Nasceram três coisas lindas

Parece que é um documentário. Vou ver se o descubro. Mas este versão que começa com um bolero canónico, Lágrimas Negras, descamba na mais invejável liberdade livre. É bonito de ver e ouvir: quando tu nasceste, nasceram três coisas belas, nasceu o sol, nasceu a lua e as estrelas. É uma desgarrada de amor e riso.

 

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Não me posso queixar (5)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)
(Capítulo 3)
(Capítulo 4)

5

 

A hora estava a contar. Talvez o morto não aparecesse como sucedera nas semanas anteriores. O vagabundo aguardava-o, recostado nas escadinhas e apreciando um branco espetacular. Um branco feito de rabigato e viosinho e ligeiramente passado pela madeira, mas não o suficiente para lhe cortar a elegante e refrescante acidez. Um topo de gama. A garrafa refrescava-se num balde novo cheio de água e gelo. Um balde de metal reluzente que suava pequenas gotas de água, brilhantes como pérolas, que contrastavam com a habitual imundícia que do vagabundo emanava como uma aura.
A garrafa ia a meio, quando finalmente o morto chegou vagaroso e com um andar estranho. Tinha enfiado um bebé pelo cu.
— O que é que lhe aconteceu homem?
— Sabe lá — respondeu o morto sentando-se com dificuldade e de esguelha em cima de uma almofada de ar em forma de donut. — Fiz como combinamos e, foda-se, esta merda dói.
— Ó homem, queixe-se lá que é para isso que aqui estamos.

Na sua procura de uma dor épica, o morto havia consultado a internet e a pesquisa revelou-se frutífera. A rede era um maná de sevícias criativas. Havia de tudo: artefactos de autoflagelação capazes de provocar síncopes só de olhar; listas de torturas novas e antigas; e todo um mundo de répteis e insectos cuja evolução natural transformara em impiedosos verdugos munidos de eficazes instrumentos de dor.
Algumas das mortificações estavam ali mesmo à mão e podiam ser provocadas domesticamente com instrumentos familiares e facilmente adquiríveis, outras, porém, as mais complicadas, requeriam produção e até a importação de instrumentos e organismos. O morto estava particularmente interessado na dor provocada pela Paraponera Clavata, a formiga da amazónia conhecida por tocanera, formigão-preto ou hormiga veinticuatro, numa referência às 24 horas consecutivas de dor que a sua mordedura provoca. Uma dor tão avassaladora que foi classificada como a maior de todas as dores no índice de Schmidt, e referida, em vários sites, como a pior já experimentada pelo homem. Na Amazónia, por exemplo, alguns índios usam a hormiga veinticuatro como rito iniciático enfiando as mãos em luvas cheias destes pequeninos e implacáveis himenópteros. O suplício dura vinte e quatro horas, findas as quais, e depois de muitíssimo sofrer, o menino vira homem. Era esse o desafio: enfiar as mãos num formigueiro de veinticuatro e viver para contar nas escadinhas. O morto estava mesmo convencido que, se sofresse vinte e quatro horas, todo o desejo de queixa o abandonaria, e todas as dores, no corpo ou na alma, se tornariam irrelevantes, pequenas e maricas por comparação. O morto estava decidido a deixar de ser  menino.
— E esse sofrimento que traz consigo, esse andar estranho, é já resultado das formigas? — perguntou o vagabundo, sem tirar os olhos do vinho dourado pela luz ténue do candeeiro das escadinhas, que fazia rodopiar com delicadeza no copo. — Não me diga que as enfiou no…
— Não. Isto foi o bebé.

Há duas semanas que o morto encomendara e aguardava a chegada das hormigas veinticuatro, mas a coisa não estava fácil. Trazer espécies de outro continente revelou-se uma tarefa difícil e mais ardilosa do que traficar droga.
— Afinal, não se podem enfiar as formigas pelo cu ou engoli-las, como se faz com a comum bolota de cocaína — disse.
Entretanto, enquanto o formigueiro chegava e não chegava, e não obstante as repetidas promessas do clandestino transitário, e porque não queria faltar às sessões nas escadinhas, o morto procurou alternativa, algo com que se entreter e passar o tempo. Foi assim que chegou ao bebé.
Na sua incessante procura por um padecimento épico, tinham-lhe caído no goto três tipos de dor: a pedra no rim, a inflamação no trigémeo e a dor de parto. Quaisquer delas classificadas como magníficas, heróicas mesmo, embora quase todas inacessíveis. Dificilmente conseguiria, de uma sessão para a outra, criar uma pedra no rim. Ainda considerou passar duas semanas a lamber uma pedra da calçada, ou andar com um pedacinho dela na boca, como se chupasse um rebuçado de calcário; talvez fosse suficiente para promover a formação de cristais de cálcio nos rins, mas não havia tempo. Por outro lado, provocar uma inflamação do trigémeo não era coisa que estivesse ao alcance de um amador. Ora como o formigueiro tardava, o morto matutou e decidiu-se pela dor de parto. Mesmo não estando ao alcance da sua anatomia, algo podia ser feito para a simular: talvez enfiar um bebé pelo cu e depois expeli-lo, pensou. Foi o que fez.
Começou por pesquisar bebés na internet. Havia-os com fartura, em tamanhos muito diferentes e também nos mais variados materiais. Não podia ser um bebé muito mole e de consistência flácida, sem o tónus apropriado à penetração. Nem podia ser um bebé excessivamente duro. Haveria um meio caminho, uma consistência e dureza ideais. Por fim optou, talvez influenciado pelos textos promocionais que leu na internet e que anunciavam “um bebé muito realista, uma pequena obra de arte que simula perfeitamente a realidade”, por um Bebé Reborn. O texto prometia, ainda, um certificado de autenticidade e dava conta de um centro de adopção, “um pequeno sítio mágico cujo objectivo é facilitar a adopção de Bebés Reborn para quem pretende viver uma bela experiência”. Ora uma bela experiência, senão bela pelo menos inesquecível, era o que o morto procurava.
Feita a encomenda, e chegado o bebé, o morto pôs de imediato mãos à obra. Primeiro tomou dois comprimidos de Flexiban, um simpático relaxante muscular destinado a facilitar a penetração tornando o esfíncter mais colaborante; depois, com desmedida excitação, untou o bebé de óleo Johnson e sentou-se em cima dele.
Devagar, deixou-se penetrar pelo brinquedo tendo como ajuda apenas a força da gravidade. Começou pela cabeça. A princípio a dor foi lancinante, ridícula mesmo, mas nada comparada com a dor que sentiu quando os bracinhos lhe entraram pelo recto. Aí percebeu que estava perdido e tentou expulsar o bebé, mas este, com as suas perfeitas mãozinhas de boneco, agarrou-se às paredes do intestino, agora grossíssimo, e recusou-se a sair. A dor muito para lá do lancinante, em saraivadas absurdamente indescritíveis, mesmo para quem era dono de um superlativo talento para a metáfora, transformou-se num frémito agonizante. Por fim, o instinto de sobrevivência sobreveio, e o morto, desistindo do parto contranatura, ligou ao INEM em busca de salvação.
Na ambulância e pelos corredores do hospital em direcção ao bloco operatório, onde o boneco seria cirurgicamente parido, e passando à frente dos atónitos e reclamantes doentes do SNS, apressado por maqueiros que anunciavam com urgência e em alta voz “Bebé enfiado no cu”, o morto gritou como uma sirene antes de perder os sentidos. Só os recuperaria dois dias mais tarde, depois de os médicos repararem, o melhor que puderam, o segmento grosso do tracto intestinal e de o medicarem, fortemente, com um cocktail de opióides e antibióticos; estes últimos destinados a combater a infecção provocada pela Escherichia Coli que, livre das fronteiras intestinais que marcam o seu habitat natural, tinha alegremente migrado pelo recto dilacerado e contaminado o sangue com perigo de uma infecção generalizada.
Tinha acontecido há duas semanas. Duas semanas passadas no hospital em dor e a soro.
— Os meus parabéns — disse o vagabundo, muitíssimo orgulhoso com os progressos.
O morto gemeu um agradecimento.
— Mas diga-me, essa dor é maior, menor ou igual àquelas angustiantes dores de alma? Ainda as sente?
— Foda-se, não.
— E dói como?
— De uma forma insuportável.
— E as outras dores antigas?
— Não. Quem me dera essas. Essas são um prazer. Um prazer mórbido, mas um prazer. Isto é a pior coisa do mundo. Você não faz ideia do que é ter o cú todo rebentado. Literalmente rebentado. Isto dói mesmo, a sério.
— Está a dizer-me que as outras dores não doem?
— Não, foda-se!
O vagabundo deixou soar o foda-se e reclinou-se para apreciar o seu branco topo de gama, satisfeito por terem os dois conseguido extraordinários avanços neste colóquio de queixas.
— E as formigas chegam quando? — perguntou.
— Para a semana — disse o morto, entre murmúrios dolorosos.
— E o que vai fazer com as formigas? Ainda se sente com determinação para dar esse passo?
— Não sei. Talvez. Mas só penso nisso quando estiver bom do cu.
— Então vai pôr-se bom do cu e, se resolver experimentar o formigueiro, volta cá para se queixar.
O morto acenou em concordância.
O resto da sessão foi passado sem palavras. O morto gemeu e o vagabundo bebeu. A acidez suave do vinho pedia, e aguentaria, alguma gordura no palato. O vinho era extraordinário. A mistura de castas tinha corrido muitíssimo bem, e o toque da madeira atirava-o para os píncaros do sublime. Raramente o vagabundo havia bebido tão bem. Para ser perfeita, a experiência, faltava apenas uma tábua de queijos.
— A nossa hora terminou. São cento e cinquenta euros.
— Cento e cinquenta?
— Cinquenta desta sessão e cem das duas a que faltou sem avisar.

(continua)

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A rapariga loura, de olhos tão mansos e líricos

Agora vive lá José Eduardo dos Santos. Ou ali tão perto. Era uma das casas do quilómetro 14, em que me aboletava para festas e praia. Já longe de Luanda, Morro da Luz na colina à esquerda de quem ia em direcção ao sul, sol e sal. Em frente à casa, o areal e o mar imóvel, não mais do que um rumor de seda nas noites desse Verão, que fervia, tropical, de Dezembro a Abril. Não sei se foi nesse ano que vi no cinema o Summer of 42, filme da mulher casada que ensina a um adolescente o amor adulto, terno e nu. Foi talvez em 1970 e julgo que não haveria então, no mundo, ninguém que tivesse mais de 17 anos.

Eu não era só muito novo. Estava interiormente cheio dessa estrondosa timidez de rapaz que se sublimava em jogos de futebol, sonhos de revolução e a alarvidade juvenil de vinte imperiais numa só noite. Dancei com ela, com os 16 ou 17 anos dela, sem saber quem era. O cabelo louro podia ser de uma francesinha de Estrasburgo, os olhos tão mansos e líricos como os da miúda de calções de outro inesquecível Verão, o de Bonjour Tristesse. Não sei, aliás, se foi nesse ano que vi no cinema o Summer of 42.

Estava habituado a dançar colado, sofregamente colado, primeiro o roço de uma contra outra perna, depois o braço a distrair-se num seio e, numa lógica afirmação das leis da natureza, logo a dar-se, irremediável, o perfeito e irrespirável encaixe de tudo o que era convexo e côncavo.

Mas ali, onde agora vive, ou tão perto, José Eduardo dos Santos, nessa noite que eu começava então a saber que era colonial, dancei-a ou dançou-me ela de outra maneira. Havia nela uma insustentável leveza loura, um delicado aroma mais metafísico do que Ambush ou Channel. Tocava-me só de vez em quando, como se fosse um afago de tule, embora chegasse a parecer fogo. E, coisa que eu sempre me proibira, ela falava. Eu era então muito novo e a palavra, esse mágico dom da velhice, era-me alheia.

A translúcida rapariga loura trouxe-me à varanda de madeira tosca, lá dentro a vaga luz do gerador, cá fora a estendida, imensa escuridão da noite, vigiada por uma tropa de estrelas – nunca vi tantas estrelas como as estrelas que vi no Morro da Luz.

Eu queria dizer-lhe “os teus olhos” ou “a tua boca” e morria-me a coragem num silêncio torpe. As palavras dela vinham devagar, sem peso, pousar em mim. Pousavam-me nos cabelos, na testa, nos ouvidos, indecifrável arrepio na pele nua dos meus braços.

“Não seriam mosquitos?”, perguntou-me depois o meu amigo Manuel Ramos, que tinha casa mais adiante, no Km 36. “Não eram, Manel.” Imobilizava-me a louca paixão de me ver assim, patético, cercado pelas palavras que a levíssima rapariga loura acendia como se fossem cigarros para queimar a noite do km 14, ali tão perto da que viria a ser a casa de José Eduardo dos Santos. E, no meu silêncio, a insustentável rapariga loura desfez-se, leve e aromática, dentro da noite que eu já sabia ser colonial.

Talvez tenha sido em 1970, e talvez eu ainda não tivesse visto no cinema o Summer of 42.

Crónica publicada na Epicur de Verão. A edição de Outono já está nas bancas e tem esta capa de sombras

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WISHLIST

CORAGEM PORTUGUESES, SÓ VOS FALTA SER GRANDES, João Pedro Vale,  2010

Lâmpadas, ferro e instalação eléctrica / 120 x 560 x 20 cm

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Ligações

Está tudo ligado.

O sol que se põe, o sorriso que se troca.
A raiva que se sente, a miséria que se olha.
A rudeza da paisagem, a beleza da manhã, o desespero do desânimo, da desesperança.

Está tudo ligado.

A genialidade de um urinol que passou a ser história, o céu dourado de Tintoretto que Rothko tanto gostava .
A guerra paga por quem produz civilização, a arte de uns para a barbárie de outros.

Está tudo ligado

O poder de uns na humilhação dos outros, a coragem de poucos que alimenta milhões.

Está tudo ligado.

O meu carro com o teu sol abatido, a minha água gelada  com a tua doença.
O animal que se abate para ser deitado fora,
O calor que uns sentem no frio dos outros que choram. O sol que queima, o gelo que mata.
A cumplicidade no mal, a hipocrisia do  bem.

Está tudo ligado

A minha segurança de ouro com tua instabilidade, tudo aquilo que tenho e tudo o que não quero dar.

A solidão com o teu egoísmo, a demagogia com a minha liberdade, a compaixão de uns com o narcisismo de todos.

Está tudo ligado.

E nem a morte desliga tudo.

 

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Um Marlboro, se faz favor.

Não há? Então, pode ser um Camel…

 

Um Marlboro, se faz favor

Não fumo. Mas, na verdade, tenho pena de não fumar. Não tenho uma única tatuagem nem um único piercing, e ainda que pense que não tenho pena de não os ter, na verdade, tenho, ou devo ter…

Tal como 20% da população mundial, tenho alergias. Não tenho asma. Com certas alergias, desencadeio uma asma diabólica que quase sempre passa a toque de Symbicort 320. Hoje, e depois de um desses números asmatiformes de grande aparato, meti-me no carro, capota para baixo, e conduzi até à praia. Fiquei dentro do carro a olhar para o céu do fim de tarde de Outubro como se fora Agosto, a noite a chegar devagarinho e exuberante. Foi então que os vi.

Eram dois grupos. Ou duas famílias. Ou uma. Enfim. Eram duas caravanas. Dentro e fora andavam uns miúdos novos, tatuados com sóis de Maui e mais bonecagem nativa. As respectivas namoradas, ou mulheres, e duas crianças – duas meninas – sem saias de ráfia. Mais as pranchas. Elas, as duas mulheres, sentadas no chão a fumar aquela treta a vapor que não sei como se chama e veio substituir o tabaco.

E pus-me a pensar. Para que raio andei eu a dar cabo da cabeça para arranjar casa em Lisboa? E para quê isto de ter quinhentos copos e mil pratos e quilos infindos de livros? Vou dar algum baile, vou abrir uma biblioteca? Se em vez do carro e da casa, tivesse comprado uma caravana e um portátil, não me andava a consumir com transportadoras de pouco profissionalismo e grande nome no lombo dos contentores… Quem é que, no tempo do Ikea, no mundo descartável em que vivemos e perfeitamente adequado à nossa própria descartabilidade, ainda perde tempo com linhos e iluminação e em transformar uma porcaria de um armário de copa num aparador, só porque sim, porque estava lá na cozinha de uma infância que correu no sentido oposto ao da vida adulta?

Se pudesse, mandava tudo à merda e ia passear com O Cão.

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A bofetada anti-nazi de Errol Flynn

Já está nas bancas o número de Outono da revista Epicur. Sombras é o tema, mas as sombras tanto podem ser a de Rita Redshoes e uns sapatinhos Laboutin, como a sombra de Pedro Norton e o vinho que ele foi convidado para beber. Do Escrever é Triste hão-de lá encontrar textos de Pedro Marta Santos, a crónica da Eugénia de Vasconcellos e a minha. E ainda escrevi outra prosa, um nadinha mais longa, sobre a senhora Dona Agustina. Corram a comprar antes que esgote, está claro.

Com a devida vénia trago para a caverna do Escrever é Triste uma aventura real de Errol Flynn. Mete estaladas, sangue, garfos, nazis, divórcios e amantes bailarinas de Lisboa e o funeral de estado de um cão no alto mar.

A bofetada anti-nazi de Errol Flynn
Manuel S. Fonseca

O actor Errol Flynn está a sair do Mocambo e escorre-lhe sangue de uma orelha. Ora, o Mocambo é tudo menos uma praça de touros. E interessa pouco como é que Errol Flynn de lá saiu. Interessa é como é que lá entrou.

Nesse dia, 20 de Setembro de 1941, a sua mulher, a pasmosamente bela Lili Damita, anunciou-lhe que ia avançar com o divórcio. A furiosa simbiose sexual que os juntara, criara-lhes uma paradoxal incompatibilidade fora da cama. Lili, diga-se, teve lições de ballet em Lisboa, onde cresceu, passando das aulas num hipotético convento às aulas na Escola da Arte de Representar, como então se chamava ao Conservatório, assunto que não é desta história e que ela ocultou, rasurando essa vergonha portuguesa da sua biografia. Bailarina e actriz, tendo abdicado da carreira pelo casamento, Lili Damita acusava Flynn, seu marido, de crueldade mental, de abandono por longas temporadas, tudo isso em dobrado depois de lhes ter nascido um filho.

Não é certo que o pedido de divórcio tenha causado a Errol Flynn um grande abalo ao pífaro. Mas trazia ainda nos olhos as aceradas sombras da perda de Arno, o seu cão de raça schnauzer, cão que fidelissimamente o acompanhava para todo o lado. Levava-o para as filmagens e até para o iate em que se metia mar alto, para fugir de Lili Damita. Era um cão sem medo do mar, que caninamente se divertia a apanhar peixes voadores ao largo de Los Angeles. Deve ter caído às salsas ondas a tentar apanhar um e Flynn só deu conta quando chegou à marina. Flynn chorou baba e ranho, abanou montanhas e abanou Maomé, mas só três dias depois o cadáver de Arno deu à costa. O destroçado Errol Flynn nem teve coragem para o ir ver. Pediu à Guarda Costeira que lhe fizesse um funeral, com honras de marinheiro, em pleno oceano. Hollywood, à época, podia pedir o que quisesse e essa foi a mais nobre homenagem que Flynn quis dar ao seu fiel Arno.

O cão Arno e o seu fiel dono

Sábados à noite pedem festa

Podem ver no calendário: esse 20 de Setembro de 1941 foi um sábado. Flynn estava doido por desanuviar – trazia no sangue um calor de banho-maria. Saiu com um actor amigo, Bruce Cabot, que só não é uma lenda porque no “King Kong”, seu filme mais célebre, o gorila lhe roubou o protagonismo. Entremos com os dois no Mocambo, o lugar mais selecto da noite de Hollywood. Os dois amigos vão comer, beber e dançar. Ainda mal se sentara e já os olhos de Errol Flynn chocavam com Jimmie Fidler, a jantar com Roberta Fidler, a sua mulher. Devia estar uma borboleta a bater as asas em Lisboa, para que tenha acontecido a tempestade que logo se deu no Mocambo.

Flynn avançou para Fidler, encostou-lhe o punho à cara e disse: “És má rês e mentiste no Senado. Mas nem um murro mereces.” E espetou-lhe uma ofensiva e sonora estalada. O humilhado Jimmie Fidler abanou e não mais se mexeu, hirto e esbofeteado. Levantou-se a mulher de Fidler, correram os criados, alvoroçou-se meio mundo. Na mesa ao lado, Jean Gabin estava com Marlene Dietrich e só queria que nada acontecesse às maravilhosas pernas dela. Lupe Velez, mexicana de sangue ardente, saltou para cima de uma mesa com uma garrafa de molho de tomate na mão. O maestro que dirigia a banda tocou o hino da América e foi a única forma de descer, por um breve momento, a paz à terra.

Aproveitemos, enquanto soa o hino no Mocambo, para sairmos de cena um minuto e pormos a cronologia e os factos em ordem. Mas preparem-se: quando voltarmos, há-de ser de rabo colado à parede, que o Mocambo vai estar de mosquitos por cordas.

Quem era Jimmie Fidler? O famoso Fidler sabia tudo de Hollywood. Fora pouco mais do que um figurante no cinema mudo, agente de imprensa de uma dezena de actores, até que a rádio e a Imprensa o contrataram para escrever uma coluna de mexericos. Má-língua pura, mas muito bem informada. Era lido, lambido e ouvido, com dependência e devoção, por mais de quarenta milhões de americanos, nas 486 estações de rádios e 360 jornais que difundiam a sua coluna. Escrevia cartas abertas a actores que se portavam mal. Um terror. Maior do que o terror que as crónicas de Vasco Pulido Valente inspiravam aos políticos portugueses quando os políticos portugueses ainda sabiam ler.

Convocado pelo Senado, Fidler prestara declarações num comité manhoso, que pretendia preservar a imparcialidade dos filmes americanos durante essa II Grande Guerra que tinha lugar lá longe, na Europa, entre ingleses e alemães. Para gáudio dos isolacionistas, que defendiam o não-envolvimento da América na guerra, Fidler encheu a boca de acusações aos estúdios: os filmes de Hollywood estavam, protestou ele, cheios de ódio aos nazis e fomentavam o sentimento favorável à guerra. Fidler acusava Hollywood de ser favorável aos aliados e de incitar à guerra. Era como pedir a censura.

Produtores, realizadores e actores gritaram o que tinham de gritar: traição! Errol Flynn lavou a honra anti-nazi de Hollywood com uma bofetada, parecendo querer desmentir avant la lettre a suspeição de ser espião nazi, opróbrio de que, em anos vindouros, seria acusado. Ou talvez as razões de Flynn fossem mais pessoais e raivosas do que políticas. Custara a Flynn os olhos da cara que a renegada lisboeta Lili Damita lhe arrancara, ser exposto por ter ido levar ao aeroporto de Los Angeles a bailarina europeia Tamara Toumanova que George Balanchine (oh, categoria!) coreografara nos Ballets Russes de Monte-Carlo. Óculos escuros, a gola do casaco levantada, só ajudaram a denunciar ainda mais a natureza clandestina do generoso, e certamente desinteressado, acompanhamento de Flynn… Jimmie Fidler nos seus programas de rádio contara essa história, denunciando Flynn. Era tudo verdade e foi mais um prego no caixão-cama que já era a relação de Flynn com Lili Damita, mãe do seu filho.

Escrevi isto tudo e ainda nem sequer falei do pior. O pior foi o colunista de língua suja ter dito e escrito que Flynn andara a exibir-se publicamente, batendo com a cabeça nas paredes por lhe ter desaparecido o cão amado, mas nem sequer tinha ido recolher o cadáver quando a Guarda Costeira o encontrou. Ora, como eu e os meus leitores somos testemunhas, isso não era mesmo verdade. Errol Flynn não tinha tido coragem de voltar a ver o cão despedaçado pelo mar, mas cuidara de lhe dar o funeral de Estado de que já falámos. Mais do que as clandestinas, mas verdadeiras, traições amorosas, o que doeu a Flynn foi esta acusação animal que Fidler espalhou pela selva de Hollywood. Era boato, dir-se-ia- em Lisboa, era um mujimbo, dir-se-ia em Luanda.

O odioso Jimmie Fiedler

O meu reino por uns botões de punho

E voltamos ao interior do Mocambo. Afinal, Errol Flynn parece estar sentado, calminho, à mesa com Cabot. Há dez minutos que olha fixamente para a mesa do inimigo. Não se mexe, mas é um sossego nervosíssimo: na agitação da portentosa bofetada, que dera a Fidler, e dos empurrões que se seguiram, saltaram e desapareceram-lhe os botões de punho. De diamante. É o que Flynn está agora a dizer ao amigo, Bruce Cabot. Levanta-se de novo e convida uma desconhecida para dançar. Talvez a banda estivesse a tocar Cole Porter, o “I Get a Kick out of You” ou o “Anything Goes”, e talvez tenha pensado que, se não fosse a boca sem freio de Jimmie Fidler, poderia estar ali a dançar com a bela e secreta Tamara Toumanova.

Não vamos deitar-nos a adivinhar, o que interessa é Flynn dança com uma desconhecida e um passo elegantíssimo põe-no por acaso frente à mesa do odioso Fidler, que já vai na sobremesa. “Ainda aqui estás – ruge o pirata que sempre houve em Errol Flynn –, temos de te pôr fora de Hollywood. Roubaste-me os botões de punho.” Errol Flynn já não dança e está parado em frente de Fidler: agracia-o com uma segunda e gloriosa estalada. Mas Roberta Law, a mulher do linguarudo, desta vez estava preparada. Rápida, tenta enfiar nos olhos castanhos de Flynn o garfo que tinha na mão. Ágil como Robin dos Bosques, Errol Flynn desvia-se e o garfo rasga-lhe só a orelha. De atalaia, o chefe de mesa e os elegantes empregados isolam-nos e arrancam Flynn do cenário de guerra, levando-o em braços.

Flynn sai do Mocambo com o amigo Cabot, uma pequena multidão de apoiantes, jornalistas e fotógrafos atrás deles, directos ao Shaherzad Restaurant, onde decide ir jantar. Mesmo sem botões de punho, fato cinzento impecável, papillon às bolinhas sem um milímetro de desvio, cravo vermelho na lapela já sonhando ou adivinhando o nosso 25 de Abril, só o sangue que deixa correr e lhe salpica o colarinho branco denuncia em Errol Flynn a sarrafusca de que saiu. À mesa, conta tudo aos jornalistas e, sorridente, posa para a fotografia, simulando até as gloriosas bofetadas anti-nazis que espetou nas bem tratadas bochechas de Jimmie Fidler, inimigo público número um.

a mão que bate e a mão que absolve

O garfo certo

O sovado Fidler avançou para o segundo maior desporto americano depois do football: processou Flynn. Cometeu, porém, um erro. Não foi a tribunal acusá-lo. Deixar um juiz sozinho com Errol Flynn era de doido. Em poucos minutos já Flynn tinha seduzido o virginal juiz. Sua Eminência fez-lhe prometer que não voltaria a bater em Fidler ou fosse em quem fosse. E quis, a seguir, ser fotografado, sorriso de aberta e viril felicidade, a apertar a Errol Flynn a mão que esbofeteara o queixoso Fidler.

Por esses dias, a popularidade de Flynn atingiu picos de Himalaia que, em toda a História da humanidade, só o presidente Marcelo voltaria a alcançar. Hollywood passava a língua pelos lábios a olhar para as mãos de Errol Flynn. Convidou-o para ser o pugilista protagonista de “Gentleman Jim”, um filme sobre a carreira de um campeão de boxe. Foi um estrondoso êxito de bilheteira, o último de Flynn.

Jimmie Fidler, por seu lado, continuaria a ganhar, para o resto da sua vida, rios de vergonhoso dinheiro, que Flynn desprezava, acusando-o de ser pusilânime. Gabava, não obstante, a coragem da mulher, Roberta. Ela sim, atirara-se a ele, de garfo em riste. Flynn só lhe fazia um reparo: “Deus a abençoe que é uma mulher valente. Custou-me foi a falta de etiqueta. Espetou-me o garfo da sobremesa quando devia ter usado o da carne.”

Publicado na revista Epicur de Verão. Esta é a capa do número de Outono

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Não me posso queixar (4)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)
(Capítulo 3)

 

4

O morto não apareceu. Era a primeira vez desde que tinham começado o processo. O vagabundo esperou sentado toda a hora que tinha destinada a ouvir as queixas do morto, reflectindo e bebendo um arinto fresco, frutado e com muito boa acidez: um branco nascido às costas de Lisboa, ali em Bucelas.
Talvez o morto não tivesse do que se queixar. Talvez tivesse passado uma semana sem padecimentos significativos, o que seria uma raridade, pensou. Ou teria, por ventura, ficado incomodado com o trabalho de casa: procurar e infligir a si mesmo uma dor épica e agonizante? Ter-se-ia acobardado? Não cria. Não era do feitio do morto, a cobardia. Podia ser melancólico, um pouco emasculado, até, por força dos tempos modernos e da educação excessivamente convencional, mas cobarde não era. O mais provável, depois das palavras do vagabundo na última sessão, era estar à procura de uma dor surpreendente e, não a tendo experimentado ainda, não se dignasse a mostrar a cara sem nada que contar, para não desiludir. O vagabundo estava confiante que assim era, e que a sua renda e o bom vinho não parariam de evoluir favoravelmente. A mortificação e a dor autoinfligida eram o passo lógico neste proveitoso processo terapêutico. Não havia outra solução. A relação estava a resvalar para o tédio. As queixas estavam a tornar-se banais, adamadas, quase psicológicas, de telenovela; e o morto estava a regredir a um estado de pusilanimidade sem qualquer interesse narrativo. Afinal o vagabundo estava ali para escutar dramas. Fora preciso por um travão na relação. Foi o que fez, ainda que pudesse ter ido longe demais. É claro que se arriscava a perder um cliente, mas, com o pecúlio que já ganhara, e se o gerisse bem, conseguiria beber soberbamente durante mais duas semanas.
A hora escorria. O vagabundo meditava. E bebia o arinto fresco, frutado e de boa acidez, como é normal nesta casta. É difícil estragar um arinto, pensou. Quando a hora e o vinho terminaram, despejou a água gelada do balde verde de plástico e foi escadinha acima até outra paragem.

(continua)

 

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O bibe

eles

O fulgor do ouro cegou o século XXI. Olhem para as artes plásticas e vejam a ferocidade com que o dinheiro se arrogou o direito de ser o critério de beleza deste tempo. “Nada abaixo das cinquenta mil libras é arte”, avisou, irónico e humilhado, o crítico de arte Anthony Howell.

Abaixo de cem milhões de dólares, um filme de Hollywood é um órfão sem chupeta. Agora, metam a unha, escavem a superfície e espreitem Hollywood quando não está a beber champanhe pelo gargalo.

Voltamos sempre ao bibe humilde. Quando chegaram, os formidáveis novos deuses vieram pela mão de suas mães. Vejam Emma Stone, Oscar de melhor actriz em “La La Land”, muito por causa de uma hérnia do hiato. De nascença. Chorou, estridente, seis ou oito desalmados meses: arranjou assim a bela rouquidão que nos arranha num incerto ponto, algures entre o estômago e a alma. Ainda hoje, a mãe de Stone entra em convulsão se ouve um berro de dor infantil.

Ora, não é o choro, mas o embaraço de Stone que interessa. O mesmo embaraço que já tivemos, um dia, com a nossa mãe. Hollywood esvai-se em milhões de dólares, mas o mais bonito é a mãezinha primordial.

Nos primeiros Globos de Ouro, Stone levou a mãe. Sentaram a senhora ao pé de Angelina Jolie e Brad Pitt. E ela perguntou – tão novos! – quem eram. Eles declinaram, gentis, os nomes rutilantes. A mãe continuou: “Mas estão nesta actividade? São produtores?” E perguntou se eram casados, se queriam ter filhos.

Há um inapagável traço de ironia na beleza atrevida de Emma Stone. Vem-lhe da mãe, sei agora. Ela confessou, depois, à filha, que sabia muito bem quem eram. Mas deu-lhe para uma pequena liberdade de mãe, amável compensação por oito meses de choro satânico da filha.

Ryan Gosling, que cantou e dançou “La La Land” com Emma Stone, foi também com a mãe nos seus primeiros Oscars. Ela armou um eriçadíssimo penteado-colmeia, moda 40 anos antes. Quem a cumprimentava tinha de se inclinar para não ser ferido. “Diga-lhe que o penteado é bonito”, atreveu-se Gosling a implorar a Meryl Streep. “Estive para vir com esse penteado – disse a generosa Streep à mãe de Gosling –, que pena não o ter feito.”

Derramam-se rios de dólares, caudais de ouro e só queremos, pequeninos, que a mãe, mãezinha, não nos faça passar uma vergonha à porta da escola.

o penteado da mãe

Publicado no Expresso, sábado, dia 23 de Setembro
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A culpa é do Cupido!

a culpa é do Cupido!

Não percebo o que raio fazem as pessoas quando não estão a trabalhar. Não consigo atinar com essa história da identidade não estar no trabalho. Onde está, então?
Para mim tudo é trabalho mesmo que não esteja a escrever, sei que vou escrever; se estiver mar dentro com o sol a dar-me nos olhos nem o prazer da água me desvia a seta permanentemente apontada à folha: aliás, tenho a certeza, esta frechada é a de Cupido porque se penso em não escrever, e se por vezes penso, lá se vai tudo ao ar para vir tudo abaixo – tenho sorte, dura pouco esta insanidade temporária que qualquer tribunal aceitaria.
Da última vez que me deu, jurei à Nossa Senhora que tenho no quarto que ela não poria os pés na minha nova casa, nem ela nem São João, padroeiro dos escritores, nem Santo António, nem o registo, e vou pôr o terço no oratório como se me tivesse esquecido dele, fica tudo aqui, não quero nem a medalha que a minha avó me deu, nada, acaba-se agora tudo. Tudo! E eu que não digo um palavrão, ainda que escreva todos, mandei Deus e os Anjos e os Santos a lugares inconfessáveis. Pior, a Nossa Senhora também. Passei-me:
– Nem mais uma linha. Nada. Não existes! Melhor, nunca exististe, ouviste?!
Comigo é assim, aniquilação total e retroactiva… E isto com uma imagem de Nossa Senhora que, quando saí da minha casa, nem veio com as mudanças, trouxe-a eu, com todo o cuidado. Assim, com esta fúria toda nunca me tinha dado. Sinto mesmo alguma satisfação por, ao longo dos anos e graças a uma trela curta, ter domesticado a fera de temperamento que me habita. Mas ela de vez em quando foge… É a minha cruz, este feitio de gato que quando se assusta, eriça o pêlo para parecer maior do que é e ir direito aos tigres. O meu Cão fazia isto aos cavalos, até se apoiava só nas patas traseiras… – tantas saudades meu Lindo Cão.
Odeio não escrever. Ou não pensar em escrever o tempo todo. Fico no limbo. Percebes? Não sei o que fazer comigo. Tropeço em mim. Muito menos sei o que fazer com a transparência em que me ponho se não escrevo, se o preto não se inscreve no branco da folha. Ser invisível é não existir e assistir à não existência. É horrível. A culpa é do Cupido, Nossa Senhora, deixa-me cega, louca, faz de mim táubua de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar. Cupido, teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno estriquinina, que peixeira de baiano, teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver, e faz-me ser mais má que TU!

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je suis un autre 3

I’m lost

 Originalmente não era minha intenção falar deste assunto. Encontro-me numa encruzilhada.

Minha intenção é clara? Não.

Tenho a certeza.

Neste mundo tudo (o que é bom ou mau)

é  fruto de paixão.

 Por outro lado estou satisfeito. Nada tem importância.

Estás enganado. O barco vai na velocidade máxima. Estamos progredindo, mas nada muda.

Não é navegação. É sonho.

Olho para mim. Uma paisagem inteiramente nova. Esqueço-me de esquecer.

 

Richard Gerstl (1883-1908) pintor vienense influenciado por Klimt. Íntimo do casal Schonberg inicia uma linha mais pessoal e próxima do expressionismo. Amante de Matilde Schonberg é descoberto e abandonado. Suicida-se pouco depois deste desfecho. Tinha 25 anos.

 

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A vida das pequeníssimas coisas

A VIDA DAS PEQUENÍSSIMAS COISAS

Um Golias chamou-me micróbio.
Não foi o primeiro. Não será o último.
É natural: a água não tem cabelos,
não se pode segurar, as palavras
são um rio, um rio só pára quando é mar.
E ainda há a questão da minha impureza
lexical, da insubmissão formal e
uma grande desnecessidade de aval.
No fundo sabem, eu tenho recursos
estranhos nos bolsos como David e
os heróis da bd – vêm assim como
as fortunas de um bolinho chinês que
se esfarela. Não desfazendo das frases que
orientais vão ao forno,
os meus invisíveis recursos secretos
têm raízes no céu, como eu que sou
uma inexorável máquina de escrever,
mil vezes mais pequena que
qualquer micróbio,
ínfimas partículas de letras no comboio do tempo,
lugar de origem e de destino
escritos no bilhete. É Deus quem dá.
Nós? O que somos nós, se não formos isto que
liga o Céu e a Terra,
o Totem que vivo respira e
o seu avesso que o Tabu sufoca?

 

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De Larkin ao Físico Prodigioso

o primeiro Larkin: por subscrição

Podia tê-lo feito por via institucional, através dos meios neutros, digamos assim, da Guerra e Paz editores, mas não quis. Decidi meter-me pessoalmente, aqui no blog, no facebook e afins, no pedido de subscrição em curso para que nasça uma edição, que espero muito bonita, do Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, com ilustrações (magníficas) de Mariana Viana, que já fizera outras magníficas ilustrações para Os Passos em Volta, de Herberto Helder.

E fi-lo, metendo literalmente as mãos na massa, também por me apetecer repetir – como um danado macaquinho de imitação – uma tradição literária que tanto me comove, como me faz sorrir. Explico-me. Um editor inglês, Reginald A. Caton, cuja história controversa e editorialmente gay só por si merecia um post, criou a editora Fortune. Mas a fortuna da Fortune não era, se quisermos acelerar, grande coisa. Em vez de investir, Reginald fazia os seus autores desunharem-se para angariar leitores. E foi assim que, em 1934, pela primeira se publicaram em livro 18 poemas de Dylan Thomas. Os leitores pagaram o livro e o editor publicou-o a seguir, levando a crítica a dizer que aquele livro era “o tipo de bomba que explode quando muito de três em três anos“.  Como foi assim, em 1945 que, pela primeira vez, a poesia de Philip Larkin, no seu The North Ship, apareceu em livro. Dois dos maiores poetas do século XX viram as suas obras nascer da subscrição dos leitores. Hoje, no meio da devastadora crise do papel, os leitores têm de voltar, como o fizeram os leitores de Thomas e de Larkin, a criar os seus autores.

Nesta subscrição que estou agora a fazer está – já decidi – o embrião de uma comunidade, Os Amigos da Guerra e Paz. Quero criar uma comunidade de leitores que possa decidir que livros quer ver feitos – sobretudo alguns livros maravilhosos que, todos os custos somados, não terão viabilidade se apenas os atirarmos para o circuito livreiro. Em breve, no novo site da Guerra e Paz editores, que aparecerá em Outubro, e no blog que lá vão encontrar (Letras, Labirinto e Livros), darei notícias.

Entretanto continuo, como o Reginald e como a Fortune Press a tentar palmar-vos uma parte pequenina da carteira. Não se vão arrepender: o Físico Prodigioso de Jorge de Sena,  «sustentado pela força do amor que tudo manda, e pelo ímpeto da liberdade que tudo arrasa», dará aos vossos olhos e às vossas mãos um renovado prazer de ler, um renovado prazer de tocar.

o prodigioso Sena: por subscrição

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Russell Crowe e eu

Tu sabes, Russell, que um pai é um tipo atra­pa­lha­dís­simo

Façam como John F. Kennedy, não me perguntem o que tenho de parecido com Russell Crowe, perguntem antes o que tem Russell Crowe de parecido comigo. Em “Fathers and Daughters”, melodrama piegas em que só eu, um crítico de Newark e aquele povo mais dado ao mês de Agosto chorámos, Crowe tem uma filha. Na vida real, é pai de dois rapazes, mas só o cinema lhe deu o que a mim a vida já não me tira, ser pai de uma filha.

Tu sabes, Russell, que um pai é o tipo atra­pa­lha­dís­simo – a mãe a gri­tar da cozi­nha “muda-lhe a fralda, estou a fazer a papa” – que pela pri­meira vez, come­çando com toa­lhe­tes per­fu­ma­dos, dois dedos já sujos (oh meu Deus, como aquilo se mete debaixo das unhas), o len­çol bran­qui­nho da cama em último recurso, lim­pou o rabinho ao filho ou filha, sol­tando grrs! e outros horrores guturais, doido por ir afo­gar o susto e o cheiro nuns finos da tasca de cara­cóis da esquina.

 Mas há coisas, Russell, que só mesmo uma filha. Uma filha sabe que tem um pai quando ele, em delírio, lhe fala de coi­sas hor­rí­veis, que ela não quer ver nem em sonhos: vinte e dois tipos a cor­rer atrás de uma bola, foras-de-jogo, cla­mo­ro­sos erros de arbi­tra­gem. E esse pai sabe que é pai por­que a ouve exclamar “PAI!”, num tom maiúsculo, entre o desa­bafo e o começo de femi­nina fúria, que é quase um juan­car­lista por­ qué no te cal­las. O tipo que a seguir se cala, garanto-te, Russell, é um pai.

E olha, Russell, o pai de uma filha é o tipo que já não sabe se há-de rir ou cho­rar, quando lhe ofe­rece uma Bar­bie e a filha, que sabe muito bem, com um raio de um imenso cari­nho escon­dido, que ele é pai, lhe diz: “Que bom, é a quinta Bar­bie afri­cana que me dás.”

Não te sintas rejeitado, Russell, mas pai é o ter­ceiro excluído, o que ouve a mulher dizer, “agora, vai lá para den­tro que a tua filha e eu pre­ci­sa­mos de con­ver­sar as duas.”

Pai de uma filha é um tipo sem jeito, fac­tor essen­cial para a filha o reco­nhe­cer como pai. E ape­sar da canhes­trice e do ostra­cismo de género a que é submetido, um tipo sabe que é pai. Esse peque­nino amor con­des­cen­dente de um beijo na testa, de uma fes­ti­nha mais à bruta que nos faz cair os ócu­los – ficam-te bem os óculos, Russell –, é uma forma feminino-filial de nos dizerem: “Coi­ta­di­nho, és meu pai.” É um amor do tama­nho de um bago de arroz. Mas é um bago de arroz-doce.

ficam-te bem os óculos

Publicado no Expresso, sábado, 23 de Setembro

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Não me posso queixar (3)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)

3

— Hoje podemos falar dos males e das dores do coração?
— Concretamente?! — exclamou o vagabundo com perplexidade perante a recaída do morto.
— Talvez hoje me pudesse queixar da incapacidade de amar para além da volúpia inicial da carne. Uma volúpia que, uma vez saciada, dá lugar a um vazio que cresce como cresce o negro de um poço quando não chove…
O morto fez uma pausa para deixar soar o símile. O vagabundo retirava o estanho do gargalo da garrafa e preparava-se para sacar a rolha. O morto continuou.
— … e em redor desse vácuo tudo seca irremediavelmente, e o coração definha como definha um músculo que não é exercitado, e dói uma dor que não se sente, nem corpo, nem nos nervos, nem na carne, mas antes no fundo do poço, por assim dizer.
O vagabundo arregalou os olhos ao céu, suspirou tédio pelo nariz e fez saltar a rolha da garrafa com um pop eloquente.
— Não tínhamos combinado esgotar antes as dores que doem? — perguntou o vagabundo.
— Tínhamos, é verdade, mas eu pensei que talvez hoje pudéssemos…
— Eu preferia esgotar as outras dores, as que doem mesmo. Isto é, se tiver mais queixas dessas.
— Este fim-de-semana doeu-me um cotovelo — disse o morto e mostrou-o inchado, um trambolho na articulação do braço direito.
— Olha, aí está um clássico. Fale-me lá disso.
À hora combinada, o morto apareceu para se queixar, e o vagabundo lá estava sentado nas escadinhas com o mesmo desleixo e pose displicente, como se nunca de lá tivesse saído. Apenas a garrafa de vinho branco tinha mudado outra vez. Esta tinha um rótulo medalhado. Também havia um copo de pé longo e um balde de plástico com água e pedras de gelo para manter o vinho na boa temperatura.
Durante as últimas semanas, e depois de um auspicioso primeiro mês, as dores de que o morto se queixava, ao contrário do branco, vinham a decair de qualidade, drama e emoção. Eram meras dores de cabeça, ou uma “incomodativa” dor no externo, como que provocada por um peso, ou um torcicolo resultado de uma corrente de ar frio que soprou pela janela durante a sesta, ou uma dor na garganta inflamada por um imprestável micro-organismo sem nome, ou uma picada de vespa na mão que tinha alastrado de articulação em articulação até ao ombro transformando-se num inchaço quase perigoso, que tivera de ser tratado com anti-histamínico e antibiótico; enfim, banalidades sem intensidade. A última queixa com algum interesse tinha resultado de um corte profundo na unha do indicador, a todo o sentido do dedo, separando a unha em duas metades iguais. A mutilação, que o médico declarou permanente dado o sentido do corte – a unha cresceria, para sempre, em duas metades distintas, como se fosse um casco de cabra –, que acontecera enquanto cozinhava uma refeição tipo gourmet para amigos, ocupação de acordo com as tendências da actualidade, foi narrada com detalhe vívido e atenção aos pormenores que foram muitos e sanguinolentos. As dores, que o morto sentiu aguçadas e penetrantes como o fio da faca japonesa, e que quase lhe provocaram uma reacção vasovagal, deram uma sessão de belos símiles, hipérboles e comparações inusitadas; a uma boa sessão, a mais interessante que o vagabundo ouvira nas últimas semanas. Mas, tirando a unha em forma de casco de cabra, nenhuma das últimas queixas tinha tido qualquer interesse. O processo atingira o marasmo. Hoje seria a dor de cotovelo.
O vagabundo encheu o copo, suspirou e recostou-se para ouvir a queixa.

Inadvertidamente, o morto tinha batido o cotovelo com violência contra a esquina de uma estante enquanto rearrumava livros procurando, pela enésima vez, uma ordem lógica, irrefutável e prática para o seu acervo bibliográfico que era considerável. Já tinha tentado a ordem alfabética, que resultara numa ilógica mixórdia de temas; já tinha tentado a ordem alfabética dentro de outra mais vasta, a dos assuntos, mas a biblioteca revelara-se maçadora e previsível, com a personalidade de uma livraria de centro comercial; também já tinha tentado arrumar os livros por nacionalidades dos seus autores, mas esbarrou com o Nobokov. Ultimamente, e porque era um ser sensível e visual, tivera a ideia de arrumar as lombadas por tons: blocos inteiros de amarelo, junto a outros laranjas, depois os avermelhados, os rosas, até chegar aos azuis, para concluir com um bloco de lombadas pretas. Quando terminou a tarefa, que lhe levou boa parte de dois dias, e toda a estante era um arco-íris de lombadas, o efeito cromaticamente previsível não foi do seu agrado. Irritado, resolveu recomeçar tudo de novo, o que lhe levou mais uma boa parte de outros dois dias, arrumando os livros por assuntos, ainda que mantendo as lombadas ordenadas por espectros de cor: um arco-íris de ficção, um arco-íris de História, uma arco-íris de poesia, um arco-íris de ciência, outro de filosofia. Uma biblioteca fragmentada numa colorida de manta de retalhos que era, afinal, como a sua cabeça funcionava. Quando procurava um livro, lembrava-se sempre e em primeiro lugar da cor dele. Os Heinleins, por exemplo, eram todos cinzentos. A trilogia do Smiley, do Carré, era preta. Os Karamazov eram esverdeados, como verde era o Crime e o Castigo. Já o Idiota era azul e por essa razão encontrou o seu lugar junto de duas Agustinas, das obras completas do Azimov, do Hitchiker’s Guide to the Galaxy e de uma colectânea de contos do Elmore Leonard. Não muito longe encontravam-se os azuis clarinhos, e entre eles O Coração das Trevas e a Odisseia que partilhavam o mesmo azul celeste quase brumoso. Curiosamente, o Vitória partilhava o mesmo vermelho tinto da Ilíada.
— Algum sentido há-de ter esta coincidência — disse o morto fazendo um silêncio meditativo que fez cair a cabeça do vagabundo, acordando-o.
— Continue, continue – disse o vagabundo, disfarçando interesse e reenchendo o copo.
Foi quando estava a arrumar um livro de um novíssimo autor da velhíssima escola necroliterária – cujos seguidores fazem carreira imitando escritores mortos – livro que lhe fora oferecido, mas que não tinha lido nem fazia tenção de ler, que bateu violentamente na esquina da estante. A dor no cotovelo, logo no cotovelo direito, foi fulminante como o foi o inchaço que se lhe seguiu. De imediato abandonou a tarefa, maldizendo o autor mais a quem o editou, para se recostar no sofá com o cotovelo apoiado num saco de gelo durante a boa parte de mais dois dias; impossibilitado de jogar ténis, de produzir rimas sobre as suas angústias – o que fazia manuscrevendo com uma caneta de aparo, de modo a aportar aos emasculados queixumes uma genuinidade de fim de século (XIX) –, de erguer um livro, sequer, ou mesmo de puxar pelo macaco, tarefa a que se dedicava com a mesma regularidade com que os seus intestinos trabalhavam.
— E como é que resolveu a coisa? — perguntou o vagabundo olhando concentrado para a garrafa de branco que ia a pouco menos de meio como a sessão. — O cotovelo ainda dói?
— Dói. Dá-me ideia que vai doer sempre. É o género de coisa que já não passa nesta idade. Sei que aqui e ali a dor de cotovelo reaparecerá. É inevitável — disse o morto.
Ainda assim não era caso para a cortisona. O velho diclofenac 100 mg, de libertação prolongada para não acicatar a úlcera, parecia ser suficiente. Mas o ténis nunca mais seria o mesmo. Algo que implicaria com a sua rotina, e sem a sua rotina sentia-se perdido. O morto havia enchido todas as horas do dia com as mais diversas actividades para evitar pensar naquilo que devia fazer. Agora, havia mais quatro horas da semana para se dedicar ao nada.
— Talvez arranjar outra dor mais forte? — sugeriu o vagabundo, enquanto pegava delicadamente no pé do copo fazendo rodar o vinho.
— Como assim?
— Se tem mais tempo para se dedicar a dores sem sentido – e note que digo sem sentido apenas porque não se sentem na carne, nem na pele, ou seja, através do sistema nervoso, não que não façam sentido para si, de um modo significante, mas, a certo nível, por certo muito básico, não fazem sentido para o seu corpo, senão sentiam-se a sério – talvez devesse, para se entreter, arranjar dores maiores.
O vagabundo fez uma pausa para dar um golo e esvaziar o copo. Depois voltou a enchê-lo com o que restava na garrafa, ofereceu ao morto, que declinou, e continuou:
— Parece-me que essa dor de cotovelo é uma dor menor. Uma dorzinha, apenas capaz de produzir lamúrias e não queixas viris. Quando combinámos estas sessões foi para ouvir queixas e não lamúrias. Queixas de consequência, queixas com drama e enredo, que comovam quem as ouve, que arrepiem e impressionem. Esta dor, de que hoje se queixou, é uma dor medíocre, e o inchaço apenas um altinho no cotovelo que parece ser onde você guarda o ego. Se vamos continuar este trabalho, de uma forma séria, preciso de dores épicas que resultem em queixas agonizantes. Para a próxima sessão quero que me traga uma dor heroica, uma dor miserável, das que não se aguentam. Caso contrário é porque não tem nada de que se queixar. Nem vale a pena aparecer.
— Está a dizer-me que devo provocar uma dor em mim mesmo, de forma masoquista?
— Fazer o mal e a caramunha, não é o que se diz? Não é isso que tem feito toda a vida com todas aquelas dores que não se sentem na pele? Essas dores do coração, e da alma, e do ser, e do fundo do poço e mais ó caralho?
O morto ficou calado, aturdido com a violência das observações. Seria mesmo assim? Seriam as dores poéticas, dores que ele convocava em si mesmo? Uma espécie de mortificação psicológica para combater, subconscientemente, a frivolidade a que votara a sua vida?
— É essa a tarefa para a próxima semana. Arranjar uma dor que doa. A nossa hora acabou.
— E como é que eu faço isso?
— Sei lá, procure que há-de encontrar qualquer coisa: cilícios, coroas de espinhos, camas de pregos, chicotes de rabo-de-gato com nós na ponta. E estes são apenas clássicos. Estou convencido que também a mortificação sofreu um upgrade nestes tempos mais digitais. Procure na internet.
Ficaram calados, cada um com os seus pensamentos. O morto dobrado sobre si, com os cotovelos nos joelhos e cabeça apoiada nas mãos, pensava em chicotes de rabo-de-gato com nós na ponta. O vagabundo, olhando o balde onde jazia a garrafa vazia de vinho branco medalhado, dava-se conta de como ele era feio, o balde, de um verde muito rasca como só o plástico conseguia fixar.
— São cinquenta euros.

(continua)

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