Os discos e a tuberculose

Foto: Paul Heartfield

A história vem toda, e muito bem contada, aqui, na New Statestman, e em muito bom inglês. Resumo na branda língua portuguesa, aconselhando leitura do original. Na velha União Soviética, depois da II Guerra, com Estaline e depois de Estaline, até 1964, quem gostasse de ouvir música que não fosse clássica ou folclórica, passava um mau bocado. Não havia, e não era respeitável, nem responsável ouvir-se o Rock Around the Clock para dar uma bom exemplo. Esse melómanos desavindos eram mal vistos, por causa do gosto burguês e pelo seu interesse pelos padrões ocidentais, fosse jazz, fosse rock. Ou mesmo pelo seu vivamente desaconselhável apreço por formas underground de música russa.

O que fazer?, já perguntava Lenine. O que fazer?, começaram a perguntar estes homens e mulheres que queriam divertir-se e dançar. Foi então que alguém criou uma traquitana, pesadona como o raio, que era capaz de gravar discos como se gravavam no vinil. Mas gravar em que suporte? E foi então, tal como se conta no artigo que vos recomendo, que alguém descobriu que se podia gravar em cima de radiografias. Os hospitais deitavam fora, ao fim de um ano as radiografias e esse exército musical das sombras apanhava-as e, depois de as cortar em forma de disco, gravava em cima e a 78 rpm tudo o que fosse música proibida. Parece que o som era o mesmo de um ovo a estrelar ou de uma agulha a raspar em areia, mas desde que se ouvisse e desse para dançar…

Era tudo traficado, tudo clandestino, dava prisão, mas o prazer desmedido que tudo aquilo dava era muito superior à voz da proibição. Para que nada nem ninguém, nem mesmo um machado corte a raiz ao prazer tudo serve o anseio humano, até a radiografia de uma fractura ou de uma tuberculose.

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Beijos

 

 

 

Fui buscar este velho texto que estava enterrado há cinco anos no Escrever é Triste. É para quem ama Clint Eastwood e já viu “Um Mundo Perfeito” e é para quem, amando muito uma mulher, a beija no rabo.

Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfiado no fato de Casper, o fantasminha feliz. Butch ainda tenta uma digressão distractiva: “Quem?” Mas a curiosidade de Buzz é obstinada e infantil: “A senhora que nos cozinhou os hamburgers…” E como é que se explica a uma criança quando é que um homem ama uma mulher.Butch e Buzz saíram a correr de uma espelunca de estrada, como a correr saem de todos os lugares em que entram depois de um pequeno golpe de destino os ter juntado.

Butch, presidiário em fuga, talvez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se soubesse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sempre que é preciso.

Buzz tem oito anos e nunca comeu algodão doce. A mãe, seca e solitária testemunha de Jeová, não consente e também não o deixa andar na montanha russa. Buzz dormia quando Butch e o criminoso que com ele fugiu da prisão lhe entraram em casa. Corre mal a invasão, como correrá tudo mal neste filme que de tudo correr tão mal tira a sua perfeição. Os dois bandidos levam-no, menino e de cuecas, como refém.

Buzz descobre em Butch o pai que nunca teve. O criminoso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu companheiro de fuga. Veste-o e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe dessem tempo, faria do miúdo um homem… E corrijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a conduzir um carro e a meter travões a fundo, a ter confiança no pequeníssimo pirilau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incorrectíssimo , é “A Perfect World” e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.

Quando já quase tudo ensinou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um portentoso Kevin Costner, descobre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apagou. E Eileen, a senhora que cozinha hamburguers, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter apetites que nem a mais abençoada cozinha sacia.

Mandaram o miúdo apedrejar, lá fora, o que lhe apetecesse apedrejar. E aqui voltamos à obstinada curiosidade infantil do primeiro parágrafo: Buzz espreita e vê Butch beijar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os inocentes olhos de Buzz vêem, já Kevin Costner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vistos, páram estarrecidos.

Beijaste-a porquê?” Porque sabe bem, porque um tipo se sente bem, é o que Butch tenta explicar ao miúdo. “Mas beijaste-lhe o rabo, hã”, insiste, científico, o garoto, “Tu amas a senhora?” E, de repente, o adulto Butch percebe que está salvo: “Claro que a amo. Beijei-lhe o rabo, não beijei?!” Num mundo perfeito só devia ser adulto quem nunca perdesse uns inocentes olhos de criança.

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O enxovalho

Richard Dreyfuss é um choramingas, um cry-baby. Vi-o lavado em lágrimas na televisão irlandesa. Mas permitam-me que primeiro invective os portugueses. Temos a mania de que somos desenrascados, que o improviso para o português é como limpar o cu a meninos. Ora, apetece-me é mandar os portugueses falar com Spielberg. Começou a filmar “Jaws” e não tinha ainda guião acabado, nem tinha actores e – Jesus, Maria, José – nem tinha sequer tubarão. Um filho de portugueses, Joe “efeitos especiais” Alves, conta que tinham três tubarões mecânicos. Mexiam-se bem em terra seca, mas mal entravam na água, dava-lhes a paralítica.

Dreyfuss lembra-se de que nos walkie-talkies só se ouvia uma irritante voz distorcida a lamentar “corta, o tubarão avariou”. Preparavam-se e “corta, o tubarão avariou”. Houve um dia em que, tudo a postos no Orca, o barco que persegue o tubarão, os walkie-talkies rejubilaram: “O tubarão funciona, o tubarão funciona!” Actores em pé, todos nas marcações e logo a voz distorcida: “barco a afundar-se, barco ao fundo, abandonar barco.” Spielberg gritava ordens para salvarem primeiro os actores, mas o operador de som, Nagra nos braços levantados por cima da cabeça, só dizia: “Fuck the actors, salvem mas é o som.” Óbvio, “Jaws” foi o êxito que qualquer chinês sabe.

Agora, que de desenrascanço estamos falados, e nem o presidente Marcelo virá dizer que é idiossincrático traço nacional, queria falar de homens, dessa enfronhada camaradagem que desaba sobre alguns de nós e que as mulheres não conseguem compreender. Vejam “Jaws”. Estão três homens num bote à espera do tubarão. Robert Shaw conta-lhes como os japoneses afundaram o cruzador em que ia e como os tubarões fizeram dos marinheiros americanos um sangrento almoço festivo. Estabelece-se uma eléctrica empatia masculina e mostram uns aos outros cicatrizes de aventuras. Bebem, riem, cantam. As personagens de Shaw e Dreyfuss superam, por fim, a brutal rivalidade de classe que até aí levava Shaw a humilhar Dreyfuss. A graça é que essa rivalidade era real fora do filme. Shaw chamava-lhe “punk”, sem experiência de palco. Iam para uma cena, e ele segredava-lhe “atenção aos teus maneirismos”, arrasando Dreyfuss. Tanto enxovalho e foi a lembrar-se de Shaw que vi Dreyfuss feito Maria Madalena na televisão irlandesa. Para a semana conto porquê.

Publicado no Expresso no sábado, dia 29 de Julho
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Sam Shepard

Podia ficar a vida inteira a olhar para ele em The Right Stuff. Deixem-me dizer em abono da verdade: a primeira vez que um homem pôs os pés na lua foi quase no meu dia de anos, em 1969. Armstrong pisou o chão lunar, dois dias depois a minha mãe fez anos e logo a seguir fiz eu 16. Dancei toda a noite, numa festa no meu quintal.

Desenvolvi, por isso, um fascínio pela lua e pela profissão de astronauta. Mas, depois de ver Sam Shepard em The Right Stuff, nunca mais quis ir à lua. Afinal, o que de mais viril há é ficar em terra e só subir ao céu, somewhere among the clouds above, quando não há ninguém senão tu para me veres.

O que é que há de viril em Sam Shepard? É pugilista? Marca golos? Conduz automóveis? Não sei se Sam faz alguma destas coisas. Só sei que, além de, as he said, «ficar imóvel meia-hora fixando o deserto», Sam Shepard faz o que há de mais viril no mundo, escreve: «Em Rapid City, no Dakota do Sul, a minha mãe dava-me cubos de gelo embrulhados em guardanapos para eu chupar. Estavam a rebentar-me os dentes e o gelo adormecia as gengivas.»

Morreu ontem. Já disse o modelo de virilidade que ele era. Mas tenho de homenagear outra das suas virtudes: era um homem lindíssimo.

3:30 da manhã

será um galo
ou uma mulher gritando na distância

será o céu negro da noite profunda
ou o quase azul-escuro dentro da madrugada

será um quarto de motel
ou a casa de alguém

será o meu corpo vivo
ou morto

será o Texas
ou Berlim-Oeste

afinal
que horas são

Sam Shepard, Crónicas Americanas
trad José Vieira de Lima
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Jeanne Moreau

Falta à Europa um imaginário europeu. Mas o imaginário europeu, no século do cinema, foi sobretudo um vulcão sem actividade. Por vezes, uma erupção. Marlene Dietrich quando foi anjo azul. Brigitte Bardot quando Vadim, que talvez fosse Deus, a criou. As italianas. A Anna Magnani de Rossellini e Roma, Cidade Aberta; Silvana Mangano, que o meu sogro ia ver ao cinema de bairro; a Loren e a Cardinale, que gostaríamos de ter visto onde mais ninguém nos visse.

Jeanne Moreau, que hoje morreu, podia ter inaugurado um imaginário de modernidade. Um imaginário ao mesmo tempo transgressor e lírico. Um imaginário amoroso sem servos ou servas, sem senhores ou senhoras. Um imaginário de tensões e contradições, que tanto afirma o corpo como o espírito. Num só filme mítico, “Jules et Jim”, com uma personagem que nem entra no título, Jeanne Moreau deu-nos tudo isso como mais nenhuma mulher ou homem o terá conseguido no cinema europeu. Na boca, no olhar, nos gestos dela irrompe uma forma de amar europeia. Que o cinema que veio depois, quelle domagenão conseguiu continuar. Deixem-me lembrar esse filme, essa lição de educação sentimental a que Jeanne Moreau deu corpo. Não encontro melhor forma de me despedir dela.

Ménage à trois

A mulher americana começara a tomar a pílula havia quatro anos, faltavam outros quatro para que Maio de 68 pusesse De Gaulle com as calças a arder. Em 1964, Truffaut filmava “Jules e Jim”, história de um ménage à trois, gentil e pudico como todos os ménages à trois.

Em 1964, herdeiro mal lavado dos beatnicks Ginsberg e Kerouac, o movimento hippie começava a sua peregrinação pelos torcidos trilhos do amor livre, cultivando abundantes formas de promiscuidade física, sexual e intelectual. Muita lama, muita cama ou fosse onde fosse e muita contracultura. Mas o filme de Truffaut, como o próprio Truffaut, está nos antípodas dessa vaga de sexualidade exsudante, se me autorizam o transpirado qualificativo.

Truffaut gostava muito de um autor velhinho, Henri-Pierre Roché, que escrevera, aos 64 anos, os seus primeiros livros de sucesso. Um deles foi “Jules e Jim”. Trabalharam juntos na adaptação, mas aconteceu a Henri-Pierre o que acontece a todos os velhinhos: morreu. E Truffaut levou o romance para o que era a sua forma subtil de ver o mundo: estetização, elipse, refinadas sugestões, uma lírica educação sentimental.

Dois amigos, um francês e um alemão, ambos de fina cultura literária, livres de preconceitos como só se pode sê-lo quando o mundo os tem bem arreigados e firmes, partilham, na Belle Époque, o amor da Catherine, que é Jeanne Moreau. Todas as mulheres são mais bonitas do que Jeanne Moreau e, no entanto, nunca um rosto de mulher foi mais bonito do que o de Jeanne Moreau em “Jules e Jim”, nunca houve mulher com gestos tão graciosos e suspensos. Por causa dela pensamos que devia ser normal haver apenas ménages à trois e, entre cigarros e cognacs, passarem dois homens muitas noites a discutir a mulher que partilham, descobrindo que cada um ama uma diferente parte dela.

Era o que faríamos se fôssemos franceses e amigos de Henri-Pierre Roché. No pré-histórico começo do século XX, ele defendeu o que chamou “poligamia experimental”. Estou a exagerar: talvez só a tenha praticado. Passava as amadas ao seu melhor amigo e sustentou, ao mesmo tempo, quatro lares.

A tudo isso alude “Jules e Jim”. Mas, ou Truffaut não fosse Truffaut, nunca o sublinha. Terá Truffaut sido infiel ao velhinho autor que em vida amara?

Turbilhão de vida

“Jules et Jim” é o filme em que François Truffaut se deu ao único verdadeiro luxo que a vida de um homem pode ter, o de ser, ao mesmo tempo, fiel e infiel. A quem? Não interessa? Interessa, sim. Já lá vamos.

No filme, inspirado, já disse, no livro autobiográfico de Henri-Pierre Roché, uma mulher ama em simultâneo dois homens, com o sossegado e emotivo consentimento dos três. Mas em “Jules et Jim”, os dois homens, um alemão e outro francês, são só silhuetas do turbilhão que foram em vida.

Jim é Henri-Pierre, o escritor, amigo da vanguarda parisiense, que convenceu Gertrud Stein a comprar as primeiras telas de Picasso. Inventou, se quiserem, o cubismo, metendo dólares nas bocas dos artistas, para lhes dar músculo ao braço que pinta. Foi o primeiro francês a ler “A Interpretação dos Sonhos” de Freud e escreveu-lhe até, a contar um sonho em que a própria mãe o violava.

Fora Franz Hessel, o Jules do filme, a revelar Freud a Jim. Era amigo de Walter Benjamin, com quem traduziu Proust para o alemão. Apaixonado pelos franceses, traduziu também Baudelaire e Stendhal. A estes Jules e Jim reais unia-os tanto a amorosa partilha de uma assembleia de mulheres, como a exaltada vivência da literatura e das artes. Não era lá serem cultos, era viverem aquilo: os livros, as telas, os espectáculos iam directos à veia. A actual ideia de uma cultura desvirilizada, paga por secretarias de Estado, ser-lhes-ia abominável. Neles, a cultura tinha de ser uma forma de tesão.

“Jules et Jim” não será completamente fiel a estes magníficos carroceiros das artes. Por ser de Truffaut, só é fiel a uma mulher. Jeanne Moreau, ou melhor, a boca, olhos, rosto, voz e cabelos gamam o filme e tomam conta dos nossos olhos.

Truffaut soube por carta que, ao filmar assim Jeanne Moreau, fora afinal fidelíssimo. A carta assinava-a uma desconhecida Helen Hessel, cujos 75 anos eram o que restava da mulher real amada pelos já falecidos Jules e Jim. Helen correra a ver o filme e, na sala escuríssima, vira “ressuscitar o que tinha vivido cegamente”. Perguntou a Truffaut: “Que afinidade o iluminou ao ponto de revelar o essencial das nossas reacções íntimas?” Há perguntas que valem mil elogios. E, hoje mais do que nunca, é da mais inteira justiça dizer que vem de Jeanne Moreau essa luminosa afinidade.

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Pé no pedal e mordam-na

 

 

Podia vir aqui queixar-me e dizer que o Escrever É Triste está a agonizar, mas se calhar é só do Verão e um dia destes voltam em força os Tristes todos com posts fabulosos. A sério, eu acho que depois de ver a coragem, o bom humor, a atitude positiva e marcelo-rebelista de Eliane Rodrigues, pianista brasileira, atrevo-me lá eu a queixar-me.

Vejam estes oito minutos de surpresas e deixem-se lá dessa coisa de “ah, eu atiro-me à vida!” Não se lhe atirem, que não chega. Pé no pedal e mordam-na, que é o que a vida quer, que a comam.

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A praia deserta

Não, desta vez não se atrevam a espetar o dedo no peito da minha subjectividade. É estarrecedor de objectivo: tive um fim de adolescência de praia deserta. Privilégios coloniais. Das terras do fim do mundo, António Lobo Antunes escrevia cartas de amor e guerra para que eu andasse de caiaque entre os mangais, a meio caminho entre Luanda Sul e a foz do dolente Kwanza.

 Antoine Doinel, o herói recalcitrante de “400 Coups”, filme de Truffaut, foge da casa de correcção e molha as calças numa correria louca pela praia de Villers-sur-Mer, na fímbria normanda da França. Antoine só não morre gelado por lhe ferver no peito o amor a Balzac.  Pouco amor é lá agora amor! Fervia-me também no peito o desalmado amor a um poema, a um filme. Enquanto me diziam que em Portugal havia filas de gente nas arribas à espera de Sebastião, eu esperava, nesse Verão colonial, que começou em 69 e acabou em 70, que Ursula Andress emergisse venusiana, com aquele empolgante bikini 007, mais castanho navajo white do que amarelo caqui.

Deixe-me, leitor, abraçá-lo e escorregar por si abaixo em chorada confissão: pobre a vida humana que não tem um filme ou romance de peito a aquecê-la! Mas mais pobre ainda é o livro lido por quem não tem uma vida a ferver-lhe nas veias.

Foi nessas praias, a que nunca chegou Ursula Andress, que livros e filmes se me entranharam na alma decotada, mas a escaldar, que então tinha. Misturavam-se com as noites de fogueiras cantadas a somos filhos da madrugada pelo bando católico progressista a que pertencia, a fresca sede de amor a fazer com que no estreito banco onde jamais caberia um, se encaixasse o desejo equilibrista de dois. Obrigado, bom Deus, pelo catolicismo tropical e por tão circenses pecados.

Fim de confissão. Recomponho-me. O que lhe queria dizer, estimado leitor, é que a emoção é o sangue da arte. Saboreie a beleza – a beleza da praia de Thomas Mann revista por Visconti; a beleza da praia em que o louco Pierrot e Anna Karina se desenterram da areia; a beleza da praia que os helicópteros de Coppola enchem de Valquírias e napalm. E tenha medo – a insubstituível experiência estética anda ameaçada. A esquerda e a direita sempre quiseram pô-la de serventia. A teoria académica, de tão correctiva, quer, sôfrega, domesticá-la.  Mil vezes a praia deserta.

Publicado no Expresso, sábado, dia 22 de Julho

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Haja Livros

A vida de um editor não é uma vida regalada, um festim de Babette, cumulado de prazeres. Mas é uma vida com sabores. Ali em cima, na imagem, estão os 22 clássicos que eu já publiquei na Guerra e Paz editores e o vigésimo terceiro que vem a caminho. Descobrir que de 22, 14 fazem parte do Plano Nacional de Leitura sabe a cereja em cima do bolo. (Que lindos que os livros estão, Ilídio!)

Não deixemos os nossos miúdos perderem a paixão da leitura. Com ela é que vem, por junto, a paixão da aventura e a paixão do conhecimento. E não se esqueçam, foi a morder no fruto da árvore do conhecimento que saímos da pasmaceira do paraíso. Haja Deus. E haja Livros.

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O Verão é Epicur

Está nas bancas. Saiu quando eu estava de férias e ainda não a tinha trazido aqui. É a revista EPICUR, de Verão, com uma capa do pintor José Guimarães.

O que faz da EPICUR uma revista ainda mais especial é que ela é quase uma revista Escrever é Triste. O Triste Pedro Marta Santos escreve e dirige a revista e nela escrevem a Eugénia Triste de Vasconcellos e este vosso Tristíssimo Triste.

Já estão a ler? O quê, ainda não compraram? Não gastem dinheiro, não, e depois queixem-se que o Fisco vos vai às poupanças.

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Nunca saí do liceu

Se a vida fizesse sentido, não havia filmes. Nem livros. Não sabemos onde moramos e, por vezes, um filme ou um livro dão-nos a impressão de estarmos em casa. Os filmes e os livros de que gosto são os de homens ou mulheres perdidos. Gente que não sabe encontrar o caminho para casa ou nem sequer sabe já o que seja uma casa.

É fácil achar que a humanidade é estúpida. Uma coisa é dizê-lo com doçura e inclusão, outra coisa é dizê-lo com ressentimento e misantropia. O mais misantropo dos escritores, J. D. Salinger, escondeu-se do mundo literário na adorável pasmaceira de Cornish, na Nova Inglaterra. Autor de “The Catcher in the Rye”, fez o que Holden Caulfield, herói desse livro, prometera: foi para uma “pequena cabana com a massa que ganhei, viver lá o resto da vida”, para não ser obrigado a ter “a treta de conversas estúpidas com ninguém”. E nem é verdade: Salinger falava com os vizinhos, ia ao supermercado e os estudantes de Cornish vinham a sua casa ver filmes que ele projectava em 16 mm.

Alguns dos melhores espíritos de Hollywood tentaram seduzi-lo. O produtor David O. Selznick e Billy Wilder queriam fazer de “Catcher” um filme. A imoralidade juvenil do herói do romance e a sua descarada rejeição da vida adulta cairiam como mel nessa sopa dos anos 50 de que Nick Ray tirou o “Rebel Without a Cause” e Elia Kazan o “East of Eden”.

Aliás, Elia Kazan também falou com ele. Disse-lhe que o “Catcher” era romance para um filme e, já sou eu a inventar, que James Dean daria um estarrecedor Holden Caulfield, o herói do livro. Salinger respondeu que nem era bem por ele: “Receio é que Holden não vá gostar.” E lembrou a Kazan a tirada ululante de Holden, logo no começo do romance: “Se há alguma coisa que eu odeio, são os filmes.”

Salinger tinha as suas razões, a começar pela adaptação em que Hollywood enterrara viva uma história sua, mas escondeu-se atrás de Holden Caulfield. Talvez para dar razão à futura boutade de Norman Mailer: “Estarei sozinho a achar Salinger o nosso maior espírito que ficou para sempre no liceu?”

Também o melhor cinema dos anos 50 nunca saiu do liceu – ficar-lhe-iam bem as histórias de Salinger, cheias de palavras da rua e personagens que pisam com desconforto um mundo que não é o seu. Já vivo da nostalgia do que nunca aconteceu: que pasmoso Holden Caulfield não tirou Kazan de James Dean!

Publicado no Expresso, sábado, dia 14 de Julho

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Abarim, Abarim

Com Manuel António Pina

ABARIM, ABARIM

Abarim, Abarim,
do alto do teu silêncio
vi a terra prometida:
passava de manhã para o trabalho
pois acreditava no suor do rosto. E regressava
ao fim da tarde, a casa,
pois tinha asas como os anjos.
Sei de onde vêm as asas e para que servem, e
não é porque de Nebo se vê o mundo,
é porque também eu sou uns grandes olhos que em tudo isto há,
e mil poemas meus foram escritos por outros.
Quando os dinossauros passeavam na terra,
uns tanto queriam proteger as crias –
neste rasto de sonho e pó de estrelas
a que chamamos cronologia linear –
que nasceram escudos da sua carne,
nomeamo-los asas,
e debaixo delas se aninhou a fragilidade e gerou a força.
Um dos nomes de Deus é Abir.
Abir é só uma pluma,
uma pena de asa, e do Verbo dessa leveza se fez o bíblico O Poderoso,
porque o amor é Poder e este é o primeiro atributo divino:
a asa do amor cobre todo o mal feito e por fazer e o redime,
e faz de nós homens à Sua imagem: escudo e asa.
O efeito secundário da asa é o voo.
E o terciário, o tamanho.
Assim, quando veio a destruição,
os grandes répteis caíram de orgulho e solidão.

Para diante, em cada manhã,
de volta, em cada tarde, vi a terra prometida.
E o senhor das abelhas por entre os senhores das moscas,
senhor das correlações com significado
por entre o caos,
senhor da ordem, da natureza em língua e mel,
armado, protector e protegido, amado,
a polinizar as horas.
Vi-o quando caminhava, e quando trabalhava,
quando se sentava
e se deitava, quando lia, ria e falava
e eu sonhava que era meu –
terra prometida, quem te prometeu?

Bem sei, logo do
Genesis e até último buraco negro, o primeiro imperativo repete-se:
Não tenhas medo, Eu sou o teu escudo. Mas.
– Abarim, Abarim, e agora, quem sou eu?
– Dabar.

 

 

Abarim: cadeia montanhosa de Moab, de onde, no seu ponto mais alto, Pisgah, no monte Nebo, Moisés avistou a Terra Prometida
Abir: O Poderoso, pena.
Dabar: palavra
Nebo: Monte de cujo cume (Pisgah) Moisés avistou a Terra Prometida
“Eu sou uns grandes olhos que em tudo isto há” Manuel António Pina
“Não tenhas medo, Eu sou o teu escudo”  Genesis, 15:1
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Cheio de céu e cheio de espaço

Anteontem, quando recebi a notícia que o João tinha partido pela manhã, liguei-lhe. O telemóvel tocou, tocou até a chamada ir parar ao voice mail. Ouvi a voz do João, rouca como sempre foi rouca, a pedir para deixar uma mensagem. Deixei. Não sei para aonde  ele foi mas, claramente, esqueceu-se do telemóvel; ou então, onde está, a rede é uma merda.

Quando hoje ouvia o Padre falar do Lázaro, e de nos encontramos todos na outra vida, e de outras coisas que se ouvem em missas de requiem, afiançando que ele estaria lá no meio dos anjos, vivo e junto aos outros mortos todos, devia-lhe ter perguntado se não havia nada que ele pudesse fazer a propósito da merda da rede. Que tal dar uma palavrinha ao Homem… ou ao Filho do Homem? É que o João saiu à pressa e há coisas que ficaram por dizer. Dava jeito que a rede funcionasse, lá para aonde ele foi.

O João nasceu de uma mãe muito doce. Também ele era muito doce. O João cresceu no meio de amigos especiais: ruidosos, excessivos, dados ao impropério e à galhofa. Também ele era assim. E cresceu naquele nosso bairro, cheio de céu e cheio de espaço. Também o João era assim, cheio de céu e cheio de espaço.

 

 

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Pagou-lhe uma reconstrução dentária

Uma festa de Joan Crawford. Talvez haja mais homens do que mulheres.

Ainda não se tinha inventado o telemóvel e já a actriz Joan Crawford tinha 26 telefones em casa. Ainda não se inventara o GPS, e já Joan usava sininhos nos chinelos para que os criados soubessem sempre onde estava, na sua estarrecedora mansão.

Dirão que a nostalgia faz de mim o idiota da subjectividade. Porém, lendo os jornais da época, vemos que Hollywood não era a parolice coberta a dólares que alguns chutam para canto. Nem falo dos anos em que Stravinski se cruzava com Katharine Hepburn, Edith Stilwell metia um dedo de conversa em Gregory Peck, Thomas Mann observava Cukor e Brecht não falava com ninguém porque toda a gente só tinha ouvidos para Aldous Huxley.

Era a Hollywood cheia de refugiados dos anos 30. Mas venham a 1947, ao Le Pavillon. Joan Crawford dá uma festa em honra do dramaturgo Noël Coward. Conhecera-o em Londres e dissera, tradução livre: “É uterinamente repulsivo, como uma Mary Pickford inglesa.” Adoraram-se. Tanto que a sonsa imprensa inglesa lhes inventou um romance, apesar da rutilante homossexualidade de Coward.

Veio à festa Hollywood inteira, Irene Dunne, Marlene, Barbara Stanwyck, Gene Tierney, Tallulah Bankhead. Só mulheres? Não. Havia mesmo mais homens do que mulheres porque Crawford convidara os ex-amantes e ex-maridos.

Alguém perguntou a Coward o que achava da anfitriã. “Amo-a, embora esta noite só ainda lhe tenha visto o ombro esquerdo. Está sempre virada para o tipo que sentou à sua direita.”

À direita, Crawford tinha Greg Bautzer. Era um jovem advogado e andara à pancada com um tipo a quem ouvira dizer que Joan era “carne fácil”. O tipo partiu-lhe os dentes todos, mas Joan, comovida com o angelismo de Bautzer, pagou-lhe a reconstrução dentária. Descobrira que, mais do que advogado, ele era muito bom onde ela gostava que ele fosse muito bom. Só por isso, deu-lhe um fulgurante Cadillac.

Foi a provocadora Tallulah quem apresentou o novo amante de Joan a Coward. Fez como já antes fizera a Errol Flynn: “Vocês foram feitos um para o outro. Porque não vão foder para um sítio qualquer?” O angélico Bautzer ficou de cara à banda, mas Coward bem sabia o que Tallulah gastava: “Desculpa, querida, o cavalheiro tem os dentes grandes demais para o meu gosto.”

Os dois homens deram-se com a inocente intimidade de Deus com os anjos. Falaram, beberam e à despedida Coward rematou: “A despropósito, ainda continuo a achar que tem dentes a mais.”

Joan Crawford com Greg Bautzer. Terá ele dentes a mais?

Publicado no Expresso, sábado, dia 8 de Julho.

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Coisas que só no Verão

 

Dias de Verão, a mão na mão e um limão

a suspirar por laranjas, pois então.

Laranjas ou azuis, sem & nem Ão. Um simples E… e juntos estão.

Juntos como céu e nuvens, em botão

bóia em contraluz e, sem razão,

como um sol nascente em contramão

a luz afasta as nuvens qual lençol

e arredonda-se como um pão mole.  

E se a rima é pirosa a métrica então…é de ir afogar as mágoas ao balcão.

São tolices a rodo para a colecção

Sem aviso, como o verão, dia sim ou dia não,

canção sim… em dia não.

 

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Erros meus, amor ardente

Era muito alta. Estiquei-me para lhe dar dois canónicos beijos na face e, rotundo falhanço, beijei na boca a conselheira cultural de um país amigo. Já relatei aqui esse erro benigno. Mas estes seis anos de crónicas no EXPRESSO estão tintados por erros e beijos menos exaltantes.

Se toda a gente me perdoará ter trocado o músculo zigomático maior pelo músculo orbicular da boca de uma alta diplomata, já muitos narizes se torcem por ter metido os pés pelas mãos e ter situado tarso e metatarso na mão com que amparei o estiranço na manhosa calçada de Lisboa. Andei semanas a lamber o erro, a procurar que tarso e metatarso, carpo e metacarpo voltassem às posições originais, ginástica para que já não tenho idade.

Outro erro: a amada língua portuguesa. Em vez de a beijar, mordi-a. Quando era miúdo, para horror do senhor Mário, admirável barbeiro e mestre, que me mandava ler o “Província de Angola” em voz alta se não houvesse clientes, pronunciava sempre mal a palavra “fôlego” e ainda hoje sufoco se o termo vem à boca de uma frase. Descubro, enfim, que os erros ortográficos dos 8 e 9 anos voltam para fazer gato-sapato da minha provecta idade. No título de uma crónica, escrevi um erro, tão fulgurante como o relógio que brilha no pulso de um figurante romano em “Ben-Hur”. Escrevi “rectaguarda” com o rutilante “c” a clamar “erro burro”, como gritávamos nas aulas da professora Emília. Lembrei-me de “Pulp Fiction” e da tinta vermelha que Travolta põe no peito de Uma Thurman para não falhar a injecção no coração. A marca está lá, e num desses erros de continuidade em que os filmes são pródigos, desaparece logo que a agulha vai coração dentro. O coração de papel do EXPRESSO não é como o de Uma Thurman e o meu “c” não se apaga.

 Há três semanas esbarrei no erro cinéfilo. Disse que “High Noon” era um filme de William Wyler. E sustentei tese selecta, comparando-o a Hawks. A tese até era boa, o molho é que a azedou. Embora me desse jeito que fosse de Wyler, “High Noon” é, como sempre soube, de Fred Zinneman. Não me desculpo. O “erro burro” prova que a crónica é genuína. Agarrei-me a uma declaração de Hawks a chamar galinha tonta ao xerife que era Gary Cooper. Deixei-me tentar e o resto foi de rajada: com beijos na boca até perder o fôlego e uma tese de vanguarda sem proteger a retaguarda. Estou bem capaz de perdoar os erros que dou pelo bem que me sabem.

Publicado no Expresso a 1 de Julho

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