no Maio de 68, vai a votos. E, pasme, vai a votos, no essencial, o que era o seu modelo e o dos seus principais adversários desse meu tempo juvenil, vai a votos o regresso do proteccionismo, um exacerbado peso do estado, a recusa das elites cosmopolitas.

Mas felizmente vai a votos também um miúdo, meio betinho, ligeira falha entre os dentes da frente, que quase lhe faz a fala massa massinha. E o que me chateia um bocadinho, professor Salazar, é que os meus 15 anos não tenham sequer tido a possibilidade de equacionar, durante essa década em que crescia para ser homem, a visão que esse betinho traz.

E é nesse betinho que, hoje, se eu pudesse votar em França, votaria para me vingar dessa falsa equação de reacção-revolução com que me comecei a confrontar aos 15 anos e só viria a diluir-se aos 23. Votaria em Macron para votar na Europa, para votar em coisas parvas que tanto demorei a descobrir serem essenciais, a concorrência motor da criação de riqueza, a disciplina orçamental, a independência da banca central, a defesa simultânea do assalariado e da empresa, a abertura das fonteiras e o livre comércio, a renovação das sociedades pela imigração, o verdadeiro combate ao desemprego criando formas de protecção do assalariado e não através da cristalização do emprego, saber que uma rigorosa regulação é o papel de um Estado moderno leve e ágil, sem essa hipertrofia do estado salazarista que a nossa extrema-esquerda gostaria de replicar em macaquinho de imitação.

Hoje, Dr. Salazar, fosse eu francês, votaria em Emmanuel Macron para, na senhora Le Pen e em Mélenchon, castigar esse maniqueísmo improdutivo em que caminhei às escuras com o voluntarismo do fim da adolescência, sem saber que é no conjunto de ideias prosaicas, simples, rigorosas e práticas, com uma tradição secular – as ideias da economia de mercado – que se cria riqueza, se protege o emprego e o bem-estar e se cria protecção social e serviço público da mais alta qualidade.

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Tomai e comei

a explosão do nosso gélido mal-estar: rápido e furioso

Que coisa exprime hoje as nossas esperanças ou o nosso mal-estar? Que filmes, livros ou canções? Os filmes de Pedro Costa, de Malick ou o “Fast and Furious 8”?

Há coisas que não me saem da cabeça. A ideia de subversão foi-me instilada pelo ancien régime. Aquilo, a superfície que se colhia, de tão cinzenta, pedia subversão. A perseguição dos subversivos feita pela PIDE, os filmes e livros que proibia mais justificavam a aura sexy que a subversão tinha aos meus olhos.

E não havia nada mais subversivo aos meus olhos do que a arte. Mais do que incendiar-se o carro do Professor Martinez, mais do que receber o Avante em papel bíblia, mais do que alfabetizar o musseque com o método Paulo Freire, as minhas esperanças e o meu mal-estar tinham a cara de Anna Karina e Jean-Paul Belmondo no “Pierrot le fou”. Tinham a voz torrencial com que se lia o “Uivo” de Ginsberg.

o olhar em papel bíblia de Anna Karina

No Lobito, no meio da luta entre o MPLA e a UNITA, no escasso apartamento de duas camas no chão e mesa periclitante onde pousavam Akás, as paredes estavam pejadas de rectângulos de papel com gritos de Rimbaud, de Ramos Rosa e Herberto Helder. O maoista que fui, nunca o fui de facto por falta de subversão intestina que o maoismo não me dava e tive de procurar, Deus seja louvado se Deus é para aqui chamado, em livros e filmes.

Não me lembro onde, mas tenho a certeza de que o crítico Eric Rohmer disse um dia, sobre “Stromboli”, de Rossellini, que esse era um filme no qual se louvava a verdadeira subversão, a do amor conjugal, um filme que “exalta a esposa e já não a aventureira, a doçura do lar e não o romantismo dos bares”.

E hoje, o que é mesmo subversivo? Cantar a liberdade ou cantar a moral? Num mediano mas divertido filme italiano, “Se Deus Quiser”, uma família de classe alta, tolerantíssima, está pronta a ouvir uma confissão do filho. Pensam que ele é gay, mas afinal confessa que quer ser padre. O escândalo sobe ao rosto do pai. O cristianismo já era, para Rohmer, e é ainda mais hoje, uma fronteira de subversão, com a ridícula ideia, quase pueril, de amar o inimigo como a nós mesmos. Não há mais subversão do que a vocação de padre ou freira.

Toda a subversão é pueril. Subversivos, por serem pueris, são filmes e livros onde se morra de paixão. É-o toda a arte que se entregue à ideia ingénua e esplêndida de que o espírito é que faz bom e apetecível – de tomai e comei! – o nosso corpo.

olhar e boca de esposa no corpo aventureiro de Ingrid Bergman

Publicado no Expresso, no último sábado de Abril

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Imaleavelmente mais velho

 

 

submersos em whatsAapp, messenger, viber e facetime

Um dos meus pontos de honra como “quadro executivo” era o de responder sempre a e-mails, cartas (nos tempos em que as havia) e telefonemas, mas algo anda a correr mal no meu pequeno reino dinamarquês. Ou a realidade transbordou do copo onde antigamente eu a metia ou estou a ficar imaleavelmente mais velho e as artroses a não me largarem. Os e-mails acumulam-se e eu, submerso em whatsAapp, messenger, viber e facetime, já não sou homem para nenhum deles. Ninguém ainda traçou o angustiado retrato do actual e mundializado “quadro executivo” e, todavia, a sua angústia é bem mais shakespeariana do que a do goalkeeper. Valha-me Deus Nosso Senhor que, blogger confesso e anti-trumpiano de credo e sangue, nunca tive nem terei um dedo que seja no twitter.

barreira de executivos na hora da marcação do penalty e da nossa morte amen

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