O Senhor da Aflição sou eu, que estou aflito*

O gordo à direita sou eu. Seguem-se o presidente da Câmara de Vila Nova de Paiva (a terra do Malhadinhas e dos meus avôs), José Morgado Ribeiro e Paulo Neto, aquilinista consagrado na zona. À esquerda Joana e o marido Aquilino Machado (o neto) e o presidente da Câmara de Moimenta da Beira, José Eduardo Ferreira. Ao meio, o presidente da Câmara de Sernancelhe, Carlos Silva Santiago. O vinho é “Terras do Demo”, claro, da Cooperativa de Távora, em Moimenta (recomenda-se o espumante da mesma marca)

 

O que de mais importante há para dizer sobre ‘O Homem da Nave’, foi já dito por estes senhores, meus fidalgos, como dizia o Malhadinhas. O senhor da Aflição sou eu, que estou aflito

E os senhores são, além do nosso presidente aqui de Moimenta e do editor da Bertrand, Eduardo Boavida, o Aquilino Machado – que ainda há de ser meu primo, tão afastado como o Caramulo está daqui, mas unido no entendimento de que é necessário revigorar a obra do seu avô, mestre das palavras e mestre da vida.

Sobre ele, o neto, tenho apenas uma vantagem: conheci-lhe o avô que fugiu da vida faz hoje 54 anos. Conheci-o pouco, mas a marca indelével da sua mão na minha cabeça ainda cá a sinto. Tão viva quanto aquela manápula que no cinquentenário da sua morte, ali na casa de Soutosa, quando eu referi – havia um advogado comunista, dramaturgo, por sinal estagiário do meu tio Álvaro – essa manápula se abateu sobre o meu ombro e a figura de Jaime Gralheiro ficou enorme à minha frente e disse na sua voz forte: “Havia e ainda há!”.

Também já partiu o Jaime, assim como o meu pai, que fez da Bertrand a sua casa tantos anos e que tanto conviveu com Aquilino, para já não falar do meu avô, que a Dona Gigi, avó do Aquilino, disse, em entrevista publicada por António Valdemar, ser o único homem em quem o Mestre confiava plenamente – dedicou-lhe em letra impressa os Cinco Reis de Gente, as memórias da meninice.

O outro senhor é Álvaro Domingues, académico da Universidade do Porto, geógrafo, como este Aquilino neto, minucioso, curador e investigador da vida do campo. Os geógrafos gostam de Aquilino porque ele – em minha opinião – além de escritor é descritor. Também ele disse o que deve ser dito desta Serra de onde se avistam todas as serras que vale a pena avistar. Di-lo o autor na introdução, mas Álvaro Domingues, que é académico não esquece o essencial: os homens e a sua natureza.

Não esquece a característica de homem que foi o autor, a quem chama (e bem) rebelde crónico ou lobo sem coleira – aquele a quem se grita ‘Á coa’, como o Gil Sapateiro ensina o filho, para depois o enganar e fazê-lo saltar da lura onde se metera.

Mas Álvaro Domingues faz mais do que isso – e tiro-lhe o meu metafórico chapéu – porque desmonta a mitologia romântica em volta do aldeão. Bem sei eu que ela é tão falsa como Judas, ou mais, porque os autores desta patranha, fossem os que ele cita, como Jules Michelet ou António Feliciano de Castilho, fosse ainda o nosso Eça que se desconchava em ‘A Cidade e as Serras’ admirando a paisagem e os odores de uma sopa bem cozinhada, ou não conheceram a aldeia ou mentiram com os dentes que puderam.

Eu por aqui andei a matar o tempo. Coisa de que ele se vinga pois ele é que me mata agora. Tipo pescarreta, mais do que caçarreta. E andei como pude, se pudesse descalço, não por falta de sapatos, mas para imitar os sobrinhos do padre Lucas ou os netos do Luís e da Florinda até me ir embora com o ar descrito num destes capítulos, quando vai o doutor Anacleto e outros tantos, além do estudante.

O Homem da Nave é granítico, daqueles de antes quebrar que torcer. Faz e diz isto e aquilo e também o seu contrário, como todos, mas não tendo o gesto por incoerência, nem por oportunismo, mas por astúcia do momento. Consegue, apesar de tudo, manter intacta, como ar da nossa serra de Leomil (ou da Nave que não sou eu a meter-me nessas disputas geográficas), a pureza de intenções e uma certa candura que jamais o abandona.

Já velho, interrogado a propósito de “Quando os Lobos Uivam” por um brutamontes que lhe dispara: “O Senhor é português?”, confessaria mais tarde, já em casa, a Dona Gigi, sua mulher: “fosse eu mais novo e tinha-me virado ao homem partido aquilo tudo”. Não era um ferrabrás, mas também fora um ferrabrás. Diz ele, da sua própria terra: “Nas imediações havia povos, bárbaros de todo, governados pela lei da selva, onde se matavam uns aos outros com sobranceria e inaudita fereza”.

E, como escreve noutro dos livros do Quinteto – e aqui fica o quinteto da Beira – composto pelos livros Os Avós dos Nossos Avós // Aldeia // Geografia Sentimental // Arcas Encoiradas,// O Homem da Nave (socorro-me do académico Valdemar para esta taxonomia), como escreve nas ‘Arcas Encoiradas’.

“A fazendinha de regadio produzia-lhe o linho de que fazia os lençóis, a camisa, os sacos, as calças de Verão e até a mortalha. As ovelhas davam-lhe a lã de que urdia o burel em que talhava a andaina, capucha, barrete e meiotes. Este burel, batido nos pisões, com mais pisadura ou menos pisadura, adaptava-se aos diferentes graus da sua necessidade: impermeável para a chuva; leve para as festas; rala – a chamada serguilha – para aventais; entretecido com trapo, para mantas da cama. Noutros tempos eram os pastores que confeccionavam os botões, recortando-os no chifre, atrás do gado. À parte as brochas para os tamancos e o cabedal para as encoiras, o serrano estava-se marimbando para o filibusteiro. Que mais precisava ele? Não precisava de remédios, e se adoecia era tratado pelos simples à maneira dos lusitanos.”

Podia, desta obra, retirar a parte da carta de Ludovina Jesus para o Brasil. Cito de cor: o porco, com sua licença, está magro e tivemos de o matar antes que se fosse. Já a vaquinha se vai portando em termos. Era este o mundo, o idílico mundo que alguns persistem em nos vender.

Ora bem. “Deus nos guarde de parrafo [parágrafo] de legista, infra de canonista, etc de escrivão e récipe [receita] de mata-são [mau médico]”. Eis as coisas que eu ainda hoje utilizo para me proteger do mundo e me abrigar na Nave, ou em Leomil, que é mais próprio, se não for numa fraga da Lapa, onde a Nossa Senhora fez mais milagres que pensamos.

Sim, nós – eu digo estes nós de coraçao aberto e orgulho cheio – somos assim: manhosos, mas gente de boa cepa, talvez um pouco puxada ao exagero, de exaltações rápidas, perdões imediatos, sonhos grandes, pequenos feitos e coração puro.

Ó Aquilino, tens aqui, Mestre, no teu neto, um homem que ainda pode ter umas costelas valentes daquilo que tu – meu querido, bom e paternal amigo – assim como eu, por todos os costados da zona, ainda tenho. Sei que as terras foram e são selvagens, do Marau, acusado de passador de moeda falsa e de bater na mãe, ao Zé da Custódia que parecia aviar os pardais como quem mata piolhos, terras de analfabetos e brutos, mas onde um aperto de mão tem o valor de um contrato em tabelião.

Quereis mais sobre a Nave? Subia-a! Como fez o Mestre que por aqui andou escondido com o filho Aníbal, Ide aos locais que ele diz, onde nunca a bota da lei calcou. Não sei se ainda há lugares assim, mas quero acreditar profundamente que sim. Que vos tenho, meus amigos, acaso a fúria das bestas de Lisboa me queira perseguir ou fazer mal.

O homem da Nave é o Mestre e sou eu. Sou eu pelo meu bisavô e pelo meu avô, que aqui andaram; pelo meu pai que se foi há dois anos, pela minha família que é a vossa família.

*extrato da apresentação de ‘O Homem da Nave’ junto à capela do Senhor da Aflição, perto de Soutosa, Moimenta da Beira, a meia encosta entre a casa de Aquilino Ribeiro e o cume da Serra da Nave

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Isto o que é?

isto o que é?

Vou mudar de casa – vendi a minha, que por acaso até era bastante decente, o ano passado. No dia um de Agosto. Via-se o mar e a serra da varanda do quarto e da varanda da sala. Da janela da cozinha, o jardim maduro com a piscina em frente, e a buganvília roxa, um nó de ramos e flores pérgola afora, à direita. A biblioteca verde, sim, verde, e fui eu quem a pintou prateleira a prateleira, como é possível, fazia horas extra como quarto de visitas. Mas quais visitas?

Estava a quinhentos metros da praia – medi.

Raramente usava carro, só quando chovia ou não tinha outro remédio. A minha linda Peugeot bastava-me. Durante anos fui feliz ali, com o Cão e aquele grande silêncio que fazia o mar ouvir-se pela chaminé da lareira com as gaivotas a ladrar-lhe por cima, e foi só nessa altura, pouco depois de me ter mudado, em pleno Novembro, que percebi porque lhes chamavam cães do mar.

No Inverno, parecia que as ondas me queriam entrar pela porta, o Cão rosnava-lhes de olhos semi-cerrados, deitado ao comprido no braço do sofá, e assim mesmo, sem medo daquele grande lobo, a maresia comia o verniz, a madeira, oxidava o puxador e o que mais apanhasse. Na Primavera vá de reparar tudo. Houve o ano que tive de pôr aquele chumbo de porta blindada a levar uma folha nova tal não foi o estrago. E o ano em que mandei fazer uma estante à face da lareira, a carreguei de livros de poesia, de número atrás de número de NYREV e sabe Deus o mais que assinava e devorava, e enfiei para lá uma televisão fora de moda que mal via a menos que ligasse o dvd. O que gostei daquela estante onde tinha de me empoleirar para chegar ao fundo da prateleira de cima… E dos filmes em looping na velha TV? Na altura fazia planos de comprar a poesia toda, logo a começar pela da Assírio e avançando depois horizonte adiante até ao princípio do tempo. Quem tem a poesia toda? Não sei. Mas num aniversário ofereci-me a Rosa do Mundo para mentir que era eu.

Apesar de ter mandado pintar a casa quando foi comprada, era novinha em folha e estava lambida de um branco que deitava sombras cinzentas, tive de a mandar pintar logo de novo para corrigir o disparate da cor escolhida. Ficou do exacto tom. Sempre fui uma exacta apesar das pilhas de livros pelas cadeiras, mesas, sofás. A exactidão faz-me bem. A minha mãe dizia que abrir os meus armários lhe dava nervos: quais militares alinhados, as minhas chávenas todinhas de asa à direita… Mas ó. Tinha pássaros e ramos e ninhos e flores, insectos e folhas desenhados à mão livre, assim, em locais inesperados, mal se viam até que apareciam súbitos, junto ao rodapé, ou ao lado da porta, a entrar em voo pela janela, e apanhavam toda a gente de surpresa. Era a bicheza local, uma pega azul, duas poupas bebés, borboletas, um louva a Deus, a cistanca, os juncos…  É para que saibam que não se sabe realmente. Pois não? E o verdadeiro ninho de andorinhas lá em cima dispensou-me do Bordalo excepto na cozinha.

Cresci numa casa. Nunca me habituei a apartamentos. Aquele apartamento era uma casa a fingir no último piso: as escadas para o andar de cima, a ausência de esconsos, os tectos altos, a vista desafogada, a ilusão do jardim, emprestavam-lhe o ar de casa casa. E o acesso era por galeria. A galeria, vá-se lá saber se por ser mais ilusionismo, desta vez o de um passeio de acesso à entrada, deixava-me feliz. E o silêncio. Acho que já disse o silêncio. Silêncio suficiente para ser acordada todas as manhãs pela passarada na guarda de ferro da varanda. Era ali que vinham. De todas as guardas de todas as varandas, era ali que reuniam ao toque de alvorada enquanto o Cão se espreguiçava e eu fingia que dormia. Ai que coisa boa ter um Cão, pássaros na varanda e uma almofada onde adormece todo o ruído, e não ter futuro. Não esperar nada. Viver hoje. Só hoje. Só um dia de cada vez como aquela gente diz nos filmes nas reuniões dos A.A..

Isso mudou. Foi sorrateiramente. Primeiro uma coisa. Outra. Pensava e amanhã? Quando o tempo começa a ganhar densidade, existir não chega. Faltam pessoas. Uma ideia de vida. A perspectiva de ser além de existir. E mais outra. Quando se juntaram todas as coisas pareceu que um dia mudou quando foram tantos dias para mudar, a correr subterrâneos. E foi-se o silêncio e com ele foi-se ser e mais nada. Não gosto de dividir paredes. Muito menos quando se tornam esterofónicas, histericofónicas. E tenho um defeito – quero dizer, tenho mil. Um grande defeito, por ser mansa, não se percebe, nem eu percebo, que a coisa vai e vai e vai e um dia de tanto ir não volta. Não há nada a fazer. Fechei a porta. Nunca mais.

No dia um de Agosto, pouquinhos anos depois do nunca mais, vendi a minha casa. Porém a saga, a saga de arranjar casa em Lisboa já estava em curso há que tempos. E foi por causa dela, ali, a desempacotar caixotes de isto o que é? que encontrei a escritura original do apartamento de antes deste onde vivi com o meu lindo Cão, o apartamento de antes de haver O Cão, a escritura do meu primeiro lugar de pessoa crescida de dezoito anos, tantos, meu Deus, onde outra eu viveu uma vida que misteriosamente foi minha e onde nada aconteceu como fora planeado ou sequer imaginado. Nada. Só surpresas de rodapé ou a entrar pela janela.

Agora vou para a minha terceira casa fora de casa. Planos? Só a cor exacta das paredes e a aguarela que encomendei do meu Cão.

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As pernas do Imperador

 A revista Epicur é muito boa. Fazem-na, sabendo o que fazem, amigos meus, o Mário Rui de Castro e o Triste Pedro Marta Santos. Escreve lá a Triste Eugénia de Vasconcellos. E escreve lá também este vosso terceiro Triste, como se estivesse em casa.
Vem aí – está só a despir-se para a ocasião – a revista de Verão. Mas o que quero dizer é que me deixaram ir a Viena passar o Carnaval e dançar na Ópera. Foi o que escrevi no número de Primavera. Leiam, sim? Ou dancem, pronto.

Baile na Ópera
Manuel S. Fonseca

José tinha duas pernas. Não é fácil saber de que gostam as pernas de um imperador. Mas não ouso atirar-lhe às pernas a mesma acusação que me atrevo a cravar na sua mão direita. A mão de Francisco José era uma mão relutante. Já as pernas imperiais tinham dançado dezenas de bailes e ainda a sua mão direita hesitava assinar o decreto que a boa sociedade de Viena lhe pedia.

Vou já dizer ao que venho, mas mesmo antes de dizer seja o que for, é preciso proclamar um princípio ab ovo: Viena gosta de dançar. Deixemos o imperador Francisco José de pernas amarradas, enquanto damos corda às nossas para uma breve viagem no tempo. Em 1814, a Europa estava como a Europa há-de estar daqui a cinco anos – basta que tudo corra mal e já se sabe que tudo o que pode correr mal acaba mesmo por correr mal. Ou seja, tal como hoje, em 1814, a Europa estava de pantanas. Napoleão, afamado corso com gosto pela artilharia, fizera um inter-rail avant la lettre, ou uma espécie de Erasmus militar, bombardeando, em estágios semestrais, a extrema Rússia, a Prússia de dignos bigodes, a alva Polónia e o coração da Europa que era o império austro-húngaro. Fora, enfim, derrotado, e mau grado ainda ter vindo, como as galinhas a que minha mãe cortava o pescoço, a estrebuchar no que foi o seu último governo de Cem Dias, a Europa veio a Viena parlamentar para acabar com as guerras de Napoleão e com as guerras dos futuros Napoleões – entenda-se, sempre que a Europa queira ser Europa terá de vir a Viena parlamentar!

Um Congresso reuniu as potências, a Rússia, a Prússia e, entalada entre as duas, a Polónia, mais a Áustria, a manhosa Inglaterra e a depauperada França e não vos maço com a lista dos países satélites que vieram para ouvir e calar. O que fizeram os congressistas? Dançaram. Houve bailes todos os dias para todos os gostos. Bailes de cerimónia e, sobretudo, como convém a um Congresso, bailes de máscaras. Um filme dos grandes estúdios alemães da UFA, a que Hitler apagaria o brilho e o gosto germânico pelas brumosas fantasias, recordou, no século XX, essa explosão lúdica de pernas, braços e corpos.

O filme é de 1931 e chama-se O Congresso Que Dança. É muito mais Cinderela do que histórico e político. Toma liberdades de conto de fadas e mostra a paixão do Czar, incógnito, por uma jovem austríaca que lhe oferece flores. Ao contrário das outras cabeças coroadas, o Czar obstina-se na recusa a bailes, dizendo: “Não vim a Viena para ver bailados e muito menos russos.” Não dançou de uma maneira, dançou de outra, nos ternos braços da bela e mignonne Lilian Harvey, a actriz que, e perdoem-me os hífenes, a Europa via então como a mulher-criança, o paraíso-feito-mulher, num arrebatamento avant-pedophilie que outro vienense, o pintor Egon Schiele, não desdenharia.

Pares de pernas tão iguais e tão diferentes

E por já não haver czares a apaixonarem-se por floridas plebeias, voltemos a pôr os olhos na mão direita de Francisco José. Acaba de assinar o decreto que autoriza o que sempre rejeitara: uma soirée na esplêndida Ópera de Viena. Soirée é um termo ambíguo, que não contempla necessariamente um baile. Mas à meia-noite, na noite de 11 para 12 de Dezembro de 1877, o ardor bailarino de centenas de pernas de homens e mulheres austríacos, pares de pernas tão iguais e tão diferentes das pernas de Francisco José, venceu o preconceito e pôs a Ópera a dançar, como já se dançava, com loucura de fin-de-siècle na Ópera de Paris.

Hoje é quinta-feira, dia 23 de Fevereiro de 2017. É a última quinta-feira antes do Carnaval e da pungente quarta-feira de cinzas e eu vou a pé, a caminho da Ópera de Viena. São sete horas da tarde e da porta dos imponentes hotéis, do Bristol, do Sacher, desabrocham mulheres-crianças, musas de branco, lolitas que, mais do que o paraíso-feito-mulher, diria serem uma doce tortura-que-se-fará-mulher. Saem à rua e julgam ter os pés no chão, mas enganam-se. Transportam nelas uma alegria que as faz levitar. Sorriem para toda a gente, para mim também, e o sorriso delas, tão branco e primordial, desarma nuclearmente o mundo. Como se a inocência voltasse a ser possível. Há uma onda de luxo, de dinheiro resplandecente, a caminhar da rua pedonal Kärntner para o Opernring, uma vaga de perfume que sai do Sacher Hotel para dar os cinco passos que o separam da entrada da Ópera.

Sinto que devo já esta explicação aos meus leitores: estas miúdas vêm debutar. Musas ou nereides, chamam-se Franziska, Sabine, Hanna ou mesmo Eva e hoje, na vida delas, vai ser o primeiro dia em que à luz chamarão luz e à noite chamarão noite. Vão ter a sua noite de luz, o dia primeiro. E eu pensava que não, mas falando com elas descobri que afinal sabem: debutando, continuam uma tradição que é maior do que elas, o rito de passagem de meninas a mulheres.

Volto brevemente às pernas de Francisco José, imperador da Áustria e rei da Hungria, Croácia e Boémia. Com um ultimato à Sérvia, fora ele a começar a I Grande Guerra, um baile de metralha e gás mostarda com milhões de mortos, uma carnificina dançante. Abalado, calvo e velho, o imperador sente um derradeiro esticão nas pernas a 21 de Novembro de 1916, e é a última coisa que as suas pernas sentem. Rígido, o império aguenta-se de pé mais dois anos. Depois, uma burguesia industriosa, respondendo à crise da derrota na I Guerra e ao desmembramento do Império, substitui a velha ordem e proclama a república.

Uma prodigiosa alquimia criada por Johann Strauss

A Áustria não deixou, porém, de dançar – bem vos avisei, a Áustria adora dançar. Em 1921, apenas três anos depois do Império, pernas republicanas dançavam valsas, quadrilhas e polcas na vasta sala da Ópera, como antes as tinham dançado as pernas aristocráticas. E, em 1935, sob o alto patrocínio da decidida mão e robustas pernas do Chanceler Federal, tem lugar, com as actuais características e com este nome, o primeiro Baile da Ópera de Viena, com a apresentação à sociedade de uma centena de meninas que, em poucas horas, uma prodigiosa alquimia desenvolvida por Johann Strauss transforma em mulheres.

Estou em Viena e também eu vou debutar. Enganei a fome com uma apressada garrafa de água e um par de inevitáveis salsichas, um dos 2.500 pares de salsichas que o baile comeu. Trago vestida, saiba-se, a melhor e mais cara camisa que já vesti na vida. Descobri que, de tão fanadíssima, não vinha na mala a velha camisa de cerimónia que tenho desde os primeiros Globos de Ouro. Fui comprar uma no Sir Anthony, men’s best adress, dizem eles seguros do que dizem, o que a minha carteira amargamente comprovou. Recorrendo ao meu melhor inglês, bem sugeri something less expensive, língua-de-trapos que foi recebida com um sorriso complacente e um of course not, um “claro que não” acompanhado de conversa consoladora, em que o magnânimo funcionário de Sir Anthony me revelou compras de clientes meia hora antes de o baile, com contas caladas, que essas sim fariam do homo economicus que eu sou um homo galacticus, seja lá o que isso possa ser.

Entrei agora na sala da Ópera e não há ninguém nos camarotes. Somos só umas 20 pessoas na sala a que retiraram a plateia e abriram o palco para a transformar num imenso salão de baile, e meti conversa com Valentin, neto de bascos de uma aldeia encostada a Biarritz, segunda geração na Áustria. Conta-me que já é a quarta vez que cobre o Baile da Ópera para a ORF, a televisão austríaca. Explica-me o alinhamento do espectáculo, os hinos da Áustria e da Europa primeiro, depois a entrada das debutantes com os padrinhos, o ballet, as interpretações do cantor que este ano será Jonas Kaufmann, tenor alemão. Valentin é novo mas, sem menosprezar a ascendência basca, é um austríaco orgulhoso e jura-me que o baile é muito mais do que um evento cor-de-rosa ou uma festa. Acredita no cerimonial, no valor simbólico, atrevo-me eu a dizer, e na comunhão plena das cinco mil pessoas que ali se vão juntar. Quando o mestre-cerimónias gritar “E agora todos valsam!” também ele irá dançar com a namorada que há-de chegar.

A libertadora beleza de um decote

Nada do que Valentin disse me preparou para o que a seguir aconteceu. Uma hora e quarenta minutos antes de serem declaradas abertas as hostilidades o salão está cheio. Uma pequena multidão alinha-se e esfrega-se atrás de uma corda vermelha que uns pajens ou escudeiros operáticos seguram. A sala da Ópera de Viena parece o Mar Vermelho dos Dez Mandamentos, de Cecil B DeMille, na cena em que Moisés separa as águas. É entre essas duas alterosas barreiras humanas que o espectáculo vai ter lugar. Não cabe mais ninguém e as minhas costas convivem com o peito ameno de duas gentis japonesas. Nem eu podendo dar um passo à frente, nem elas podendo recuar um passo atrás, não tenho a certeza de que, bem contadas as nuances, as jovens japonesas não fossem três. Vieram com dois jovens austríacos que, no ano anterior, tinham, eles mesmos, debutado, se assim se pode dizer de um rapaz. Gabam-se da experiência com uma excitação e uma alacridade de meninas. E se primeiro me apetece passar-lhes uma reprimenda viril, ouvindo as reacções deliciosamente musicais das macias japonesas, só me resta invejá-los. Explicam às deslumbradas jovens do país do haiku e de Mizoguchi a tensão e a exigência das coreografias e dizem-lhes que houve mesmo um dos rapazes que desmaiou.

Não chegou o venerando imperador do Japão, mas chegou o Presidente da República da Áustria. A sala ouve o hino de pé, os camarotes iluminados, mil e trezentas garrafas de champagne patrioticamente recolhidas nos frapés, casacas e condecorações tão orgulhosamente erguidas como o comovente peito feminino assoma da beleza viva desses libertadores decotes que, santa paciência, Deus não abençoa mais do que eu. Sem decote, Christine Lagarde, a patroa do FMI, está no camarote à minha frente e olha, como eu, para esta sala que, de pé, ouve o hino da Europa. Claro que é sobretudo uma festa, mas também se vê logo que há, nesta sala, um pouco mais do que uma festa. Há aqui uma forma de vida, a que afluem tradição, o gosto do êxito e do bem-estar, um habituado convívio com a riqueza e com os prazeres sem sobressalto a que gerações de revoltados Rimbauds chamaram simplesmente burgueses.

Muito perto passa o Danúbio, estrada vertebral da Europa Central, que atravessa ou se roça por treze países, desde que irrompe na Floresta Negra até que, em delta, se afoga no Mar Negro. É o Danúbio que está, afinal, na sala da Ópera, o antiquíssimo poder das suas águas, fonte de vida, da humilde fertilidade da agricultura às fulgurantes indústrias, parteiro de aldeias e da sumptuosa arquitectura das cidades. Um rio é o pai das Musas, se é que a voz de Johann Strauss tem alguma autoridade e os meu leitores me deixam pedir-lhe ajuda.

A palpitação rubra de quem experimenta a felicidade

Há cento e oitenta meninas que entram na sala, de puríssimo branco, tules, sedas e organdi, luvas de manga longa. Tiaras de diamantes na cabeça. Brincos de pérolas. Vêm como um rio, apresentar-se à sociedade. Estão a dois passos de mim e trazem nas caras a palpitação rubra de quem está a experimentar a felicidade. Umas fecham quase os olhos, outras seguram neles a lágrima centrípeta que nunca deixarão cair. Karin, por exemplo, é igual a uma moça de Matosinhos, rosada, cabelo negro, mais farta do que magra, pujança a que os 18 anos de hoje dão graça e que os anos futuros converterão em peso. Tem a pele fresca, de um verniz cristalino, mas os nervos, a ansiada tortura de num só dia passar a ser mulher, puseram-lhe nas costas nuas duas borbulhas vermelhas e púberes, que a maquilhagem tenta disfarçar e os meus dedos podiam, se esticasse a mão, afagar para as acalmar. Se ela precisasse… Mas não precisa. Karin e as outras debutantes entregam-se agora, com precisão, mas não de relógio suíço, a uma coreografia. Os pares delas, os rapazes, ajoelham-se numa cortesia de cavaleiros medievais. Recitam-lhes com o corpo cantigas de amor, uma rosa de prata na mão. E elas hão-de responder-lhes, depois, com igual vénia, o corpo em forma de cantiga de amigo, as costas da mão oferecidas ao primeiro beijo. A sala não resiste a esta delicadeza, quase pueril, e vem abaixo com o maior aplauso da noite, a que logo responde a valsa de Strauss, o Danúbio Azul. Os neurofisiólogos vieram há pouco garantir que, estimulado pela música, um feto de 6 meses já dança. Os 180 pares de debutantes, que estão na sala da Ópera de Viena, ao contrário do Imperador Francisco José de pernas relutantes, ainda eram fetos e já dançavam. Dançam e vê-se que pensam com o corpo, braços e pernas, peito e ventre. Como se a música, que os pés deles elegantemente pisam, tivesse sido a sua primeira linguagem.

Dançam o Danúbio Azul e já nada os separa da multidão que assiste, dos pais e das mães que dos camarotes os comem com os olhos, do Presidente da República que os acolheu, dos 71 anos da actriz Goldie Hawn que veio fazer companhia ao milionário Richard Lugner – por 500 mil euros, se cobrar o que o ano passado cobrou Kim Kardashian. E que interessa a moeda vil! Uma valsa levou os jovens pares de uma margem à outra do rio. A sociedade já os recebeu e o mestre-cerimónias grita então, “Alles Walzer”, os cordões vermelhos desaparecem e todos valsam. Mais de um terço dos cinco mil cento e cinquenta convidados, mil pares pelo menos, evoluem no chão da sala da ópera de Viena. A dança, essa liturgia de júbilo, esse prelúdio que arrasta os corpos, adormecendo-lhes a violência para neles acordar a vontade de fusão, toma conta de Viena. Era capaz de jurar que já vos tinha dito isto: Viena adora dançar.

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O monstro da lagoa azul

Foi assim por acaso, como tantas coisas por acaso: andava à procura de outas fotografias e deparei-me com esta que foi parar àquela pasta por engano. As minhas amigas pequeninas na Lagoa Azul.

Naquela tarde tinha-as levado em expedição científica para a Serra de Sintra. Instrumentos de registo: blocos e lápis de cor. Instrumentos de observação: pernas, olhos abertos, lanche e maior fome de descoberta. Os meninos não ficaram na foto porque já tinham partido à descoberta. Voltaram e desenharam ninhos e patos. O mais pequeno coloriu o monstro da Lagoa Azul, que tem talvez vinte patas e é vermelho fluorescente. Um desenho científico muito realista. Não percebo como não existe a lenda do monstro da lagoa azul, porque é muito mais impressionante que o do Loch Ness e este pelo menos existe mesmo. Não fotografei o desenho e isso é que é de lamentar, agora não há prova.

De lamentar mais ainda é o facto de estar agora sentada numa secretária a trabalhar, numa redacção sem janelas nem vista para nenhuma praia ou lagoa. neste domingo de sol.

“Escre­ver é triste”, não é Drummond de Andrade? “Impede a con­ju­ga­ção de tan­tos outros ver­bos”, só fica espaço para esta redacção sem janelas e umas notícias sem graça.

O que você perde em viver, escre­vi­nhando sobre a vida. Não ape­nas o sol, mas tudo que ele ilu­mina. Tudo que se faz sem você, por­que com você não é pos­sí­vel con­tar”.

E fico a olhar, parada, para a fotografia da Lagoa Azul tirada há sete anos. Agora as minhas amiguinhas já estão grandes e naquela idade de descobrir uma Lagoa Azul como a do filme. E de mergulhar como no filme e explorar outras coisas sem as desenhar nem escrever. Há dias em que escrever é triste à brava, caramba. Ou não. Um dia alguém se lembrará de fazer um blog com esse nome e aí é que vai ser uma alegria. As minhas amiguinhas iriam logo pôr um big smile a fechar a coisa e assim já tínhamos um monstro sorridente a boiar neste texto.

 

 

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A cegonha, o rinoceronte, a bicicleta, O Cão e eu

A CEGONHA, O RINOCERONTE, A BICICLETA, O CÃO E EU

Tenho uma bicicleta de que gosto muito. Uma Beach Cruiser que veio substituir a Peugeot preta que adorava e me roubaram.

No tempo inicial da Peugeot, ainda vivia no Paraíso mas trabalhava que me fartava, à hora de almoço ia treinar, ao fim do dia idem aspas, chegava a casa morta, e aquele passeio de bicicleta, a volta completa que fazia com o Cão pelo Éden, então um cachorrinho, e o mundo em silêncio de pessoas, só voz de pássaros e de árvores e ervas, a voz grave do mar ao fundo e a do sal perto, logo de manhã muito cedo, deixava-me de bem com o que viesse. No Outono, punha-se a vida em cores de Turner e os pneus rodavam sobre o chão de folhas como quem pisa um dos céus que ele pintou. Na verdade, um dia, num desses dias de Turner, o passeio de bicicleta deixou-me de mal com tudo.

Íamos os dois, o Cão e eu, os grandes companheiros. Foi quando vimos uma enorme cegonha com a asa direita partida, pendida, no meio da estrada, a andar -mal se tinha de pé. Estacámos todos. O Cão. A cegonha. Eu. Toda a gente sabe que sou uma mariquinhas do pior. Fiquei logo doente, aflita e cheia de e agora o que é que eu faço… Mas alguém consegue ver um bicho assim belo, aquele porte alto de orgulho e não ser mariquinhas também? Queria ir ajudar a cegonha. Não queria assustar a cegonha. A vida imóvel à espera do primeiro gesto. Mexi-me em câmara lenta. Desci. Bicicleta no descanso. Cão no cesto – shhh… ouviu, Cão? Mal ponho o pé na estrada ao lado da ciclovia, a cegonha faz um arranque baixo, em esforço, pousa lá à frente, e eu que não digo um palavrão ainda que escreva todos, penso merda, merda! não consigo fazer nada pela cegonha, ainda ficou pior do que estava. Ponho-me a ligar para todo o lado a ver se alguém me salvava a cegonha. E de repente, o primeiro carro na estrada e ela desaparece.

Não tenho, nunca tive, e se o passado é um bom preditor do futuro, nunca terei força para fazer face a estas coisas, as me fazem chorar, acho que dos nervos de não fazer nada – a impotência mata-me, seja ao perto ou ao longe. Não aguento, é físico. Lembro-me de estar no ginásio, na televisão em frente da passadeira passava um documentário de vida selvagem. Estava desatenta, sabia lá que os selvagens ali éramos nós… Só percebi quando os vi a serrar o corno a um rinoceronte e o deixaram vivo, a morrer lento, a esvair-se em dor e sangue. Na altura treinava muito. Chegava a ficar nauseada do cansaço. Nunca se comparou à náusea que senti naquele momento. Porque não matá-lo? Pelo preço da bala.

Isto, que nunca passa, passou. Foi mais ou menos por esta altura, a 23 Maio, a espreitadela da redenção. Em 2009. Desse dia de Primavera já a cheirar a Verão por todos os lados, fez-se um Inverno como poucos. O céu começou a baixar o seu chumbo sobre o azul e era já um tecto baixo de chuva incansável e grossa. Relâmpagos majestosos. Um choque de beleza bruta – qual Turner qual o quê… Lixem-se, não trocava aquele momento nem pelo meu Musée d’ Orsay. Do lava-loiça por baixo da janela onde estava, obviamente a lavar a loiça, via, em frente, o jardim com a buganvília roxa a escorrer água pétalas fora; em frente, os telhados turquesa de uma construção antiga nunca tinham sido tão claros e limpos como contra aquele chumbo todo e a minha cabeça teórico-imaginativa pôs-se logo a magicar na descrição da cidade edificada por Akhenaten ao início do seu reinado, a que terá tido telhas daquele turquesa quando, de repente, a beleza prática me lixa o lirismo teórico. Trovões como poucas vezes na vida. Relâmpagos. Rios de chuva. As cores saturadas de vida contra o mundo neutro de cinza a saltarem aos olhos. A a natureza a dar show e eu espectadora feliz. Quando volto a olhar para a direita, encostada à primeira trave da pérgola da buganvília, altíssima, forte, encharcada de não poder voar naquele rio cortado de relâmpagos, uma cegonha. A cegonha?

Já não moro no paraíso. O meu querido Cão já morreu – se neste instante chovesse o céu todo como naquela tarde, mesmo sem cegonha, sem buganvília e sem tectos azuis havia de voltar a pô-lo no parapeito da janela, perto os dois um do outro de nariz no vidro.

Porém chegaram hoje o selim, o cesto e os manípulos novos que encomendei na Amazon para a minha bicicleta. Talvez esta noite sonhe com um rinoceronte possante a passear nos meus sonhos.

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O Stradivarius de Sternberg

 

 

“Pernas, voz, fumo ou só um nome: Marlene. Morreu esta semana, podia morrer na próxima, ou nunca. Era eterna.” Escrevi estas duas frases para encabeçar o artigo que, três dias depois da sua morte, publiquei no Expresso.
Passaram 25 anos. E ou eu estou a ficar mesmo muito velho, ou Marlene me parece hoje mais viva e mais próxima do que nesse já distante 1992.

Em Witness for the prossecution, de Billy Wilder

 O Stradivarius de Sternberg
Manuel S. Fonseca

«It took more than one man to change my name to Shangai Lilly»
Marlene Dietrich em O Expresso de Xangai

CADA violinista tem o Stradivarius que merece. Os sete nomes do Stradivarius do realizador Josef von Sternberg (metáfora que paga direitos de autor ao ensaísta inglês John Baxter) foram, sucessivamente, Lola Lola, Amy Jolly, X-27, Shangai Lilly, Helen Faraday, Catarina II e Concha Perez. Abram chaveta para estes nomes, sete vezes mudados, e, na pontinha da seta, encontram a fonte misteriosa dessas múltiplas incarnações: Marie Magdelene Dietrich von Losch a quem nos habituámos a chamar — pateticamente às vezes, como às vezes por ela chamava o professor Rath, em O Anjo Azul — Marlene Dietrich.

Marlene foi sete vezes Stradivarius nas sete vezes em que Sternberg, por ela e com ela, compôs as sinfonias chamadas Anjo Azul, Marrocos, Fatalidade, O Expresso de Xangai, Vénus Loura, A Imperatriz Vermelha e The Devil is a Woman (o único que, bizarramente, não estreou em Portugal). Não lhes querem chamar sinfonias? Pois bem, podem muito bem, se assim quiserem, chamar-lhes filmes. Não foram, arrisco eu, filmes que obriguem a correr a passadeira vermelha reservada aos génios da história do cinema. Sternberg talvez tenha sido sempre um capítulo secundário do romance dos grandes autores. Quero lá saber! Ou melhor, quiseram lá saber as gerações e gerações que, com a imagem fabulosa de Marlene, nesses filmes e por esses filmes, se iniciaram no sacrossanto mistério da sexualidade.

Em Morocco, de Sternberg

Pernas, voz e fumo constituíram a trindade do mistério Marlene — Miss Dietrich, se quisermos pôr agora a nota de pudor que o passamento, esta semana, em Paris, aconselha. Pernas, voz e fumo foram os materiais com que Sternberg, nos filmes mencionados, moldou o mito de Marlene. O mito ganhou asas: a asa direita do exotismo; a asa esquerda do perigo.

Essa imagem, construída nos filmes dos anos 30, e que persistiu, durante décadas, como imagem poderosa das mais acabadas fantasias libidinais da nossa cultura, foi carregada por Sternberg com todos os ingredientes mais óbvios: todos aqueles sete filmes estão povoados de chapéus, penas, véus e máscaras, símbolos sexuais de «pára, arranca», tão imediatos como, para um automobilista, o vermelho e verde de um semáforo. Do guarda-roupa de Marlene poder-se-ia dizer, como Lawrence Grant diz a Clive Brook, em O Expresso de Xangai, queixando-se da inusitada companhia feminina que os rodeia no comboio em que viajam: «Well, sir, I suppose every train carries its cargo of sin, but this train is burdened with more than its share!» (Bom, senhor, suponho que todos os comboios levam a sua carga de pecado, mas este comboio vai sobrecarregado com mais do que pode!)

fotografada por Cecil Beaton

O QUINHÃO de pecado na roupa de Marlene — ou na falta dela —, o quinhão de pecado nas pernas, na voz e no fumo que sempre a cerca parecem ter sido carga a mais. Foi, pelo menos, o que, com algum humor, ela confessou em centenas de entrevistas, particularmente no filme que Maximilian Schell lhe dedicou, em 1984. «I wasn’t erotic, I was snotty.» Talvez fosse só fanhosa, talvez nem fosse grande actriz, talvez tenha sido só o corpo presente das mossas negras de von Sternberg: «Nós, os alemães — e é ainda Miss Dietrich quem o afirma, a pensar, retrospectivamente, muito retrospectivamente, na sua relação com o seu cineasta demiurgo — queremos sempre ter um chefe, queremos ter alguém que nos diga o que temos de fazer. »

Todo esse cortejo de negações de Marlene Dietrich, relativamente à sua carreira e à sua relação com Sternberg, só reforça o mistério da sua imagem no ecrã. Não, não, «Marlene sou eu» não era afinal ela, jurou Miss Dietrich até à hora da sua morte. Se não era, então porque pareceu a Cocteau que, naqueles filmes, ela respirava como um peixe tropical? E porque jurava Hemingway que a voz dela, bastava só a voz, partia o coração de um homem? «De um homem!», disse o ingénuo Hemingway — mais tarde, e com maior conformidade aos factos, alguém lhe emendaria o dito: «Muitas mulheres, segundo uma velha piada, têm género, mas não têm sexo. Com Marlene, o oposto anda mais perto da verdade. Ela tem sexo, mas não tem um género particular.»

Se calhar não são só precisos muitos homens para mudar o nome de alguém para Shangai Lilly. Afinal, Marlene quem era? Terá sido só a coisa mental de Sternberg, essa coisa que ele concebeu fatalmente mulher, tantas vezes a mais masculina das mulheres — nessa ambiguidade, subtilmente sugerida, residindo o insuportável quinhão de pecado de Marlene? Seja como for, fosse Marlene «eu» ou «outra», é sobretudo ao peso desse pecado, e dos fantasmas desse pecado, que nos curvamos na hora da sua morte.  

I wasn’t erotic, I was snotty

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As ancas de John Wayne

Era mais fácil falar das pernas de Angie Dickinson, mas vou obrigar-me a só olhar para o cinturão, coldre e colt de John Wayne. Sei do que falo, xerife foi a primeira coisa que fui na vida, revólver à cintura, uma longa cana de mamoeiro a fazer de Winchester. Também fui índio e bandido, mas xerife era a minha devoção, meio John Wayne, meio Buck Jones, insofismável semi atestado da minha caretice infantil.

O cinturão de Wayne, de que não tiro os olhos, atravessa em lento bamboleio o “Rio Bravo”, que Howard Hawks filmou, em 1959, a fechar a década em que um vivíssimo amarelo, mais amarelo do que o “Cristo Amarelo”, de Gauguin, se derramava nos melhores westerns. Amarelíssima era a camisa de Joan Crawford em “Johnny Guitar” e do mesmo glorioso amarelo era a blusa de Feathers, personagem de Angie Dickinson que, em “Rio Bravo”, mostra os negros collants a Wayne.

Mas não é dos collants e das pernas louva-as Deus de Angie Dickinson que venho falar. Se tenho palavras é para o cinturão, coldre e colt que cingem as vastas ancas de Wayne. Foi por causa desse xerife e do sólido andar dele que Hawks fez o filme.

“Rio Bravo” foi a arma de que Hawks puxou para abater William Wyler, autor do célebre “High Noon”. Medíocre, como quase todos os filmes célebres, pensou Hawks. “High Noon” tinha um xerife, Gary Cooper. Prendera um poderoso facínora e um regimento de fora-da-lei vinha atacar o acossado xerife e resgatar o seu führer ou secretário-geral. Gary Cooper ia, de porta em porta, tentando montar a sua geringonça. Todos lhe viravam as costas, até a branca e radiosa noiva, Grace Kelly.

Ouçam a zanga épica de Hawks: “Um bom xerife não vai pela cidade, como galinha tonta a pedir ajuda a toda a gente para ser salvo no fim pela noiva quaker.” Os heróis de Hawks são profissionais e estão sentados nas suas angústias: Wayne na solidão, Dean Martin na bebida, Walter Brennan na perna coxa, os 18 anos de Ricky Martin num “que-se-lixismo” inocente. Buscam a redenção individual, encontram-na no grupo, salvando a cidade cercada, num filme quase sem grandes planos.

Para xerifes diferentes, filmes diferentes: os planos de “High Noon” estão cheios de significado, os de “Rio Bravo” estão cheios de alegria; os enquadramentos de Wyler são a régua e esquadro, os de Hawks são uma festa de cor. Ah, no Lloyds of London, um milhão de dólares segurava as pernas de Angie Dickinson.

Publicado no Expresso, 3 de Junho

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A Eugénia foi ali fazer uma visita

A Eugénia foi aqui fazer uma visita. Levou o cão e encontrou uma cegonha. Foi de bicicleta e estenderam-lhe um tapete vermelho. Chove muito nesta visita da Eugénia. Rios de chuva e relâmpagos. Não há nada mais bonito do que um texto tempestade. Que sorte que tiveram os nossos amigos do Delito de Opinião, esse aqui, que por acaso é lá, que ela agora visitou. Que bom que é ter visitas e um passo de cegonha.

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Bob Dylan em Lisboa?

Bem sei que é um press-release da minha editora, mas não consigo resistir a trazê-lo aqui.

Bob Dylan acaba de dar uma ajuda entusiástica à Guerra e Paz Editores. Foi hoje, no discurso que mandou a agradecer o Nobel da Literatura. Sabendo, certamente, que a Guerra e Paz publicou agora mesmo esse admirável romance que dá pelo nome de MOBY-DICK, Bob Dylan não hesitou e disse à Academia Real Sueca e ao mundo que o quer ouvir: «Moby-Dick é um livro fascinante.» E acrescenta, cheio de vontade de nos convencer, que é um «um livro povoado de alto drama», que é «um conto de fadas marítimo», e que é «um livro que nos diz como homens diferentes reagem de formas diferentes a experiências diferentes».

Ouçam Bob Dylan. Como se a enchesse de cerejas, Bob Dylan enche a boca com nomes bíblicos, referências alegóricas, ciclones, aventura e vingança: está tudo em Moby-Dick. A pensar na edição da Guerra e Paz do livro de Melville, Dylan não se poupa nos elogios e nas referências: «Está aqui tudo misturado, todos os mitos, a Bíblia judaico-cristã, mitos indianos, lendas britânicas, São Jorge…» para acabar a dizer da personagem central do romance, «Ahab é um poeta da eloquência.»

Ouçam Bob Dylan. Ouçam a voz dele estremecer de alegria a falar deste livro, ouçam a voz dele a empolgar-se com as personagens, a empolgar-se com o terrível combate da gigantesca baleia e de um homem obcecado. Ouçam o perigo e a glória a derramarem-se na voz de Dylan vindos das páginas de um livro monumental, a Moby Dick.

A Guerra e Paz editores acabou, agora mesmo, de lançar nas livrarias portuguesas e na Feira do Livro, uma novíssima tradução de Moby-Dick. Maria João Madeira, num trabalho aturado e rigoroso, de quase um ano, assina a tradução portuguesa desse monumento da literatura americana. Bem sabemos que Bob Dylan não se deu ao trabalho de ir a Estocolmo receber o Nobel. Mesmo assim a Guerra e Paz editores vai convidá-lo para uma sessão de autógrafos de Moby-Dick na Feira do Livro. Será que ele vem?

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Casamento

Bem vistas as coisas, o casamento é como a democracia: mete água por todos os lados mas ainda não se inventou nada melhor.

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Li tanto, li tão pouco: uma lista

Biblioteca Municipal de Estocolmo

Li Villon e Joyce, li Baudelaire, René Char, quase todo o Sade, o elegante e assexuado Steiner, os Barthe todinhos, muitíssimo Bertrand Russell, John Steinbeck, Hemingway, Scott Fitzgerald (cinco vez Terna é a Noite), os diálogos de Platão, a Náusea de Sartre, nos últimos anos Scruton, quase todo o Jorge de Sena, tanto Rodrigues Miguéis, Faulkner, as manas Brontë, Mrs. Pearl Buck era eu menino e Júlio Dinis, Norman Mailer e muito Cardoso Pires, o Molero do habilidoso Dinis, a senhora Dona Agustina, devorei Herberto, Hamlet e Macbeth, Ruy Belo, Larkin, Whitman, mais Camilo, algum Eça – lembro a quem já se perdeu, que eu estou a dizer o que li – os ensaios do Joaquim Manuel Magalhães, três vezes todo o Borges, meio Leibniz, da Bíblia vou a um terço na segunda homérica leitura. E Agostinho Neto, até Deleuze, Foucault e Rorty, Pessoa, Viriato da Cruz, D. H. Lawrence, Jorge Amado mais do que Guimarães Rosa, as crónicas e o teatro de Nelson Rodrigues, Turgueniev e Vassili Grossman. Homero. Há tão pouco tempo Para Aquela que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, há alguns anos, O Esplendor de Portugal. Bataille e Rimbaud, Emily Dickinson e Cavaffy. Os gigantescos Twain, Quijote, Melville, Tolstoi ou Dostoievski, o redentor René Girard. Foi o que, de repente, me lembro que li. E Klossovski, Raymond Chandler, Hammett, El-Rei Junot, Camões e Kafka, a Paideia, o Heraclito que as águas do rio não levaram, Michel Tournier, o Ravelstein de Bellow, o singular e unitário Salinger, o primeiro romance de Sollers.

E li tão pouco. Podia juntar mais 100 nomes e faltar-me-iam sempre mais de mil e um, uma caverna que nem Ali Babá e um bando de 40 literários ladrões encheria. Li tão pouco Maupassant, Montaigne ou Milton. Falta-me um milhão de linhas de Virginia Wolf, Virgilio ou Dante Alighieri, Proust e Beckett, Chekov, Ibsen, Jane Austen, Leopardi, o sossegado Octavio Paz, o turbulento Céline, Eco e Calvino, Rilke, Montale e mesmo Balzac, Goethe (apesar do meu amado Werther) e o crítico Kant, quase todo o Hegel e Espinosa, Lucrécio e a De Civitate Dei. Li tão pouco, o que por ser quase nada é quase tudo, Dickens e Swift, Milton e Victor Hugo. Tão pouco Raul Brandão, um dedal de Artaud e Chaucer, Neruda Brod e Byron. Uma falta de apetite para Garcia Márquez, Lacan e Luckács. E, culpa minha, tenho falta de Píndaro e Pinter, de Ovídio e Ortega y Gasset, de Tolkien e Stoppard. Poupei-me a Adorno e vou poupar-me a Žižek. E é natural que nunca venha a ler a Jerusalém Libertada de Tasso, mas vi o filme. E, tendo eu lido o reivindicativo Juan de Goytisolo, a grande (e não obstante espúria e mesquinha) Espanha que me perdoe não ter eu lido como devia Quevedo, Gôngora e Tirso de Molina, porque bem sei que a França não me perdoará ter-me rendido a Houellebecq, fechando os olhos a Chateaubriand, a Anatole France e ao previsivelmente maldito Jean Genet.

Não se pode ler tudo? Pode sim e devia ler-se tudo. Como é que se pode ter uma conversa séria com quem não leu tudo? Estremeço quando alguém começa a falar comigo de literatura ou de filosofia. Tenho a certeza de que quem fala comigo leu tudo e eu pouco mais li do que esse nada que nem chega à linha de água. Tenho desculpa? Não, tenho culpas!

Quero expiar as minhas culpas. Vou dizê-las aqui, uma a uma. De 1980 a 1992, houve 31.320 horas em que não estive a ler. Estive a ver filmes, a consultar revistas de cinema, ou a escrever as folhas da Cinemateca Portuguesa, a fazer ciclos de luxo e vaidade como o Musical, Ficção Científica e Coppola em Contexto. E a desempenhar inenarráveis tarefas burocráticas que incluem ter criado os “amigos da cinemateca”, para não falar de abismais reuniões até essas quatro da manhã que o João Bénard inundava de fumo: metia uma nuvem de nicotina numa sala de 4 metros de pé direito e enchia quatro cinzeiros de beatas numa só noite.

Nos primeiros nove anos da SIC, conto 23.490 horas, a comprar formatos como o Não te Esqueças da Escova de Dentes, o Juiz Decide, o Ai Os Homens, ou a descobrir Chuck Norris, os filmes de Jean Claude Van Damme com o Manuel Cintra Ferreira, o Steven Seagal que programei contra o Big Brother, viagens a Cannes e a Hollywood , em que torrei dinheiro ao orçamento em jantares de negócios e estratégias conspirativas para sacar à concorrência o Dragon Ball Z ou o Pokemon. E ganhei. Podia falar de uma estreia mundial de Godard, mas também podia falar dos bailes no La Chunga com as inocentes playmates do Playboy, e haveria logo quem levasse mal, quando só me deviam levar a mal ter lido tão pouco.

Nos últimos quatro anos da SIC, juntem mais 13 mil pecados, 13 mil horas de culpa que nunca expiarei a fazer spin-offs dos Malucos do Riso, os Malucos do Riso na Praia, os Malucos do Riso nas Arábias, os Malucos do Riso no Avião, para não falar de uma sitcom em directo, cinco dias por semana, como o falecido e saudoso Camacho Costa, ou as sublimes e límpidas intervenções de Fernando Rocha no Levanta-te e Ri, ele e o Marco Horácio a levarem ao colo uma nova geração de cómicos.

Só aqui, e sem ser preciso recorrer a outras escusas e satânicas culpas, estão explicadas 67.810 horas em que os livros, a literatura & filosofia ficaram apeados ou bateram de estrondoso nariz na porta. É um titânico atraso: 67.810 horas de atraso nas leituras envenenam uma vida. Estou pronto ao Acto de Contrição: por serem os livros sumamente bons e dignos de ser amados sobre todas as coisas, e porque eu verdadeiramente os amo e estimo, pesa-me de todo o meu coração tê-los ofendido. E se digo isto com a minha contrita mão esquerda, nunca a minha mão direita esconderá que as 67.810 horas de sôfregos pecados, na sua magnificente desbunda, me souberam a vinho e rosas, ámen.

ps – Estão excluídas desta contabilidade penitencial as horas de regalado sono e o dia 29 de Fevereiro dos anos bissextos.

Livraria Lello

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Peter Pan

Estavam a chegar ao fim os meus dias como crítico de cinema do Expresso. Foi há 25 anos, em Março de 1992, que se estreou o Hook, de Steven Spielberg. Além da crítica, que abaixo jaz, escrevi umas notas sobre a génese da obra. Era, reconheça-se, um trabalho muito suadinho, nesse tempo em que não havia cá net para ninguém e em que não se podia ir a correr ao imdb ou à wikipédia sacar rebuçados a um tostão para adoçar as dúvidas.

Dustin Hoffman, o Capitão Gancho

«Hello, boy!»

PETER Pan é apenas o pretexto de Hook, uma espécie de «boutade» com que Spielberg prende a atenção do público para a moderna fábula que, a seguir, dá a ver. O Peter Pan or the Boy who couldn’t Grow-up, que James Mathew Barrie escreveu em 1904 para o teatro (e reescreveu em 1911 como romance, Peter and Wendy), não serve de critério para aferir o valor de Hook. Barrie escreveu uma comédia, pressionado por esse desejo que tantas vezes acorre à mente adulta: «quem me dera ter ficado sempre criança!» Spielberg meteu por um atalho que o levou muito além do final dessa história, construindo um filme que se serve de um pensamento de miúdo: «o que é que eu vou ser quando for grande!» As consequências temáticas dessa escolha inicial são de vulto: enquanto Peter Pan é, essencialmente, um gesto de recusa, um obstinado canto de inocência que se fecha sobre si mesmo, Hook é um filme aberto ao mundo, simultaneamente de inocência e de experiência, em que a ordem destes factores pode, e se calhar deve, ser alterada. Terá sido por isso, que, simbolicamente, Spielberg preferiu transferir para a personagem de Hook, o Capitão Gancho, inimigo figadal de Peter Pan, a honra de dar título ao filme?

Se Steven Spielberg tivesse querido filmar Peter Pan, tenho a certeza de que teria persistido na ideia inicial de utilizar Michael Jackson como protagonista. A escolha de Robin Williams, e a maneira como Spielberg pediu ao actor que fizesse a personagem, revelam, distinta e claramente, que o autor de Hook queria outra coisa: «Representar Peter Branning antes do seu encantamento era a parte mais difícil para Robin. E ainda assim, com Robin, quase se consegue ver esse lado de Peter Pan dentro de Branning, aos murros à porta para sair», afirmou Spielberg.

Robin Williams, um Peter aos murros à porta

Peter Branning, o protagonista de Hook, funciona, afinal, como uma boneca russa que não sabe o que é: ao contrário de Peter Pan, a personagem de Robin Williams não sabe que já foi muito pequenino. Nas primeiras sequências do filme, situadas em São Francisco, vêmo-lo como um advogado americano, super-profissional, com os dois pés no escritório e uma vaga ideia das obrigações familiares. São as sequências anti-«yuppie» de Hook, a crítica social da vida contemporânea exposta segundo a óptica cândida de Spielberg, que é como quem diz, o pai criticado pelos filhos.

Segue-se a viagem para Londres, com a família: viagem entre modos de vida, ou melhor, entre modos de habitar. Na casa de Londres, a casa dessa antiquíssima Wendy Darling, as paredes começam a contar histórias, as janelas e as portas dão sinais de vida própria, a luz está cheia de passado. É o sinal de uma nova, não sei se eterna, aliança entre encantamento e nostalgia. Na casa de Londres, Hook atinge a altitude de cruzeiro sentimental. É nesse cenário que Peter Branning, pela primeira vez, começa a ter pena de si mesmo. Entra «yuppie» na casa de Wendy, com os filhos e a mulher em formatura, até que uma voz antiga o saúda do cimo de uma escadaria vitoriana. «Hello, boy», diz a voz, em contra-picado, filtrada por uma luz azul carregada de evocações.

O coração de Peter Banning estremece. Quer lembrar-se e não consegue: a dor de ter esquecido começa a mudar a personagem. No jantar de homenagem a Wendy, o discurso de Peter consuma esta disposição: é o discurso de quem tem pena de ter esquecido, mas continua a não poder lembrar-se.

Spielberg trabalha então o resultado desse esquecimento fazendo com que tenha consequências trágicas na relação pai-filho. Basta um sopro de vento, uma janela aberta e cortinas a esvoaçar, para que Peter Banning seja privado dos filhos. À pena soma-se a perda. A relação entre pai e filho tem o ponto mais baixo no barco dos piratas, quando os recursos adultos de Peter se revelam insuficientes para salvar os filhos das garras de Hook. Peter não se lembra que é Pan!

Hook transforma-se, nesse momento, num programa especial de reeducação sentimental de adultos. É uma experiência de sensibilização que implica disponibilidade para a aventura permanente. Peter Branning só pode salvar os filhos se começar por restabelecer a sua memória sentimental: voar, manejar com destreza uma espada, cantar como um galo. Entre fadas, sereias e beijos que se deitam na palma de uma mão. Para lhe darmos um nome, chamemos-lhe, se quisermos, a reconstituição do imaginário infantil.

Peter em acelerado plano de recuperação sentimental

Não há, nessa apoteose da fantasia, quase nenhuma vontade de escapismo. Spielberg organizou a sua ficção à maneira de uma moderna fábula moral com um fundo filosófico de raiz platónica: o belo e o bom são uma e mesma ideia. Assunção ideológica que, a meu ver, continua a distinguir, «bel e bien», o cinema de Spielberg das máquinas burocráticas de entretenimento contemporâneo. Ao contrário dos burocratas lúdicos como Tim Burton e James Cameron, e ao contrário da máquina ronronante que Warren Beatty montou com e em Dick Tracy, o cinema de Spielberg, e nele este Hook, é um cinema de celebração do espírito, um cinema epifânico, visão extrema e extremada da alegria e da dor, da ansiedade e da euforia, do terror e do amor. Em estado puro. Puríssimo.

Convirá acrescentar que Hook é o triunfo do espírito, mas em estúdio. Deve ter começado por ser uma orgia para Norman Garwood, o «production designer» que teve de conceber os cenários. E reparem nos adereços gigantescos entre os quais Gareth Lewis, o aderecista, faz circular Julia Roberts, a Fada Sininho, reduzida a uma figura cuja proporção corresponderá a 20 centímetros. Sabe-se como essas orgias de «décors» e adereços (e estas merecem nomeações para Oscar) acabaram por esmagar ou empastelar algumas das mais boas intenções do cinema espectáculo contemporâneo. Spielberg deu a volta a esse risco, fazendo de Hook um espantoso filme de câmara. Dean Cundey, o director de fotografia, contou à revista «American Cinematographer» que, excepção feita à abordagem do barco dos piratas pelos Rapazes Abandonados, Hook foi mesmo filmado com uma só câmara. O que confirma, no plano material, a estratégia de privilégio da narrativa acarinhada por Spielberg. Em Hook, filme de piratas, ao leme está a câmara. O resto, dos cenários à montagem, é vento e mar por onde o barco navega. Estranha conclusão para um filme em que a imagem cinematográfica sofre a bárbara invasão das mais sofisticadas tecnologias. Talvez Spielberg seja o último César. Depois dele talvez pouco mais reste ao cinema do que parafrasear o verso de um poeta, e dizer: «O que seria de nós sem os bárbaros».

Fada Sininho, 20 centímetros de Julia Roberts

The making of…

  1. Agradeçam a existência de Hook a Jake, o filho de 12 anos do argumentista Jim V. Hart. Em 1982, com pouco mais de dois anos, Jake fez um desenho que explicou aos pais: «É o crocodilo a comer o Capitão Gancho… mas o crocodilo não come o Capitão Gancho. Ele foge.» Jim V. Hart confessa que foi a partir desta ideia que começou a desenvolver a história da vingança do Gancho. Quatro anos depois, ainda não tinha encontrado a boa história. O filho voltou a ser inspirador: «Como é que seria se Peter Pan crescesse», disse um dia, à mesa, quando tinha seis anos de idade. A ideia de Hook estava pronta a servir.
  1. Hook foi todo filmado em estúdio. Mas Spielberg estabeleceu com o seu director de fotografia, Dean Cundey, um princípio de realismo mínimo: ambos concordaram que a iluminação de estúdio deveria imitar a imperfeição dos exteriores filmados em cenários reais. Parte do trabalho de Cundey foi, então, de sobre-expor as zonas de luz, para criar o mesmo desequilíbrio que se tem quando se filma, por exemplo, uma floresta autêntica. Não terá sido só por uma questão técnica. Quem é que não admite que haja, nesse excesso de luz de tantos planos de Hook, uma propositada rima com os filmes que caminham para a luz, chamados Encontros Imediatos ou E.T.?
  1. Querem ver outras rimas? Spielberg filmou nos actuais estúdios da Sony (ou ainda poderemos dizer Columbia?) Algum dia poderemos esquecer que eram esses os estúdios da MGM, a maior máquina de sonhos e de grande espectáculo de Hollywood? Temos, portanto, um filme feito nos estúdios de Culver City. Rebuscando um bocadinho os velhos livros de estúdios, ficamos a saber que foi nesse estúdio que os sonhos de David O. Selznick se converteram em realidade.
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Felicidades hipotéticas

Já aqui contei: desconheço Pedro Mexia. Mas, ó diabo, de há uns tempos para cá parece-me um velho (des)conhecido, um daqueles com quem falo sozinha como as pessoas que respondem boa-noite ao apresentador do telejornal, assim tipo, “durante os anos sessenta”? mas o homem é um iogurte?! Veja lá isso, caro Pedro. E sim, tem razão, também “isento de tudo o Chiado.”

Numa destas janelas terá estado a minha felicidade hipotética.

felicidades hipotéticas

Estava a ler o Fim da Aventura, de Pedro Mexia, na Revista E, sobre o novo livro do velho O’ Neill, a pensar que se estivesse ainda em casa da minha avó, e fosse a passar diante dela de livro na mão e lhe dissesse, li tudo e não me cansei – código para hei-de relê-lo uma fartura de vezes –, ouviria por resposta, isso não me parece grande conversa para quem lê até os rótulos dos sabonetes. E sorriria. Ela e eu. A minha avó tinha, também, o humor cítrico de O’Neill – quando o li pela primeira vez, já me estava entranhado e eu nem sabia.

Como não sabia que iria acabar à porta de sua casa, na Rua da Saudade, 23, ali mesmo onde destaparam um teatro romano, onde se sobe ou desce a pique e se tem vista para a parede da frente ou para o rio atrás. Foi uma felicidade hipotética.

Andava à procura de casa. Perdidamente como os muitos que procuram casa em Lisboa. Penso que foi no fim do Outono passado que dei com ela. Ele. Um apartamento pequeno: cozinha, sala, escritório e quarto comunicantes cabiam numa área contada ao centímetro e sem uma única zona de arrumos. Tinham-lhe feito uma daquelas recuperações que são uma lambidela de má cosmética, mas enfim… Chão e portas afagados, micro casa de banho com tudo o que é mais barato e agora se compra como quem vai à mercearia, uma retrete, um autoclismo de plástico, uma base duche em meia-lua, e uma cozinha de poliéster com encastrados, se faz favor, e ponha na conta – fiado é o nome original do cartão de crédito. A despeito disto, a Rua da Saudade não tem saída para o trânsito e, por comparação com a vizinhança, acaba por ser, de longe, a menos movimentada. Pensei, olha, menos mal.

O pior veio depois.

Ao lado da porta, à direita e à esquerda, em cima e em baixo, sei lá eu que fiquei logo encandeada, placas afirmativas de residência no prédio. Ary dos Santos e O’Neill. O’ Neill?! Quero lá saber da má cosmética… venha a meia-lua, venha mesmo a lua-nova, se foi bom para ele, é bom para mim. Fazer o quê? Os bons poetas, de preferência mortos e bem mortos, são a minha fraqueza. Se me quiserem deslumbrada como um veado antes de ser atropelado, mostrem-me uma primeira edição lida e relida de um deles ou de um dos meus maridos ou coisa assim – é preciso perceber que hoje fiquei a pasmar para o Steiner impresso! Casado há 62 anos e não é comigo, vá-se perceber um mistério destes… quero lá saber do homem do detergente Surf!

E agrava-se. Quando era pequena, mesmo pequena, pré-alfabetizada, era muito dada ao drama, teatreira, cheia de véus e anéis, imaginações e palavras fabulosas que usava, vá, com originalidade que hoje não me apetece cascar na infância. A natureza de uma pessoa não muda. Até se pode deixar de andar enfeitado como uma Scheherazade, mas o bicho está lá dentro. Que é como quem diz, ah, está explicado – sim, sempre fui cosmológica, é uma das minhas virtudes inúteis. Estava explicado não ter conseguido casa antes. Estava explicado isso e estava explicado tudo, a redenção é, por natureza, absoluta: tinha de ir parar ali, à Rua da Saudade, por osmose poética. Era o destino. Eram os véus e os anéis desvendados e justificados.

Marco a visita logo decidida a ficar com a casa. Confirmo a marcação. Que sim. Com certeza. E volto a confirmar. De véspera, à noite, informam-me mal e porcamente por sms que a casa está alugada. Veado atropelado, quero saber como, porquê, se a cozinha de poliéster ainda nem está montada, se me garantiram que a primeira marcação era a minha… Ai, do cosmos ao caos à velocidade de um topo de gama, afinal era o destino, a tal felicidade hipotética que se ia à viola e sem letra do vizinho Ary dos Santos.

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A agilidade vagabunda de um Dois Cavalos

O Dois Cavalos

Já conhecem a revista Epicur. É uma revista comandada pelo mesmo movimento de rotação da terra que faz os solstícios e os equinócios. A revista, Primavera, Verão, Outono, Inverno, sai quatro vezes ao ano. Na Primavera – que número tão bonito a Epicur fez – deixaram-me publicar esta crónica. Deixo-a aqui, já a aguçar-vos o apetite para o número de Verão que vai agora entrar nas bancas.  

A agilidade vagabunda de um Dois Cavalos

O Dois Cavalos está a arder, alguém me viu fugir, à velocidade dos vinte anos, pelo mato do Dondo, e dois dias depois já a minha mãe sabia que a FNLA, de morte matada, tinha mandado o seu anjinho encontrar-se com os anjinhos do céu. As cinzas de um 2CV ainda hoje jazem e apodrecem no pujante mato do Dondo que o abraçou, dois rapazes fugiram e talvez nunca mais as bocas das suas mães os tenham beijado, mas foi outro, e não o meu Citroen 2CV, a ser devorado pelas chamas criminosas. Juro também que esta crónica não é póstuma e o amoroso luto da minha mãe foi manifestamente exagerado.

O 2CV foi o meu primeiro carro. Comprei-o em octogésima mão. Era uma pandeireta a estremecer por todos os lados. A frágil graça das suas linhas, tão lindas como a nuca rapada de Naomi Campbell, pedia que fossemos nós a levá-lo ao colo e que ninguém fizesse a afronta de sentar as baixezas nos seus periclitantes bancos. E eis a primeira viagem: de Luanda ao Lobito, 700 quilómetros de estradas à beira da independência, uma guerra civil de mortes à traição a vir do capim ou das esquinas da cidade. Intrépido, com a vagabunda agilidade de Charlie Chaplin, o Dois Cavalos avançou para o interior até à Quibala, flectiu para os morros da Gabela, por lhe cheirar a café, e depois deixou-se deslizar à beira do Atlântico Sul, no Sumbe.

Do Sumbe ao Lobito, o perfume do mar queimava-nos de liberdade a pituitária. O 2CV fazia o que queria, ziguezagues como se a fita de alcatrão fosse só nossa, as finas quatro rodas a girar numa alegria menina. Podia-se, se assim posso dizer, mijar ao vento. E foi o que os meus vinte anos fizeram, na magnífica solidão dessa estrada, o pudico Dois Cavalos de olhos fechados, mas sem nunca parar. Eu andava então a fazer a revolução e tenho a certeza de que nem Che Guevara teve a liberdade de mijar ao vento de um 2CV em movimento.

Sempre soube que na vida se davam bolos. Nunca imaginei que um dos mais doces bolos da minha vida pudesse ser esse carro que os franceses tinham pronto quando os nazis os invadiram. E lembro: o 2CV olhou para a fronha de Hitler e negou-se a nascer. Os senhores engenheiros e os donos da Citroen destruíram os 150 protótipos. O 2CV só se fez à estrada, livre, em 1948. O meu devia ser desse ano, porque, já tínhamos passado a Canjala, a 70 quilómetros do Lobito, o chão do carro, no lugar do condutor, rasgou-se e passámos a ver a estrada. Olhava-se para cima e via-se o eterno azul do céu, olhava-se para baixo e desfilava o belo e negro alcatrão. Tínhamos assim a certeza de que era um Dois Cavalos com as rodas bem assentes no chão.

Nas lutas da independência, tive de o deixar no Lobito. Voltei para o recuperar em 1976. Mas o fogo não o poupara. A UNITA ou um sul-africano ressabiado, não reconhecendo nele a estremecida elegância de Naomi Campbell, pegou-lhe fogo. Era já e só uma carcaça queimada à porta do Chá para Dois, no Terreiro do Pó. Não se livram do fogo os Dois Cavalos da minha vida.

O Menino Mijão

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Os vestidos de Caravaggio

O vestido de ouro de Gentlemen

Há um Salgueiro Maia na vida de Marilyn. Como tanques de Abril a deslizar no Terreiro do Paço, levantou-se um sopro revolucionário quando Marilyn trouxe a uma festa o mesmo vestido lamé dourado que usara numa cena de “Gentlemen Prefer Blondes”.

Esconde-se um nome e um homem nos bastidores dessa revolução. O homem chama-se William Travilla, tinha um bigodinho de anos 50 e, misturando escândalo, luxúria e poesia, desenhava vestidos como o cruel Caravaggio pintava rostos. Em oito filmes, Caravaggio, perdão, Travilla desenhou os vestidos que desenharam Marilyn.

Em 1953, deram-lhe o prémio de “Fastest Rising Star”. Marilyn quis fazer da vida um filme e disse que levaria à festa o vestido de ouro de “Gentlemen”. O primeiro a dizer não foi Joe DiMaggio, o Messi ou Ronaldo desse tempo, com quem se casara. O bem-aventurado decote tinha um metro, e o vestido, de tão cingido, pressupunha a peremptória e justa erradicação de soutien, calcinhas ou outras levezas interiores. Se o vestes, vais sozinha, disse DiMaggio.

A boca de Travilla, o designer, abriu-se num outro rotundo não. Que ela estava gorda demais para um vestido que era, em ouro metalizado, uma segunda pele. Mas Marilyn descobrira uma dieta infalível. Fazia uma lavagem colónica, vulgo clister, duas vezes por dia. A hidroterapia tirava-lhe peso na hora e Travilla deixou-se convencer.  Veio a casa de Marilyn coser-lhe o vestido ao corpo. Reparem, nem zíper, nem botões. Entrava-se, costurando o vestido ao corpo e era preciso cortá-lo para se sair.

Marilyn, sem DiMaggio, chegou à festa com duas horas de atraso. Travilla recomendou que fosse e viesse depressa, antes que as esticadas fibras do tecido explodissem em poalha dourada.

É ela que entra agora no repleto salão do Beverly Hills Hotel. Tivesse Nosso Senhor entrado e a sala não congelaria mais. Descongelou-a Jerry Lewis, mestre-cerimónias, subindo para uma cadeira e começando a uivar. E nem uma boa teria serpenteado sala dentro, como Marilyn fez. Com um meneio do derrière arrasou o espectáculo e arrancou uma ovação, disse na hora uma jornalista.

Já sem memória do seu belo e honesto passado dissoluto, a boca de Joan Crawford seria a escandalizada boca da reacção, acusando Marilyn de não ser uma senhora. Talvez não fosse: nascia, nesse vestido e nessa aparição, outra ideia de mulher. Vestida nos bastidores pelo discreto capitão William Travilla.

O discreto capitão William Travilla

Publicado no Expresso, no último sábado de Maio

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