Estranha fruta

Abel, a foto e Billie

Foi o meu primeiro post neste Escrever é Triste. De vez em quando gosto de o repescar. Como se fosse uma espécie de declaração programática

Era novo e comunista. Abel Meeropol era um jovem judeu do Bronx. Dava aulas no liceu ali ao lado. Foi ele, nesses anos pós-crash, que escreveu o poema.

Tinha visto a foto das árvores nos jornais. Não viu, mas adivinhou, o balanço que o doce vento devia dar a tão estranha fruta pendendo dos ramos dos valentes álamos do Sul. Mais tarde, tudo a convidá-lo ao sofrimento, compôs a música.

O Café Society era uma cave no nº1, Sheridan Square, em Grenwhich Village. Billie Holiday era a atracção e cantava para uma plateia branca e negra – uma raridade no final dos anos 30.

Foi o dono, Barney Johnson, que apresentou o impertinente comunista à cantora negra. Abel cantarolou para Billie que, dizem, pareceu pouco impressionada. O desmentido veio dois dias depois. A voz de Billie estendeu-se a todo o comprimento das palavras. Tão deitada como sofrida. Uma voz a roçar a resignação.

Na primeira noite em que Billie cantou “Strange Fruit” não houve encore no Café Society: a felicidade amarga da razão fechou os olhos, cerrou as mãos. Não se aplaude uma canção destas, disse um dia Bob Dylan a Marty Scorsese.

Ninguém quis gravar “Strange Fruit” até que um dia Billie foi ter com o tio de Billy Cristal (sim, esse mesmo) e a cantou a cappella. O disco converteu-se no seu maior sucesso.

O linchamento dos negros era uma festa de família no Sul. Vinham homens, mulheres e crianças brancas ver os corpos dançar nos ramos das árvores. A voz de Billie Holiday encosta-se a uma lenta amargura para evocar a história. A sempre terrível história.

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is the fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

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Não conheço outra coisa

Nem uma pessoa consegue vir ao de cima…

Não conheço outra coisa

e não é que eu seja assim tão agarrada à vida, apenas não conheço outra coisa. E a morte dura que se farta – tenho tempo, não me atrai.

Mas há dois ou três dias, estava na esplanada a almoçar, a Primavera em forte, azul de postal, vistas de fazer inveja à Região de Turismo, tinha no prato umas belas bochechas de porco em vinho tinto com o arroz armado em pudim flan e um penacho de tomilho a nascer-lhe no meio, ao lado as batatas fritas congeladas – ficaram os dois intocados, claro, o flan com penacho de capacete oitocentista e as batatas – e eu a pensar: raio, porque não fazem umas migas de espargos a acompanhar as bochechas e se deixam de arroz em forma de pudim? Com tanta boa batata, que é lá isto?! Arroz e batata? Verde nada, olha-me o enfardanço…

Enquanto isto, o azul a enfiar-se-me pelos olhos adentro e eu já meio afogada, dou por mim cheia de desapego ao postal, às bochechas, lixe-se o arroz em formas e as fábricas de congelados, uma paz de corpo a boiar e zás, uma estranha em mim não sente nem pensa, de alto a baixo percebe, podia morrer sem espernear e sem remorsos e o que não escrevi, tivesse escrito. É irrelevante.

Foi aqui que vim ao de cima. O sentimento de me deixar ir partiu.

É irrelevante.

Tenho andado com esta irrelevância nos bolsos para todo o lado desde esse dia. Deito-me e levanto-me com ela. Talvez o relevo se obtenha só por continuidade. Assim como um visto biológico, um carimbo, toma lá, tens relevo quando tens dependentes. Qualquer bicho mamífero e saudável cuida das crias. É-se relevante quando se é amado. Preciso. Ou então, um relevo civilizacional, sei lá, olha, aquele ali descobriu a cura de um terror qualquer.

Sem equívocos, continuo a sonhar com templos de kung-fu, penso no Cão, vejo-o na minha imaginação livre da idade e da doença, a correr, enfim, se é inútil, despropositado, infantil, eu penso. Continuo a pasmar-me com a grandíssima maturidade de toda a gente e eu nada. Contudo sei, qualquer coisa se afogou ali, no postal, ao almoço quando a Primavera deu em forte no azul.

O tempo passa. Martelo as teclas. Aceito que é irrelevante. Uma maneira simpática de deslocar o verbo ser da primeira pessoa.

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Um irretocável desejo de Primavera

vai formosa e tão segura

A Primavera é como a primeira luz que rompe a escuridão da sala de cinema. Enche-nos da pior das volúpias, a volúpia infantil. Às 11 da manhã já o Chiado, já a Rua de Santa Catarina lavam os olhos nas nuas e frescas pernas das raparigas, nos decotes que deixam fugir a redonda carne em direcção ao sol. É Primavera e decoto-me eu também: segue-se a cândida exposição das coisas de que, diletante, gosto muito e sem vergonha.

Gosto:

  1. Da primeira saia que o cinema levantou para, mostrando a perna, parar um carro e conseguir uma boleia. Era a perna de Claudette Colbert em “It Happened One Night”.
  2. Do teu decote.
  3. Da dúbia adolescência da perna de Evvie, entalada entre o desejo de um branco e o desejo de um negro, em “La Joven”, o filme americano de Luis Buñuel.
  4. De acácias e jacarandás, do cheiro do jasmim finalmente em flor.
  5. Do fumo de uma sórdida esquadra de polícia de “Basic Instinct”, em que as cruzadas e descruzadas pernas de Sharon Stone são o pêndulo que nos troca os olhos.
  6. De imaginar a espavorida fuga dos inocentes anjinhos nos momentos de volúpia de Deus.
  7. Da alva pureza dos shorts de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse” e da indizível convulsão que, querendo desabrochar, neles se esconde.
  8. De um dry martini ao fim de tarde, no Shutters on the Beach, em Santa Monica.
  9. Da miniatura de um Simca vermelho descapotável com que Curd Jürgens faz Brigitte Bardot içar do chão o simétrico e irretocável rabo que dourava ao sol.
  10. De golos de bandeira ao domingo, numa tarde de sol.
  11. Do vestido às riscas de Anna Karina a fazer pendant com os estofos de couro vermelhos e creme do descapotável em que foge com Pierrot. Ele, louco. Ela com a boca cheia de liberdade e de Rimbaud.
  12. De risos e beijos.
  13. Dos olhares de quatro mulheres para o tronco nu de William Holden que, em “Picnic”, de Joshua Logan, queima o lixo no quintal, “naked as an Indian”. Olhares que mordem, olhares de mulheres bonitas cansadas de serem apenas olhadas, que foi o que, quando vi o filme, ouvi Kim Novak dizer.
  14. Sim, gosto das pernas das raparigas quando chega a Primavera.

menina e moça a levaram para casa de Luis Buñuel

Publicado no Expresso, sábado, dia 1 de Abril
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Era só isto

Se tivesse arte, gostava de ter dito tudo isto.

Felizmente há quem diga. Pena que estivesse tão pouca gente a ouvir.

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The Godfather, cena 5

História portentosa (um Macbeth moderno, dizem alguns), talvez não seja tanto o «retrato da América», para ser sobretudo a forma desmesuradamente ambiciosa de Coppola pintar a glória e a miséria humanas, na sua dimensão mais visceral (O Padrinho é um ritual de vingança e de fidelidade) ou na sua dimensão social (O Padrinho é uma acabada visão da família e um satânico retrato do Poder).

Estas cinco cenas descrevi-as eu, quando ainda não havia web, no tempo das VHS, para o “Semanário”. Animava-me um forte sentimento e sentido de família. A minha filha tinha nascido há 15 dias. Junho de 1989.

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The Godfather, cena 4

Em louvor do crime. Não é um ofício para amadores apavorados. O crime é visceral. Não se mata, vinga-se alguma coisa. Não se estraga nada: dispara-se para reparar uma ofensa. Depois do crime as coisas ficam melhores, ficam arrumadas.

 

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The Godfather, cena 3

THE GODFATHER, James Caan, Marlon Brando, Al Pacino, John Cazale, 1972

Em louvor da família. A farda fica bem a Al Pacino. Gosto muito da sombra que a pala do boné lhe faz cair sobre os olhos.

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The Godfather, cena 2

De um padrinho a outro. De pai para filho. Ambos são heróis macbethianos: povoam as imagens do Padrinho de sangue e morte, escuridão e insónia. Mas há alguma diferença entre ser-se criminoso em Shakespeare ou em Coppola: no Padrinho, antes dos crimes, há os beijos que os homens trocam, cerrados apertos de mão, há o pai que roça o desconsolado ombro do filho.

 

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The Godfather, cena 1

«I believe in America. America’s made my fortune». É o plano mais bonito do filme. Começa num negro absoluto, com uma voz-off tremente e suplicante na banda sonora. É do escuro que vem a cara do homem que fala. Depois a câmara recua num travelling exasperante de tanta lentidão, fugindo do rosto do homem que suplica, para só se deter no rosto de Sua Majestade, Marlon Brando. É tudo muito devagar e pronuncia-se separadamente cada palavra do diálogo. Demora três minutos.

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FROM AFRICA WITH LOVE, by Gonçalo Mabunda *

(E 66 dias depois… Triste de andar tão ausente, escrevo aos meus Tristes irmãos pelas melhores razoes. A TARA, este grupo de Tristes desequilibrados a que tenho o gosto de pertencer preparou outra aventura. Outra aventura a que não Vos perdoarei se não forem espreitar…)

 

A Tara Gallery apresenta ‘FROM AFRICA WITH LOVE’, pelo escultor moçambicano GONCALO MABUNDA.

Com 42 anos, Mabunda é uma presença constante nas feiras e eventos internacionais, estando acostumado a exposições colectivas (“Utopia/Distopia”, MAAT) e individuais (Ethan Cohen de Nova Iorque, Jack Bell de Londres ou André Magnin de Paris) por tudo o mundo, o escultor volta a Lisboa para uma exposição individual organizada pela Tara.

Quem conhece e priva com Gonçalo Mabunda, cedo se apercebe de várias coisas: a sua criatividade e capacidade de trabalho, a sua crescente preocupação artístico-cultural e a sua enorme generosidade. Frases como “não há problema” ou “tudo bem” pululam as conversas com o artista; é um buscador de consensos e um homem de fazer.

O Inevitável (I), Gonçalo Mabunda (2017). (Técnica mista de metal e armas fundidas)

As suas constantes viagens de estudo têm construído um artista coerente que assume a influência de determinadas correntes, quer sejam elas o cubismo, algum racionalismo bauhaussiano ou ainda algum surrealismo de Miró. No entanto, as suas peças comungam igualmente das fontes tradicionais (arte tribal e folclore étnico) africanas. Este emaranhado gera uma linguagem perfeitamente identificável. Será cedo, porventura, para se poder considerar um estilo mabundiano, mas a verdade é que as suas peças apontam, perdoem-me a heresia, para um percurso pós-Dada muito defenido.

O Trono do Rendoso, Gonçalo Mabunda (2017). (Técnica mista de metal e armas fundidas)

O Trono do meu tempo, Gonçalo Mabunda (2017). (Técnica mista de metal e armas fundidas)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais do que nunca, em FROM AFRICA WITH LOVE, Mabunda faz um trajecto da circunstância da violência absoluta para a conjuntura artística contemporânea (paz e cultura), ou como diria Wassyla Tamzali (Les Cabarets Sauvages, Algiers), Culture is more powerful than destruction.

* Rua da Alegria, 126, 2.o andar, Lisboa.

8 Abril 2017 / 11:30 às 20:00

 

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volubilis

  Calígula degola Ptolomeu e a terra treme/ no chão de ruinas a pedra gasta o phallus polido

 Sândalo/ no campo de serpentes/ a flor e o fruto de um escândalo/ sementes

         Era uma vez e uma vez não era

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Poetas e gente dessa

Ainda há pouco, na Revista do Expresso, no Fraco Consolo, de Pedro Mexia, li Poetas. Claro que sorri logo com o oposto do oposto do oposto…

Why, oh why, didn’t I take the blue pill?

Não conheço Pedro Mexia. Não conheço um único poeta vivo. Dos meus poetas mortos, também não conheci um que fosse – chateou-me a sério, fiquei triste, por não ter conhecido Ramos Rosa, Manuel António Pina, Ruy Belo, Herberto Helder… Não conheço Lobo Antunes, e só conversei com Agustina num longo sonho de fazer inveja ao Matrix depois do comprimido tomado – nem o cadeirão de orelhas assente em efémero branco me faltou ao sonho: tinha eu dezanove anos e foi tão real aquela ficção que até hoje a tomo por verdadeira e juro por ela. Também sonhei um poema com uma enorme pintura de Paula Rego, e escrevi-o, detalhei bem aquela bonecada toda, acho que lhe chamei O Guardador de Patos e foi um momento de absoluta lucidez – horrível como só a verdade sabe ser.

No início da minha adolescência, a Biblioteca Municipal e a da Gulbenkian funcionavam num claustro que também cumpria funções de Museu. Ia no Verão. À torreira do calor, quando o sol a pique lambe até o ângulo recto das casas nos passeios e não há a sombra de uma sombra. Nem todos os livros se podiam levar para casa e uma pessoa tinha de ler de empreitada e copiar os poemas ainda com a letra redondinha da infância que não se despega nunca, nem quando a caligrafia se faz de electrocardiograma e já somos crescidos. Por mim, comprava aqueles livros e mais sei lá quantos, de certezinha todos, um exemplar de cada, de tudo quanto houvesse sobre a terra, para fazer uma habitável biblioteca infinita onde casa e rua e praia fossem o mesmo caminho de estantes, a pé ou de bicicleta. Eu sabia lá que Eugénio de Andrade estava no Porto? Sabia era que os meus catorze anos queriam vê-lo de carne e osso como os meus quinze queriam conversar com David Mourão Ferreira que descobri por acidente num livro de António Ferro, e os meus dezoito todos os dias juravam a si mesmos, os mentirosos, que amanhã sem falta iriam ter com Yvette Centeno, de Musaeum Hermeticum e cinco mil dúvidas debaixo do braço.

E havia a questão dos maridos. Os meus maridos. Os mortos eram uma poligamia às claras encabeçada por Eça. O pior foi o dia em que vi, não um, mas dois dos meus maridos na Feira do Livro, já em Lisboa. Vivíssimos. A dar à caneta. Uma roda de gente, mais que à volta da banca do peixe, na praça, ao fim-de-semana. Azar do caraças, Vasco Graça Moura estava de um lado e Lobo Antunes do outro e eu, de adultério e poligamia ao léu, com medo de ser apanhada no meio da sanduíche, ou desgraça maior ainda, de lhes falar e ficar com cara de dois de paus, como está? é um gosto conhecê-lo, olhe, li tudo o que apanhei daquilo que escreveu,  o tempo parece que está a querer mudar, não é? zás, fugi logo – sempre fui especialista em fugir daquilo que desejo. E olhar sem tocar também é outra grande especialidade minha. Aliás, foi assim que percebi o gótico no primeiro ano da faculdade. Punha-me a olhar, de olhos postos lá em cima, o edifício de gaveto onde ficava o velho Expresso, e onde passava todos os dias, e com o mesmíssimo olhar, a fila das Colóquio de Letras, as mil horas na Buchholz. Território sagrado, divinas alturas, que gente seria aquela? Eu aos dezassete anos só queria aprender a ser isso, assim por osmose ou milagre, tanto fazia.

Não conheço Pedro Mexia, nem poetas nem escritores, nem críticos literários, nem pintores. Não conheço gente dessa. Quero dizer, conheço. Bem. Até o avesso lhes conheço, virei-os e revirei-os letra a letra. Também gosto de me lembrar deles. Também gosto de lhes agradecer.

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Este é o meu clube, o Sport Lisboa e Benfica

Este é o meu clube. Quando eu era menino e moço e comecei a gostar deste clube havia uma certa forma de ver os jogos, de ver a competição, uma certa forma de ganhar e de perder. Eu diria que havia, para definir essa certa forma de estar no desporto, uma palavra portuguesa – “grandeza” – e uma palavra inglesa – “fair-play”.

Hoje, vejo muitas vezes uma irascibilidade e uma unilateralidade “taxista” (os bons taxistas que me perdoem) que me rouba, muitas vezes, a alegria limpa de estar num estádio. Não gosto dessa fúria que não vê a beleza do jogo.

E depois há surpresas como esta. Um vídeo, uma coisa lírica, meio infantil, e por isso tão bonita, que me cala os comentários e só me faz repetir, como um miúdo, “este é o meu clube, o meu clube é o Sport Lisboa e Benfica.”

 

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Warren Beatty travou

Warren Beatty ficou ali, a meter um dedo no envelope, como quem escarafuncha dissimuladamente a narina

Gosto do erro. Warren Beatty travou. Daqui a 20 anos, destes Oscars, lembrar-nos-emos apenas disto: Beatty travou. Ia lançado como uma velha Zundap nas ruas de Luanda da minha infância e – como é que é, mano? – travou.

Warren Beatty ficou ali, a meter um dedo no envelope, como quem escarafuncha dissimuladamente a narina. Mas Faye Dunaway, pensando ser ainda a delinquente de “Bonnie and Clyde”, disparou. Um tiro só e os produtores, realizador e actores de “La La Land”, levantaram-se para logo morderem o pó amargo da derrota.

Já errei. Tenho até uma certa memória sensual do erro. Um dia, representei a SIC num evento da Embaixada de França. Recebeu-me a então Conselheira Cultural. Não é que eu seja baixo (LOL, diz o Henrique Monteiro), ela é que era muito alta. Estiquei-me para os beijinhos da praxe e é sabido como os bicos dos pés são incertos. Escorreguei ou estremeci e beijei-a na boca. Nova tentativa, embaraçada, e o incerto ósculo ficou pelo canto dos lábios. Do alto da França que incarnava, a bela conselheira foi diplomaticamente compassiva e eu, reconhecendo embora a invasiva deselegância, ainda hoje não me arrependo da falta de pontaria e de, lábios nos lábios, a ter feito rir.

Mas falava dos Oscars. Não foram sempre o que são hoje. Estão a ver uma festa numa associação de bombeiros voluntários em que toda a gente se conhece e ama e se levam de casa os rissóis de camarão e o bolo mármore, que a minha irmã faz como ninguém? Eram assim os Oscars.

Lembro-me, como se fosse hoje, dos Oscars de 1932-33. Mesmo os cães e gatos de Hollywood sabiam que Frank Capra ia ganhar com “Lady For a Day”. Will Rogers, seu amigo, apresentava com a preguiçosa informalidade que o faria brilhar nos filmes de Ford. Anunciou o melhor realizador. “Ora aqui está uma bela surpresa. Não podia ter saído a um tipo mais simpático. Vem buscá-lo, Frank, que bem o mereces.”

Capra salta e avança. Vai a meio caminho e vê outro Frank, Frank Lloyd, a ser abraçado por Rogers. Era Capra a morder o mesmo pó em que “La La Land” fez a desastrosa espargata. Capra recuou, humilhado: “Foi o trajecto mais longo e triste, o mais consternador da minha vida. Ter-me-ia enfiado no primeiro buraco que encontrasse no chão.”

Lembro a Capra a mais curta e avisada anedota portuguesa: “Qualquer um se pode enganar”, diz o nonchalant ouriço-cacheiro descendo da escova do cabelo.

Thalberg, Bette Davis e Capra, quando os Oscars eram a festa de associação de bombeiros voluntários em que toda a gente se conhece e ama e se levam de casa os rissóis de camarão

Publicado no Expresso, no último sábado de Março
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O escritório fechou

Office at night. Hopper. 1940

 

O escritório fechou. O costume. Uma oferta “irrecusável”, sabes como é. Sinto-me um mercenário. Vendemos as nossas memórias. O escritório fechou. Era para te ter escrito há mais tempo mas a verdade é que tive vergonha. Fica lá um bom bocado da nossa história, fica lá um naco de nós.

Ficas tu, em miúdo, quando por lá passávamos para recolher as quotas do nosso Benfica. 3598. Estou a ficar velho. A culpa foi do Manuel Pereira e depois do Zé. Sem um e o outro teríamos sido outros, eu e tu. Já te disse que ainda hoje, e já lá vão mais de 15 anos, continuo a pensar ligar-te de cada vez que marcamos? Lembras-te do carro do Zé? E do Pomba? O Estádio da Luz, velhinho e nós, religiosamente, a seguir à missa que eu já jurara deixar. O Pomba ainda por aí anda. No Bairro Alto de sempre. Ainda no outro dia o vi.

Fica lá o avô. Mentiroso delicioso. Pendurado numa fotografia a pensar nos trinta por uma linha que por lá tinha feito, naquela salinha pequena, à entrada, noite dentro. Com a conivência silenciosa de quem sabemos. O Zé deixava a porta entreaberta. E o relicário, ao canto, escondendo a Eminência das Caldas inspirava os seus espasmos amorosos de eterno romântico. De onde e de quem terá vindo essa veia lúbrica de mata frades? Do velho Caroça? Do avô? Hei de perguntar ao Zé e mando-te dizer. Ou então perguntas directamente ao avô. O mais certo é ele fazer aquele sorriso doce e responder-te com um brilho azul. Mas experimenta.

Fica lá, inteira, toda uma família. De mogno. Fechada no cofre que sabes. Labiríntica em caixotes de vinho a granel que agora é todo finório. As nossas alegrias, as nossas desavenças. Ora tragédias, ora comédias. Sempre repetidas, sempre exaltadas, representadas com ares de ópera bufa para espanto dos mapas amarelecidos de São Tomé, de Almeirim e das Terras do fim do Mundo. Ficam lá as nossas memórias. Ficam lá, sobretudo, as que já não temos mas que aquelas paredes guardavam.

Fica lá uma boa lasca de mim. Fins de tarde, noites adentro, primeiro o avô, depois o pai, logo eu. Reuniões compridas, zangas estéreis, risos como nunca existirão noutro sítio. Sabes do que tenho pena? Acho que os meus rapazes não guardarão memória do escritório. Se calhar a vida é mesmo assim. Até os guardiães da memória se vão um dia. E depois morre-se mesmo.

Acima de tudo fica lá uma vida inteira do Zé. Primo, tio, irmão, amigo dos antigos. Daqueles que já não há. O escritório e ele eram uma e só pessoa. Sabe-nos a todos por dentro. Há seis gerações. Consegues imaginar? Todas as manias, todas as histórias, os arrufos, as tretas e as mitologias. Felizmente continua igual e de boa saúde. Mas abrimos-lhe um buraco fundo. E isso não consigo perdoar-me.

O escritório fechou.

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