A Criação

 

 

Para o filho de camponeses que eu sou, confesso que a polissemia do termo me tem desgraçado. Há a Criação, essa obra visível e invisível do Ser Supremo, a que, com a autorização do probation officer que é Richard Dwakins , chamarei Deus. E há depois a criação que o meu pai e a minha mãe tinham numa parte do quintal na Luanda dos anos 60, e a que chamarei, queira Dawkins ou não, patos, galinhas e coelhos.

São coisas que perturbam a infância de qualquer um. O que é, afinal, a Criação? O resultado é que ainda hoje me pergunto, criação por criação, se em miúdo andei a dar milho às galinhas ou a Deus.

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Invadimos o São Carlos

Fomos ver Donizetti, que nasceu em Bergamo e morreu em Bergamo. Fomos, portanto, ver um fantasma dele que trouxeram ao São Carlos. Donizetti é, na linhagem desses operários que fizeram a ópera, um tipo entalado entre Rossini e Verdi, o que o meu camarada Henrique Monteiro (tenho razões, e não exactamente operárias, para este tratamento fraterno e solidário) confirmará negando.

Fomos, portanto à ópera. Um bando de Tristes. Sentámo-nos em duas frisas mais apertadas do que duas marquises num prédio da Damaia. Já passou mais de um mês, já eu fui dançar à ópera a Viena (hei-de contar, hei-de contar!) e o Henrique a Zurique ou a outra ópera qualquer, e ainda ninguém, nem o Pedro Bidarra, nem a Teresa Conceição ou a Rita Vasconcelos, o Diogo ou a Sandra, nenhum deles veio aqui perorar sobre essa exaltante incursão.

Fomos ver, do compositor de Bergamo, a Anna Bolena que Donizetti compôs em 1830, e a que uma soprano lendária, Giuditta Pasta, obrigou a Europa a render-se. Pode pedir-se muita coisa ao São Carlos, mas que ressuscitassem essa Pasta, que a morte calou em 1865, não é um pedido curial, nem é disso que eu, leigo, insensível e meio surdo, me quereria queixar, se de alguma coisa, da encenação à orquestra e aos cantores, me quisesse queixar. Não quero.

No São Carlos, Anna Bolena era Elena Mosuc, uma soprano romena, que a mim me pôs quase com olhos de água, embora eu saiba, mas não diga quem, na frisa ao lado, se lavou mesmo em lágrimas. Ouvia a Mosuc, e lembrei-me que devemos a Luchino Visconti andarmos hoje, de novo, a ver e ouvir Anna Bolena. A ópera ficou esquecida e foi Visconti, cineasta, mas nesse caso encenador convidado para o La Scala, que foi buscar Anna Bolena para, com essa ópera de Donizetti, fundir o fantasma de Giuditta Pasta na vivíssima Maria Callas.

A pequenina parte abstractizante da minha cabeça ouvia os cantores, o coro, a encenação de Graham Vick e só pensava no que pensaria Visconti, encenador e realizador, quando encenava e quando filmava. Gostava que, entre os 80 cigarros por dia que fumava, ele tivesse arranjado tempo para me falar das diferenças que via entre as duas artes, na diferença que há entre o continuum de tempo e espaço da ópera e a fragmentação do espaço e do tempo no cinema. Para os meus pobres e velhos olhos a ópera é amiga. Pede-me que os deixe quietos, passivos. No cinema, essa arte refém da montagem, essa arte feita plano a plano, frame a frame, os meus pobres olhos não param, são uma pequena régie que dá sentido, que disciplina o torrencial e aparentemente aleatório fluxo de imagens.

Estava eu nestes lamentáveis preparos, nesta angústia reflexiva, e já no São Carlos, em off, bem fora de cena ou fora de campo, se ouvem sinos e o povo em júbilo com o casamento de Henrique (o VIII entenda-se) com a amante pela qual trocou Anna, a sua segunda mulher, enquanto ela, ainda viva, caminha com nobreza para o cadafalso. Talvez a montagem, afinal, tenha sido inventada por Donizetti.

Não acabam aqui as incursões conjuntas dos Tristes. Já fomos juntos à Missa, agora à Ópera. Tínhamos planeado incursão ao Elefante Branco, o que foi fatal como o destino: assustada a gerência fechou a vetusta instituição. O Pedro Norton está a organizar a ida ao Estádio da Luz, perdão, à Catedral. Aceitam-se sugestões.

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Imitação dos Livros

IMITAÇÃO DOS LIVROS

E a apresentação do livro
e o programa de rádio, a entrevista?
É não. O livro não estende a mão,
passou bem, um abraço, um beijo, nada.
O livro tem o bom senso que falta ao autor:
sente o mesmo quer gostem dele ou não
e é-lhe indiferente o lugar na estante.
Há quem tenha imitado os santos, platinado
o cabelo à Marilyn, escrito devocionalmente
à la mode deste ou daquele. É não.
O livro tem a sabedoria que falta ao autor,
ou a humildade: ou é bom, ou fica curto ou
largo se a camisa é de empréstimo.
Os poemas então, alguns, são a pesca no inferno
a rabiar-nos nas mãos os versos e o diabo a rir…
É por isso que os poetas são chatos, chatos,
e escrevem sobre escrever poemas enquanto
o diabo ri e nos mostra o espelho:
ah poeta pateta! É verdade, senhor diabo. É sim.
Ai como essa verdade ao espelho nos rebaixa –
há-de ser por causa disso que Narciso para se
espreitar no rio, andava de gatas.
Eu também quis ser viral como a gripe, ter troupe,
ser do circo. Tive a grande sorte de me correr mal
ou agora andava por aí a assinar na feira e a debater
no festival. Hoje é não. Leve lá o espelho,
senhor diabo, quem não me faz não me desfaz,
e não preciso de me ver reflectida.
Sei que le coeur n’a qu’une seule bouche e
é ele quem dita ao poeta ou ao escritor,
nomes de possessos para o verso e a frase em trânsito
desde o fundo escuro de onde vimos até lá ao fim
que só Deus sabe.
Nem é por mal que andamos de gatas na juventude
das letras. Quando somos bebés, basta-nos pestanejar
bocejar e oh que coisa mais linda, amor às carradas,
mas um dia pestanejar não chega nem falar, e já é o pino
ou a pirueta linguística e o débito gnóstico só para saber
que não há coisa mais linda – para ser amado, poeta pateta,
venha a pesca de versos no inferno e riso do diabo, não é?
É patético, sim, e poético, e terrível.
É o esplendor da decadência de Blanche quando
a morte assina com a impressão digital do desespero
a data e a hora, e Stanley e Belle vida fora.
A beleza partida em duas luas de sombra.
Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers.
Nós sim. O livro não: le coeur n’a qu’une seule bouche.

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Facebook e a política a preto e branco

A Society for News Design atribuiu uma medalha de ouro na categoria best digital design 2016 a um trabalho notável do WSJ. Bem sei que, à primeira vista, isto não parece particularmente excitante. Mas se me derem mais dois minutos perceberão a relevância da coisa.

A ideia foi ilustrar num site uma experiência levada a cabo, em 2015, por um conjunto de Facebook Researchers (?). A dita experiência consistiu (com a colaboração dos próprios) em catalogar 10 milhões (!!!) de utilizadores do Facebook como very liberal, liberal, neutral, conservative, ou very conservative. Depois, durante 6 meses, tratou-se, tão só, analisar o conteúdo consumido por estes utilizadores. Com base nisso, e na auto-catalogação acima descrita, definiram-se as 500 principais fontes de informação e dividiram-se em duas categorias: red e blue.

O red feed na página do WSJ é automaticamente alimentado pelas fontes preferidas pelos conservatives. O blue feed é automaticamente alimentado pelas fontes preferidas pelos liberals. A ideia é replicar um feed tipo de um conservative, lado a lado com um feed tipo de um liberal.

O resultado é espantoso e pode ser espreitado aqui.

Tenho ainda, devo confessar, muito mais perplexidades do que certezas sobre os efeitos das redes sociais na formação de opinião e consequentemente no funcionamento da democracia. Mas esta experiência parece demonstrar uma coisa assustadora: no mundo maravilhoso dos logaritmos vivemos cada vez mais em bolhas informativas que tendem a reforçar as nossas convicções e preconceitos. Não era exactamente a isto que Stuart Mill se referia quando, sem nunca efectivamente usar a expressão, defendeu a metáfora do marketplace of ideas como fundamento máximo da defesa da liberdade de expressão.

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O papa apóstata

Quinn, o Papa que veio do frio.

Só há um papa, Anthony Quinn. O cinema não é só melhor do que a vida, o cinema antecipa a vida. Em “As Sandálias do Pescador”, filme da minha infância, Quinn fundia a bondade de João XXIII com o intervencionismo de João Paulo II e com o generoso desassombro de Francisco. Quinn era um bispo libertado de um gulag soviético. Chega a papa e salva a humanidade de uma guerra nuclear.

Não sei se os olhos de Quinn chegaram a ver Deus. Ninguém no mundo está mais habi­li­tado a ver Deus do que o homem da batina branca. O soli­déu sin­gelo e a sotaina branca conferem-lhe uma ele­gân­cia con­for­tá­vel e sim­ples. Se que­re­mos ver Deus, é assim que nos deve­mos ves­tir. E cal­çar uns sapa­tos vermelhos.

Os sapatos que falam com Deus

A pensar em Quinn, lembrei-me de um conto de Gio­vanni Papini, his­tó­ria de um dis­si­mu­lado após­tata eleito papa. Eleito, cami­nha para a varanda que se abre sobre a mul­ti­dão que, em fé e pela fé, exulta e reza. Esse papa iconoclasta vem pronto a denun­ciar a gigan­tesca impos­tura que é a reli­gião.

Dá o pri­meiro passo, dis­curso na ponta da lín­gua ser­pen­tina, mas a alegria e a fé da mul­ti­dão entram nele como luz que lava os olhos a um cego. O após­tata converte-se e já o habita o Pai, o Filho e o Espí­rito Santo.

Quinn discutia a fé com um padre que era a cara do teólogo Teilhard de Chardin. Diziam um ao outro o que não podiam dizer a ninguém. E se o papa, tal­vez o único homem que pode ver Deus, sou­besse, como mais nenhum homem sabe, que Deus não existe? Por­que mais nenhum homem sabe, como este homem sabe, que o Deus a que um milhão de fiéis se ajo­e­lha no Vaticano, esse Deus patri­ar­cal, a cor­rer, bombeiro, de prece para prece, entre­tido a vingar-se, a acu­sar, a sal­var, cas­tigo numa mão, a mise­ri­cór­dia na outra, nenhum mila­gre o fará exis­tir. Sécu­los de teo­lo­gia e Tei­lhard de Char­din dis­si­pa­ram essa nuvem, essa luz que cegou Pau­lo. Como ontem Quinn, também hoje Francisco sabe. Porém, sorriso a sorriso, Francisco acredita.

Que insus­ten­tá­vel fra­gi­li­dade! A tris­teza gentil do olhar e o mara­vi­lhoso sor­riso de conto de fadas sus­ten­tam uma civi­li­za­ção, uma recon­for­tante forma de ver, sen­tir e viver o mundo. Bas­tava que este homem dis­sesse uma só pala­vra e a mul­ti­dão cor­re­ria des­vai­rada, em uivos apocalípticos…

Vivemos a uma pala­vra do caos, de um triun­fal nii­lismo. Nessa insus­ten­tá­vel fra­gi­li­dade reside a mais insus­ten­tá­vel beleza. E um filme por fazer.

uma só pala­vra e a mul­ti­dão cor­re­ria des­vai­rada

Publicado no Expresso, sábado, dia 4 de Março

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Todo o cirurgião é um actor

Este post contem imagens que podem chocar pessoas mais sensíveis

Eu não sei nada. O António Setúbal sabe tudo. Eu nem sequer consigo dizer de um só vez o nome do que ele sabe: endometriose. Digo que é uma doença do útero e não direi mais nada, porque o meu amigo António Setúbal é o único que pode dizer tudo. É um especialista de reputação mundial. Dirige ou faz parte do board da revista da especialidade que se publica na Califórnia. Já foi o orador principal do Congresso Anual. Passa o tempo em Estugarda, Las Vegas, Teerão ou Moscovo. Mas não é por isso que eu sou amigo dele.

O que nos juntou foram os filmes. No Festival de Tróia, na Cinemateca, fascinados por realizadores, actrizes e actores, tínhamos um grupo unido, que a morte de alguns, do Pedro Bandeira Freire, do Manuel Cintra Ferreira, do Alfacinha da Silva, do Dinis Machado, desfez. É disso que falamos sempre que nos encontramos e ele vem bater uns papos a Portugal. E é dessa paixão pelos filmes que ele fala nesta apresentação TED style. Dessa paixão que quase o tirou da medicina, quando andou fazer clips para bandas, como era o caso do Sétima Legião. Mal sabia que, hoje, com a laparoscopia, o trabalho dele volta a estar ligado a uma câmara. E, cinéfilo como é, foi descobrir os mais bizarros filmes, os filmes que um médico francês, Eugéne Doyen, fez.

O Senhor Doyen filmou ainda Griffith não filmava

São filmes incunábulos, se posso usar o termo bibliófilo, para o cinema. O francês Doyen filmou-se a si mesmo em plena cirurgia. Fez, por exemplo, cranioctomias, uma coisa que, de se ver, quase nos faz desmaiar. Isto sim, pensei, a ouvir o António falar, isto é crítica de cinema, crítica comparada da utilização de luz e câmaras em diferentes áreas. Com o mesmo grau de dramatismo, com o mesmo grau de acção e perigo. Só vos digo: todo o cineasta é um cirurgião. Todo o cirurgião é um actor.

Para vermos o cirurgião e o actor, o filme está aqui.

E o Doutor Doyen está aqui:

 

 

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8 de Março

 

no res-caldo do dia da mulher uma imagem E-Vidente.

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A puta da actualidade. Reflexões

 

 

 

 

 

 

 

  1. Durante alguns meses vivi sem noticiários e deixei de ler jornais. Mesmo o feed noticioso pouco o procurei. Foram meses passados a escrever e a ler.
    Os livros têm a qualidade das máquinas do tempo. Foram escritos no passado, são lidos agora, mas quase sempre falam do futuro. Os que interessam, pelo menos, são sempre sobre o futuro, mesmo quando o assunto é a época em que foram escritos ou tempos ainda mais longínquos. Os que não interessam são quase sempre sobre a actualidade, essa coisa que dura apenas o tempo de um espirro.
    Não ouvir a actualidade, vê-la ou lê-la, é viver numa abençoada suspensão quântica: tudo acontece e não acontece ao mesmo tempo. Como aconteceu e não aconteceu com o pobre gato do Schrödinger até ser aberta a caixa.
    O Trump foi eleito ou não foi eleito? As contas públicas estão certas ou erradas? A UE ainda existe ou não existe? Só olhando o ecrã se sabe. Como só se sabe se o gato está morto ou vivo no momento de abrir a caixa. Até lá, segundo a interpretação de Copenhaga, o gato está vivo e morto ao mesmo tempo. É a observação que lhe determina o estado. Enquanto não se olhar o ecrã o Trump foi eleito e não foi eleito. Ora se ninguém tivesse olhado ainda não se saberia se o mundo teria Trump ou Hillary. Estaríamos num mundo onde os dois existiam com presidentes, ao mesmo tempo que existiam os dois como derrotados, o que, como hoje se percebe, seria a melhor das soluções. Na verdade, e de acordo com a interpretação de Copenhaga, fui eu, ao ligar a televisão, que o elegi. Sou o culpado. Somos todos culpados. Se não tivéssemos olhado o ecrã viveríamos num mundo melhor, de incerteza, mas melhor.
    E o que aconteceria se desligássemos os ecrãs?
    (Talvez devêssemos criar o dia internacional sem ecrã. Melhor ainda, uma quaresma sem ecrãs, uma abstinência de actualidade dedicada à riquíssima incerteza.)
    A actualidade é-nos hoje servida de uma forma instantânea, numa torrente desmiolada, irreflectida e ansiosa. Parece uma corrida para ver quem primeiro abre a caixa e verificar se o gato estava morto ou vivo. Está vivo! E corremos para a caixa que se segue, porque ali também há mais gato.
    Deixámos de viver com a incerteza, com o poder de reflectir sobre ser e não ser, haver e não haver, ter e não ter. A actualidade é hoje uma experiência sem explicação, em directo. Abre-se a caixa, diz-se que o gato está morto, e passa-se a correr à caixa seguinte, que se abre de novo para ver se o gato está vivo ou morto, e passa-se à seguinte, onde o gato pode estar vivo ou morto, mas não por muito tempo. Na frenética actividade para veicular a actualidade perdeu-se, não só a incerteza — que é mais rica do que a certeza porque contém mais hipóteses, mais universos, mais estados possíveis — mas também a explicação sobre os mecanismos que podem, ou não, matar o gato.
  2. A vantagem dos defuntos jornais em papel era a de serem artefactos que vinham do passado. Sendo lidos mais à frente no tempo, havia mais recato e sensatez na sua elaboração. Havia um tempo em que todas as coisas podiam ter acontecido ou não. E qualquer repórter ou jornalista temia a vergonha do disparate impresso. Mesmo que o jornal servisse para enrolar peixe cinco minutos depois de vendido, ainda assim, a possibilidade do disparate o envergonhar, preto no branco do papel, fazia com que a actualidade reportada fosse mais ponderada pelo cérebro, pelo saber, pela reflexão. Hoje esse tempo e essa ponderação foram diminuídos. Resulta um espirro que espalha vírus e bactérias.
    O velho repórter adoeceu de velho com os velhos jornais, que adoeceram de velhos com o velho mundo. O novo repórter já nasceu sentado, e o seu rabo cresce mole e alarga-se ao tamanho da cadeira onde se senta em frente ao ecrã. A sua coluna já não é direita, mas curvada em reverência ao feed, enfraquecida por falta de força nos músculos que a sustentam: falta de exercício, falta de rua. O mundo do novo repórter é o ecrã. A actualidade deixou de ser feita das muitas histórias que a vida deixa pelos cantos e pelas ruas (e pelos livros) e passou a existir apenas nas histórias criadas para os ecrãs. A actualidade subiu ao palco. Parece uma rameira enrolada no varão, iluminada com matizes de bordel, rodopiante, quase nua, sorridente e de pernas para o ar com os longos cabelos amarelos a varrer o chão; irreal, mas irresistível. Não se consegue desviar o olhar. Entretanto, os agentes da actualidade não vêem o espetáculo, olham apenas para quem olha e contam os likes.
    Mas as histórias passam-se, e não são só as histórias desenhadas e planeadas para o ecrã. As histórias passam-se com princípios, meios e fins, passam-se nas ruas, em casas e em comunidades esquecidas e mal-educadas, onde os discursos, os hábitos linguísticos, os pensamentos, os preconceitos e os assuntos não são aqueles que se querem no ecrã. São comunidades com voz mas sem acesso, porque os assuntos que vociferam não são aquilo que, quem redige para o ecrã, decidiu ser a “voz das pessoas”: é uma voz politicamente incorrecta, bruta, mal-educada, ignorante das convenções e dos salamaleques do sistema político-mediático. E as histórias acumulam-se, silenciosamente, juntam-se umas às outras, como se juntam as pequenas ondas feitas pelo vento em ondas maiores, cada vez maiores, e explodem, inesperadas, explodem em realidades incompreensíveis. São histórias concebidas na penumbra. Não na sombra, mas na penumbra. Podiam ver-se, se alguém as quisesse encontrar, desviar o olhar do ecrã feito de luz com matizes de bordel. Era preciso procurá-las, vivê-las, entendê-las sem preconceito, ou com apenas um mínimo saudável dele.
  3. Há quem diga, e eu acredito, que também as ideias seguem uma lógica darwinista. Que cada época seleciona as que melhor se adaptam aos tempos, as que são percebidas como necessárias para substituir as que deixaram de funcionar, porque já não apresentam resultados, porque são ineptas como ferramentas para tratar com a realidade que se impõe. Nesta selecção natural das ideias e das filosofias, as novas — que na maior parte as vezes são velhas que vivem adormecidas na penumbra, até serem retocadas e revestidas como salvíficas — aparecem sempre como alternativa ao pensamento que se convencionou ser o politicamente (religiosamente, filosoficamente) correcto.
    Para muitos de nós, nestas nossas terras, o pensamento do tempo — o único aceitável e decente — é feito de democracia, de fraternidade, de igualdade, de justa retribuição, de justiça e bom-senso. É um belíssimo pensamento. Foi ele que me permitiu viver nesta bolha de paz e prosperidade onde nasci e onde, até agora, vivi. Mas não é o único. Para muitos outros, esta filosofia de cidadania não é uma ferramenta útil para os tempos que correm. Se fosse não estava a ser substituída por ideias ferozes, exclusivas e intolerantes.
    O homem-horror que os americanos elegeram e a mulher-megera que os franceses se preparam para eleger, não são os responsáveis pelo mal do mundo. São apenas veículos de ideias alternativas que nasceram no estrume das muitas histórias não contadas. Histórias unidas numa maior, que eles, os novos actores, se dispuseram a contar. Os velhos actores, os que vão sendo expulsos do palco — da esquerda ou da direita, neoliberais ou neocomunistas, da alta finança ou da alta cultura —, foram os actores do estado das coisas. Na repetida guerra entre mudança e estagnação, estes últimos foram os actores da estagnação. Será tão difícil de entender esta simplificação?
    Aquilo a que chamamos bom-senso trouxe-nos até aqui: às bombas, ao terrorismo, à desigualdade extrema, à corrupção, à ascensão dos bandidos bem vestidos, ao desemprego, à dívida, à delapidação dos recursos do planeta. Não é ele, o bom-senso, que daqui nos tirará; assim pensam (ou sentem) muitos; em muitos casos a maioria.
    Este tempo pede mudança extrema, como outros tempos a pediram no passado. De entre as ideias disponíveis, a sociedade vai escolhendo, ou ameaçando escolher, as que são diferentes do costume, da convenção e do bom-senso. A sociedade não é racional, nem escolhe o melhor. Escolhe o que está à mão, por tentativa e erro. Escolhe por critérios de disponibilidade, de diferença e de pertinência. Hoje, o mal está disponível e é diferente daquilo a que nos habituámos. A pertinência dele, se alguma tiver, ver-se-á mais tarde. Provavelmente será a de fazer voltar o bem, depois de anos a espalhar pelo mundo os seus iníquos frutos: o sofrimento, o horror e a miséria.
    Bem contra mal. Será também tão difícil entender esta simplificação?
    Mas são simplificações que escolhemos como sociedade, não complicações. Simplificações e generalizações. É o que usamos para decidir.
  4. Há momentos em que sentimos saber onde estamos. Entendemos a causa das coisas e sentimo-las antes de acontecerem. É como se as sensações, os pedaços de realidade que nos chegam, desenhassem padrões que conseguimos completar. Quando se vê um padrão, muitas vezes incompleto por ser parte de outro maior que não se deixa ver à nossa escala, ainda assim, conseguimos entender o presente e descortinar futuros possíveis. É um talento de Cassandra que todos temos e que nada tem de extraordinário ou sobrenatural: é da natureza. É ela que nos fornece os padrões, como foi ela que nos forneceu os olhos. Ver padrões é, de um modo simplista, o superpoder de quem olha.
    Estranho é que pouca gente olhe ou, olhando, não veja. Talvez por falta de instrumentos para medir a realidade; instrumentos capazes de mostrar diferentes ângulos e perspectivas e revelar os padrões de que é feita. Outras vezes, temos os instrumentos mas usamo-los apenas num campo limitado, sempre expostos à repetição dos mesmos estímulos e da mesma paisagem. E ficamos especialista num pedaço da realidade, incapazes de entender os desenhos maiores. Vistas curtas, diz o adágio.
    E de repente, enquanto estávamos todos a olhar para o mesmo sítio, acontecem coisas que ninguém entende. É a actualidade que não se quer, que não se gosta e não se entende. É a actualidade que outros procuram e outros, por estranho que nos pareça, entendem. É a actualidade que rebentou das histórias não contadas e que não nos deixa dormir descansados, porque outros, ontem, também não dormiram. É a puta da actualidade.
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arranha céus

Nas alturas da crise

Uma certa vertigem, uma perturbação, o desequilíbrio da estrutura, abalada até às fundações.

Um mundo liquido, caduco, as suas fissuras, crateras e salientes junções

A vida, a morte, a constante oscilação, o sonho e a realidade

O movimento fixo, o fixo instável e animado

Pedaços de espaço tão frágeis, semelhantes a vidro,

RUMO A UM MAR DE ESTRELAS

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Puissance de la parole

Era 1989 e parecia não haver coisa mais bonita do que a publicidade. Até aparecer um pequeno filme de Godard. Em vídeo. Eu escrevia, com total liberdade editorial, o que muito bem me apetecia, no jornal “Semanário. Fiquei siderado e afligi os leitores com o artigo que se segue. Era outro tempo. Havia clubes de vídeo e havia quem servisse, como criado de dentro, de crítico de vídeo. Outros tempos.

Um vídeo secreto — só para iniciados
por Manuel S. Fonseca

Durante a próxima semana esqueça o seu clube de vídeo, vire as costas aos cinemas que normalmente frequenta, despreze as sugestões dos críticos. Prepare-se para a aventura da sua vida. Pense positivo, porque terá de fazer um túnel na montanha se quiser finalmente ver a luz. Trabalho árduo e, quiçá, um bocadinho sujo. Disponha-se a regatear, talvez mesmo a piratear. A mostarda da corrupção chegou enfim à sua vida.

Debrouillez-vous, messieurs: nem que tenha de cair o Carmo e a Trindade, nem que tenha de virar-se o mundo às avessas, mas vossas excelências têm de ver Puissance de la Parole , de Jean-Luc Godard. É um vídeo de Godard e é finalmente o vídeo. É outra linguagem. É a invenção permanente; são as vozes do céu. E é toda a música, toda a pintura e alguma literatura da terra.

Começo pelo princípio. Se no cinema o panorama de exibição é cada vez mais restritivo e se a crítica cada vez mais se cola, por uma questão de ganha pão (é, não é?) algum comodismo e muita incipiência (cada um faz o que pode, claro!), aos escassos banquetes servidos entre a Rotunda e a Praça da Alegria, então na área do vídeo campeia o mais confrangedor servilismo, capaz mesmo de fazer corar de vergonha um «crítico de espectáculos» dos anos 50. Os actuais «críticos» ignoram tudo e querem que toda a gente ignore tudo. Ao contrário do que acontece com o cinema, não há sequer um festival que amenize aquela sacrossanta ignorância.

O Fígaro Magazine encomendou a Werner Herzog, David Lynch, Andrzej Wajda, Luigi Comencini e Jean-Luc Godard curtas-metragens em vídeo sobre os franceses (Les Français vus par…). Viram alguma coisa escrita sobre isto? É o viste! Godard filmou mais tarde, com textos de Edgar Poe, Baudelaire e Hanoun Trazieff, e com música de Bob Dylan, Leonard Cohen, Bach, Beethoven e John Cage (entre outros), Puissance de la Parole. Viram? Eu vi e obrigou-me a pensar que, de facto, «les français veulent toujours avoir le dernier mot». Não é um vídeo: é uma seita. Quem o vê, como um bom neófito, perde-se pelas ruas em busca de potenciais conversos para a causa. Só por isso, caros colegas videocríticos, meti a foice na vossa seara. Descansem que não volto a perturbar a placidez do vosso sono.

Les Français vus par… e Puissance de la Parole são duas coisas totalmente distintas. Naquele vídeo em episódios, Godard participou com Le Français entendu par, prestando homenagem a Valentin Feldman, um filósofo francês fuzilado aos 33 anos pelos alemães. É um filme de 12 minutos, desembaraçado, para não dizer provocatório, prenunciando no trabalho da banda sonora o que depois se vê em Puissance de la Parole, mas sem atingir ainda a mesma fulgurância e a mesma inovação, mantendo-se naquele registo burlesco que Godard punha em evidência em Prenom Carmen, Detective e Soigne ta Droite.

Puissance de la Parole é de outra família. É a nova família. Para quem costuma dizer que nos filmes de Godard não há história, Puissance de la Parole está cheio delas. São histórias de comunicação: pessoas que querem falar com outras pessoas ou pessoas que querem falar com Deus. Por isso, as vozes são protagonistas. Vêm do céu, porque, para Godard, toda a história do cinema é apenas uma longa discussão com Deus: mesmo as mais espectaculares cenas de cama, mesmo as mortandades dos chamados «filmes de acção», são apenas formas primárias de chamar a atenção do Senhor.

Godard sabe que o som mudou com o vídeo: o som move-se permanentemente. Nunca se fixa. Começa com um avião, logo a seguir passa para o mar, depois é uma frase que se sobrepõe. Sabemos agora que uma voz pode ser um segundo violino.

Puissance de la Parole é ainda um filme em que a luz se faz pintura. «Não se pode fazer cinema sem se discutir. Pode fazer-se pintura ou outra coisa», tinha dito, em tempos de Passion, o tio Jean-Luc. Puissance de la Parole é pintura e é outra coisa. O vídeo liberta a matéria das suas propriedades de peso e densidade, sugerindo a sua corporeidade através da pura luz (e do ar). Pelo menos é o que se vê em Puissance…, tal e qual se vira em Manet, Degas ou Renoir. Com as cores mais bonitas dos últimos vinte anos.

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Silêncio

O silêncio é um lugar de palavras

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Está tudo bem

ESTÁ TUDO BEM

então, esta mulher alimentou o homem
de cada vez que ele passou à sua porta.
E porque ele ia e vinha, mandou fazer em sua casa
um quarto onde descansasse, e lhe o deu,
cama, mesa, cadeira e menorá. Desconhecia-o, mas
sentia o poder que só o sagrado tem, e a presença de
Deus reflectia-se claríssima e forte neste homem.
Jamais a mulher lhe pedira o que fosse, nem quando ele ofereceu.
Até o profeta estranhou tal contenção. Nada lhe pediu, esta mulher:
abrira-lhe a sua casa, alimentara-o, dera-lhe um quarto onde
descansasse, cama, mesa, cadeira e menorá.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé:
viver com a certeza de que a vida é a vida como ela deve ser,
nada do que é nosso nos falta, estamos
na linhas das páginas do livro da vida escritas mão na mão
com a mão Divina, assinadas em baixo por nós.
Assim mesmo, Eliseu, o profeta, quis retribuir, e
procurou o que ela não tinha nem pedia. E disse-lhe:
dentro de um ano terás um filho no teu colo.
Ela não quis levar a esperança tão alto e disse-lhe, não.
Mas o poder de Deus era forte neste homem. Eliseu
quis que ela visse a sua esperança. E ela teve um filho do seu marido.
Ele cresceu. E um dia, do nada, uma dor.
E morreu este filho nunca pedido,
aceite em felicidade e tão amado.
Ao corpo do filho, mandou que o deitassem na cama
onde em sua casa dormia o profeta – não fora afinal
o seu poder o útero da sua criação?
E cavalgou sem parar até ao Monte Carmelo. Eliseu viu-a
a grande distância, quando era apenas um vulto enrolado em pó,
e mandou saber o que se passava.
E a resposta veio. Está tudo bem. Estamos todos bem.
Insistiu o servo.
Está tudo bem. Estamos todos bem – sem abrandar o galope.
Chegou a Eliseu. Deste-me um filho, eu não te o pedi.
Agora ele está morto e essa não foi a tua dádiva. Leva o meu bordão
e que ele toque na cabeça do teu filho e ele viverá.
Não saio daqui sem que venhas tirar o meu filho à morte.
E lá foi o servo com o bordão. Nada aconteceu.
O filho morto na cama do profeta.
Vai então Eliseu com ela. Pelo caminho perguntam, o que se passa?
Está tudo bem. Estamos todos bem.
Eliseu deitou-se sobre a morte do rapaz.
Olhos sobre os olhos. Boca sobre a boca. Palmas sobre as palmas.
Sete vezes se deitou
e sete vezes respirou sobre ela,
e o seu sopro devolveu o filho da sunamita à vida.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé.
O que é nosso ninguém tira: está tudo bem.

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Sei que vou morrer

 

Toda a gente sabe. Até um miúdo de 15 anos. Vamos supor que a mãe ou o pai lhe dizem isso, que vão morrer um dia destes. O miúdo ou a miúda, com um inflexão paternalista, logo dizem que sim, que todos vamos morrer um dia. E deixa lá isso, pai.

Mas isso, e deixa lá isso, não é ainda saber. É só pura lógica. Saber sem saber.

Até que um dia se sabe.

Eu hoje sei. O que sei já não é isso, não é que vamos todos morrer um dia, está claro. O que agora eu sei é que eu mesmo – não os outros – vou morrer.

Eu não ia morrer. Dentro das minhas preocupações, planos, objectivos, nada, nenhum deles tropeçava na esquelética morte ceifeira. Wittgenstein, nos “Últimos Escritos sobre a Filosofia da Psicologia”, escreveu: “Crê o cão que o seu dono está à porta , ou sabe-o?” O itálico é de Wittgenstein (ou de algum dos seus alunos, que teve um arrepio com a sua inflexão de voz, arrepio que traduziu nesse itálico). Eu, sem nenhum arrepio, sei quem está à porta e ladro.

Deixem-me esclarecer. Ladro, não uivo.

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Me and Earl and the Dying Girl

Isto de estar a ficar velho não é necessariamente uma má notícia. Não o é certamente, quando essa sensação de envelhecimento resulta do facto de um gajo, ainda que com evidentes sintomas de Peter Pan, perceber que, finalmente, anda a aprender, e muito, com os mais novos. Não pensem que há aqui ponta de sobranceria ou paternalismo. Não, senhor, longe de mim a ideia ou o preconceito de vetar à partida qualquer proposta cultural vinda de mãos juvenis. Mas, sendo eu um rapaz (e eu dar-lhe no anacrónico “rapaz”) que sempre se habituou a contar com outro tipo de fontes – enfim, daquelas que, pelo saber acumulado que trazem consigo, só por si são um selo de qualidade do que quer que recomendem -, não é à toa que me disponho, aqui em casa, a passar duas horas com um filme de que nada sei, só porque o Zé, cá de casa também, com a humildade e reverência dos seus dezoito anos, me sugeriu isso mesmo, lá pelas palavras dele: que o filme seria para mim uma magnífica companhia apesar eu de nada saber sobre ele. Contra a recomendação do Zé tinha quase tudo: na ficha do filme, não reconheci, do realizador aos atores e argumentistas, uma figura que me fosse minimamente familiar; da sinopse, retirei apenas vaguíssimas referências a um pueril universo de high school numa obscura cidadezinha americana; da crítica supostamente bem pensante, nem uma linha fora ainda escrita sobre o filme. A favor, verdade se diga, havia o benefício da dúvida de o bom gosto e sensibilidade do Zé já me terem valido uma boa meia dúzia de descobertas musicais nos últimos dois anos. E havia Sundance, pois claro. O filme tinha vindo de Sundance diretamente para os canais de cabo, o que, nestes tempos de definhamento das salas de cinema, é uma referência a ter em conta. Sundance, marca indie, baixo orçamento, e a promessa de irreverência de um título como Me and Earl and the Dying Girl.

Lá acabei por seguir a recomendação do Zé. E, graças à insistência do rapaz (ora até que enfim que aprendo a usar corretamente a palavra), ganhei um filme de culto indie para os próximos anos. Me and Earl and the Dying Girl. Do título e dos desconhecidos Alfonso Gomez-Rejon (o realizador e argumentista, por sinal um quarentão com sinais de Peter Pan como este vosso amigo que vos escreve), Thomas Mann (era o que faltava que, com um nome como este, o puto não tivesse talento de sobra), Olivia Cooke (a Dying Girl) e RJ Cyler (Earl) já não me esqueço.

Mas o meu maior privilégio é o de o Zé não ser o único jovem cá de casa. Há mais quatro. Já imaginaram bem as descobertas que o futuro me reserva?

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Fujam para Samarra!

Estes dentes, estas unhas não são as dos irmãos Marx

Por onde anda a morte? Disfarçada no capachinho de Trump, na rasteira solidez de Putin? Que morte rumina na paz de cemitério da geringonça? A morte será ainda a velha morte, a senhora de branco que, contou ele, uma noite visitou Álvaro Cunhal e logo foi embora? Ou anda por aí a nova morte, a saltitar em discursos de género, em tiroteios niilistas? Será fracturante a nova morte?

Antigamente, disse Boris Karloff, sabíamos que os Irmãos Marx nos faziam rir, Greta Garbo nos fazia chorar e Orlok nos fazia gritar. De medo, bem entendido. Foi o cinema que desenhou a silhueta de Orlok, no “Nosferatu” do alemão Murnau. Orlok saía do caixão pela calada da noite. Vinha, como sempre vêm os vampiros, chupar o sangue fresco da manada. Esse velho monstro, antecâmara da morte, tinha uma moral. Estava do lado do mal. Ir ao cinema era melhor do que ir à catequese: entrava-se cheio de dúvidas na sala escura e saía-se de lá, alma limpa, carregado de certezas. John Wayne era o bem, Nosferatu e o monstro de Frankenstein eram o mal.

Toda a noiva encontra sempre o seu monstro

O velho Boris Karloff confirma. Vejam “Targets”, filme de dois tostões que fez para Peter Bogdanovich, nos anos 60. Karloff regressa à pele que melhor lhe serve, a pele de Orlok. Já não é um vampiro, é agora essa outra forma de vampiro a que chamamos actor. Traz no rosto, que já foi rosto de Frankenstein, a marca da morte. Não admira, os 80 anos dele vêm acompanhados por um digníssimo enfisema e uma generosa artrite reumatóide. Mal se tem em pé e, quando não filma, sentam-no numa cadeira de rodas. Ouçam como Karloff respira: já só tem metade de um pulmão e, entre cenas, é preciso bombar-lhe oxigénio. Resume no seu corpo um século de filmes de terror e monstros e conta a dois jovens casais meio hippies esta história.

Um rico mercador de Bagdad mandou o servo ao mercado. No mercado o servo é empurrado, vira-se e vê a senhora de branco de Cunhal. É a morte, a fazer-lhe um gesto ameaçador. Foge, aterrado, e diz ao mercador: “Senhor, a morte ameaçou-me no mercado. Dá-me um cavalo para ir esconder-me em Samarra, onde a morte não me encontre.” O senhor assim faz. Vai depois falar à intempestiva morte: “Porque ameaçaste o meu servo?” A morte nega: “Não o ameacei. O meu gesto era de surpresa. Espantou-me vê-lo em Bagdad, por ter marcado um encontro com ele, esta noite, em Samarra.”

E hoje, fugimos para Samarra ou para Bagdad?

Boris Karloff, nesta altura, já se andava a esconder em Samarra

Publicado no Expresso, no último sábado de Fevereiro
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