O miúdo que me ensinou a conversar

Foto do jornal Público, com a devida vénia

Olá Pedro, a última vez que falámos, há poucos dias, ligaste-me para a Guerra e Paz editores. Querias que eu fosse conversar contigo ao Hotel Babilónia. Fui e contei tudo, essa conversa que tivemos sem a ter tido, num blogue (o que tu gostavas de blogues! E do Escrever é Triste! E da Eugénia de Vasconcellos!), o blogue que já não conheceste da Guerra e Paz. E trago tudo para aqui.

Seja breve ou longa a passagem de alguém pelo mundo, que coisa mais bonita há do que fazer dessa passagem uma torrente de simpatia? Eu não gosto de entrevistas. Nunca gostei de responder a perguntas. Nasci num tempo em que fazer perguntas parecia ser sempre uma armadilha. Cresci, em duas ditaduras, uma de direita, outra de esquerda, com essa suspeita, a de que, no fim da linha, as minhas respostas acabariam por ser invocadas contra mim. Até que, um dia, já português e em Portugal, fui entrevistado pelo Pedro Rolo Duarte. Se ele era infinitamente mais novo do que eu! O que era outro factor de suspeita, claro: que pode querer um miúdo que não seja, numa entrevista, entalar um mais velho? Já não sei em que rádio ou quando foi. Mas foi nos anos 80. E a entrevista, fui eu descobrindo palavra a palavra, começou a converter-se num ameno cerimonial dirigido por um mestre-sala. O Pedro Rolo Duarte, vencendo a minha resistência, convertia, a cada pergunta, a cada frase, a cada sorriso ou riso franco, a entrevista numa conversa.

E foi assim que, depois, em sucessivas entrevistas, nos anos 90 e nestas duas décadas do século XXI, o Pedro Rolo Duarte me ensinou a conversar na rádio e na televisão. Porque é que era tão fácil com ele? Havia uma suavidade física, um ritmo saboroso e lento da fala, que eram só dele. Digamos que era um maravilhoso defeito que ele tinha. Quase sempre –  eu também! -, temos a virtuosa preocupação de ter razão quando falamos. O Pedro Rolo Duarte tinha o inenarrável defeito de ter prazer. Mas que defeito tão bonito, pensava eu. E à medida que a idade me tem vindo a pesar, fui pensando isto cada vez mais comovido.

Há poucos dias, o Pedro Rolo Duarte telefonou-me. Convidou-me para o Hotel Babilónia. Eu disse-lhe que iria, fosse a que hotel fosse, para que ele me convidasse. Quando cheguei, encontrei o estúdio da RDP vazio. Só, do Porto, a voz do João Gobern, aflita, cheia de desculpas pelo Pedro, que tinha nessa noite sido internado. E ficámos ali os dois a falar da Revolução de Outubro, os dois a tentarmos conversar como só o Pedro Rolo Duarte é capaz de conversar. Sei, hoje, que o Pedro é bem capaz de estar orgulhoso da água cristalina que foi essa conversa que, sem ainda o sabermos, mas temendo que o viesse a ser, já era um reconhecimento e uma homenagem ao amigo que ensinou várias gerações a conversar.

Era um miúdo. Tivesse lá a idade que tivesse, e era tão novo, o Pedro Rolo Duarte falava com a musicalidade de um miúdo, frases curtas, simples. Não eram perguntas, eram convites a sermos sinceros. Porque os ouvidos do Pedro amavam a sinceridade e a gentileza. Dirão que era jornalista, que fundou jornais, programas de televisão, que escreveu livros e fez rádio: é tudo verdade. Mais do que isso tudo, devemos-lhe todos a delicadeza de nos ter ensinado a conversar.

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Quatro mulheres que choram

Choram. São quatro mulheres. Não sabemos o que choram, mas sabemos que choram ali por volta de 1878. Podemos talvez presumir que choram a morte. Cabelos, pose, estatura parecem indicar que são de gerações muito próximas, irmãs, primas quem sabe, ou só amigas. Choram talvez a mãe, o pai.

Chorava-se assim no século XIX. Hoje, podemos chorar as mesmas lágrimas – água e cloreto de sódio, como cantou o poeta – mas não choramos já com esta coreografia tão composta, com esta nobre expressão pública do sofrimento, com estes lenços de linho, que a mão de mãe, a mão agora morta, bordou.

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Pedro Norton, um autor da Guerra e Paz

“Livro, Labirinto e Letras” é o novo blogue do novo site da minha editora, a Guerra e Paz. Escrevo lá todos os dias e hoje saiu-me esta prosa, que envolve os dois maravilhosos Tristes que são o Norton e a Eugénia.

Estava a ver a lista dos autores da Guerra e Paz e descobri um clamoroso erro. Reparo já essa injustiça: não consta, como devia constar, o nome de Pedro Norton. Ora sem Pedro Norton, a nossa esgotadíssima edição de Fernando Pessoa, “As Flores do Mal: absinto, ópio, tabaco e outros fumos” ou a nossa edição de “Tabacaria” em cinco línguas, seriam menos de metade daquilo que são.

Lembro que esses dois livros são edições limitadas e numeradas, ambas com capas em madeira, num desarrincanço imaginativo do meu designer gráfico, o Ilídio Vasco. Depois, no miolo, as fotografias de Pedro Norton são, no caso, de “Flores do Mal”, provocatórias, perversas, roçando-se numa decadência pungente que, imagino, atrai e repugna ao próprio fotógrafo e artista, sendo nessa brecha, nesse dilema entre a pureza perdida e a maldade assumida, que a nós, seus espectadores, nos dá prazer entretermo-nos a caçá-lo e a admirá-lo. Entretemo-nos a caçar o fotógrafo que ele é, bem entendido, mas caçamos também a conversa que as fotografias estabelecem com os textos de Fernando Pessoa, ou a forma como lhes viram as costas.

 Já na “Tabacaria”, o Pedro Norton rouba-nos esse divertimento e entretém-se ele a caçar a realidade da baixa pombalina onde Pessoa, ou Álvaro de Campos por Pessoa, terá escrito o poema que dá título a este livro. Norton, nesse caso, caça a realidade com uma rede difusa e a realidade, que é como a sardinha, não gosta de ser apanhada na rede e mexe-se muito. São os fugazes traços dessa agitação que, por vezes a descambar para a abstracção, se fixam nas fotografias, o que nos mostra como a realidade é, em boa verdade, lixada: está sempre em fuga, a uma velocidade de corredor jamaicano dos 100 metros, e é de uma luminosidade flashante (porventura flechante, também), toda feita de brilhos, pequeninos relâmpagos como pequeninos avecês nocturnos.

É por tudo isto que da “As Flores do Mal” de capa em madeira já não temos nem um exemplar e os que andam nos coleccionadores já se vendem a 500 euros. E é por isto que temos uma pequena lista de espera para os exemplares da “Tabacaria” que ainda nos vão chegando de devoluções de livrarias.

O que me leva a expressar um desejo e a dar-vos um conselho. Primeiro, o conselho: é da mesma família rara esta edição de “O Físico Prodigioso“, a ouro e pintura de Mariana Viana, que agora chega às livrarias. O melhor é comprarem já.

E agora, o meu desejo: quero muito juntar dois dos meus autores preferidos, o Pedro Norton e a Eugénia de Vasconcellos, numa edição sobre uma dos meus fantasmas, a Marilyn. Eles já sabem, mas mesmo que não soubessem não teriam como tirar o rabo do fogo. Quero uma edição ardente. Prometo que me deixo arder também.

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O Físico Prodigioso

Fora os seus méritos maiores e naturais, tem um pequeno mérito editorial: a envergadura.

Aberto, um e mais um e mais um e mais um, os quatro painéis deste livro chegam quase a um metro de comprimento, como podem adivinhar pela fotografia. Esta é a face interna da capa, com a belíssima pintura de Mariana Viana.

Esta é a face externa deste O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena. Texto integral, como seria escusado dizer, numa edição artesanal, desde a execução das quatro “pastas” douradas até à pintura das faces do miolo.

Eu estou orgulhoso. É um trabalho das quatro guerreiras e dos quatro guerreiros que comigo trabalham na Guerra e Paz. Servimos o talento de Jorge de Sena, que Isabel de Sena, sua filha, nos estimulou e autorizou a usar. Como servimos a beleza delicada da pintura de Mariana Viana e das 21 ilustrações que fez expressamente para esta edição.

Agora, só quero é que queiram ter este livro de um metro em vossa casa. Não se assustem, quando o não estiverem a ler, podem fechá-lo como se vê aqui abaixo.

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Aforismo surrealista XVI (*)

 

 

De acordo com as crónicas da época, Cristovão C. era fisicamente ateu. Quer isto dizer que mancava. De um mancar muito simétrico e filosófico.

Se Deus existisse todas as mulheres poriam ovos“. Eis a frase que repetia, religiosamente, todos os santos almoços na varanda da casa azul que construíra no centro geométrico do Atlântico. Eis a frase que, com o passar do tempo, se fizera um buraco muito roxo no xaile pio que era a consciência moral da sua mulher. “Há maior perfeição do que a de um ovoHá mais inteligência do que a de um útero com casca? Há mais pureza? Mais beleza? Mais cósmica higiene? Como queres tu que creia?”. E ela, carcomida de choque, tricotava com uma fúria que enchia de pavor os restos do cão.

Cristovão C., estava-se mesmo a ver, haveria de morrer de omelete.

 

(*) Como dizia o outro, o autêntico: “Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação”.

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Aforismo surrealista XV

 

 

Para grande irritação da vizinha de baixo, o cão de Louis V., um boiadeiro de Berna sem quaisquer complexos de classe, teimava em usar a pata direita gentilmente dobrada sob o sovaco. Alegava Natália G. (era o pseudónimo literário da vizinha de baixo) que a infame mania complicava de sobremaneira a vida social do prédio.

Certo dia de Inverno, de facto, deu-se o caso de morrer, pela tardinha, o Coronel K.. “Uma lagosta fulminante” garantira, sempre solícito, o veterinário. Ora, como sempre acontecia quando o Coronel morria, logo se juntou, mesmo em frente da porta giratória do “Au Pont Rouge”, uma turba alongada e analfabeta.

Louis V. e Natália G. evitaram cruzar-se nas escadas. E desde então, garantem os mujiques oculares sobrevivos, nunca mais se falaram.

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O obstetra de John Barrymore

O António,digo eu a toda a gente que me quer ouvir,
é o meu obstetra. Conhecemo-nos, não no consultório, mas nas salas de cinema de Tróia. Digo eu para facilitar. Estavam connosco a Antónia, minha mulher, de quem, por acaso, o António não é obstetra, que já bem basta que seja o meu.
E estavam o Pedro Bandeira Freire, o Pedro dos nossos corações, o Dinis Machado e a Dulce Cabrita, o José Navarro e o António Mendes Lopes, o Alfacinha, e bissextamente o Fernando Lopes, o Fernando Matos Silva, o Manuel Costa Silva, o José Cardoso Pires, a Teresa Maia Carmo, para não falar do António Escudeiro, dos jantares em Lisboa.
Mas o que eu quero dizer é que o António, cinéfilo, realizador dos primeiros video-clips (a começar nos do Sétima Legião), se tornou
num dos tipos mais competentes do mundo – eu sublinho, do mundo – na sua área clínica. E continua a ser meu amigo. De mim, que nem do meu bairro sou o melhor. Há coisas de que nos orgulhamos. Eu tenho orgulho no meu obstetra.

O obstetra de John Barrymore
Ao António Setúbal, “meu obstetra”

John Barrymore tinha três dons. Estava para Hollywood como a Rainha Isabel para a Inglaterra, adivinhava o futuro e sabia chorar. Era casado com a bela actriz Dolores Costello e ela engravidou. John já tinha uma filha, mas o seu sonho real era ter um filho varão. Eléctrico, mudava todos os dias de obstetra: queria o melhor para Dolores. E o melhor era o Professor Vruwink. Obrigou-o a visitar diariamente a mulher, apesar dos mil “não é preciso!” do médico.

Um dia chega a casa e vê-os a conversar descontraídos na sala. À saída, Vruwink diz-lhe: “Vê como está tudo bem!” “Está tudo bem de mais, meu filho da puta, não te quero voltar a ver aqui”, responde John, para espanto do médico. Entra e diz a Dolores: “Vais mudar de médico. Este tipo está apaixonado por ti e não admito que te volte a ver e a tocar.” Nos protestos e gritos de Dolores, “faltam sete semanas para o bebé nascer, não mudo de médico”, havia uma ligeira inflexão como numa peça de Marivaux, que logo o ouvido de John mordeu: “Não acredito, tu também estás apaixonada por ele.” Choveram paus e pedras, mas Dolores manteve o médico. Teve uma filha. Um ano depois, o casamento num inferno e Vruwink de novo como obstetra, tiveram um filho, para gáudio de John. A seguir, divorciaram-se. Tinta ainda fresca nos papéis do divórcio e não é que, para espanto de Hollywood, Dolores se casa com o Professor Vruwink?!

Garson Kanin convidou John a protagonizar “The Great Man Votes”. Fazia um alcoólico em risco de perder a custódia dos filhos. No final, John declamava um poema patriótico. A cena ficou óptima, mas John lembrou-se: “E se eu chorasse?” Kanin não queria, mas John insistiu e chorou. Um dilúvio. “Vamos repetir – disse John – isto é de mais.” A seguir, chorou uma lágrima pequenina, ligeira pausa e depois uma grossa. Virou-se para Kanin: “Posso fazer ao contrário, mas tem de fazer o travelling mais devagar.” Repetiram. Saiu primeiro a lágrima grossa e, gigantesco grande plano, a lenta lágrima pequenina e patriótica. Aplausos delirantes de todos, e logo John: “Isto não é talento de actor. É um truque. Como corar – e corou – ou mexer as orelhas – e mexeu as orelhas – mas em França há um tipo que toca a Marselhesa só com traques longos e puns breves. Isso já não consigo fazer.”

Publicado no Expresso, sábado, 11 de Novembro
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Como Ulisses

COMO ULISSES

Sentei-me nas ruínas da minha casa,
essa verdade externa do meu interno amor,
o testemunho em pedra de desejo e de vida.
À minha esquerda, à minha direita, caídos
mortos sem combate, amontoados,
os meu líricos clichés e soterrado
debaixo deles, dos sonhos, dos planos,
dos pequeninos actos de adoração,
soterrado, o maior dos clichés, o pior
dos clichés, o coração.

Com um manto púrpura diante dos olhos
levantarei de novo estas paredes.

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Songs of a Lost Time

Título : Words

Autor : Neil young.

Álbum:  Harvest, de 1972.

Quem diria,  foi o álbum mais vendido nesse ano.

É o último tema do álbum, com um sub-titulo interessante : between the lines of age…

cada  um  tire os significados que quiser…

Gosto da forma como começa. Um acorde que fica, e logo um piano na batida da bateria.

Depois os trabalhos das guitarras, onde as notas que não se tocam, os silêncios, contam tanto como as notas que soam.

A voz de Neil Young entra com a “slide guitar” de Ben Keith, e com a mudança de ritmo que marca de forma subtil o tema.

O refrão que se enche com as vozes dos antigos companheiros  Graham Nash e Stephen Stills:

“When I look through he window and out on the road

They are bringing me presents and saying hallo

Saying words….words….between the lines of age. “

E é logo no seguimento do primeiro refrão que começa despercebidamente o passeio da guitarra , o enorme passeio da guitarra de Neil, que se transforma pouco a pouco em solo, subindo de tom, até atingir um choro agudo (3.45…)

Algo de triste, melancólico, ou simplesmente a musica que fica deixando o tempo passar.

 

 

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ZEITZ MOCAA I ou E lá estava o William Kentridge…

 

Ia eu pelo ZEITZ MOCAA – Museum of Contemporary Art Africa (https://zeitzmocaa.museum/) a fora com o Honigod e, eis senão quando, dou de caras com um vídeo instalação do William Kentridge .

Digo-lhe: Já viste isto? Fotografa pah!

E ele, submisso, a custo, lá conseguiu fazer a fotografia que partilho convosco.

 

William Kentridge’s Horn (c) Honigod

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Micah P. Hinson, Musicbox Lisboa, 14 de Novembro 2017

Repesco este velho post para vos dizer que este rapaz, amanhã, estará aqui. Ide!

Se gosta de Neil Young, Bob Dylan, Johnny Cash, Woody Guthrie, do mais novinho e meio-francês Charles Pasi, de Amy Lavere e de Seasick Steve, dos Lucero, vai gostar deste sacana. Bem sei, sacana não é palavra que use, mas não me ocorre uma melhor e alguma coisa me diz que esta alma está convencida que não é flor que se cheire.

Porquê? Não, não é porque beba como se vivesse a Lei Seca, fume, ou enfie drogas pelos orifícios que entende. Isso é natural quando é natural. É uma daquelas coisas.

James Christopher Monger diz que ele é um rapaz problemático formado na linha dura do cristianismo e da cadeia, tudo metas cumpridas, droga, álcool, bancarrota e viver atrás das grades, antes dos vinte anos.

Parece-me muito razoável que tenha sido antes dos vinte, pelo menos tanto quanto o mais fundamentalista dos cristianismos andar de braço dado com a morte – é outro nome para destruição, para o infame pecado. É um par antitético. Também são estas cisões que desgraçam a gente e a faz criativa, ou as mata, ou dois em um. Desgraçam quer dizer, graçam: são uma Graça, uma Bênção. Uns Cristos crucificados em pequenino. Não parecem, pois não? mas são. Olhe, o meu Johnny Cash é um. Vê? Se não fossem eles como é que chorávamos os nossos desgostos profanos por aquilo que nos é mais sagrado? É preciso que alguém sofra para nos levar o sofrimento ao colo, quero dizer, consolo – não estamos sós. Não são é cruzes que se usem ao peito, usam-se no ipod. E é preciso alguém que sonhe. Tenha esperança e outras irracionalidades que embatem contra o mundo e não se desfazem.

E o que é isso dos vinte anos de álcool, droga, cadeia? Se começasse a ser o que é depois dos 30, num de repente, talvez houvesse alguma coisa aí. Assim não, é triste, é feliz, bom e mau, é previsível. É lógico, perverso, mas lógico. E por nós homens e por nossa salvação descem dos céus.

Os alquimistas medievais afirmaram: o que toca no céu tem as raízes no inferno. O que Micah P. Hinson deixa no palco está em trânsito entre o Texas, com o fundo em Memphis, e o futuro em Jerusalém Celeste.

Micah P. Hinson tem  quatro ou cinco álbuns e já passou por Portugal algumas vezes. Já sabe, saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Enjoy.

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fogo baço

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Afinal, o que querem os homens?

AFINAL, O QUE QUEREM OS HOMEMS?

Os quinze anos de tosse e afonia de Ida Bauer
mal geridos por Freud,
quem não gostaria, oh tanto, das atenções
impróprias do amigo do pai, Herr K., note-se,
também marido da amante de Herr B., o pai,
fizeram-no depois perguntar:
afinal, o que querem as mulheres?
Um homem quer mamas, cu, pernas,
não necessariamente por esta ordem
já que cada um tem a sua própria
combinação de acesso: sem desejo
não há amor que se sustente
ainda que o… chamemos-lhe desejo,
se mantenha de pé sem amor,
mas isso são questões para Herr K. e Herr B.
discutirem com Herr Freud.
E logo seguir, e por esta ordem,
o que quer um homem?
Um palmo de cara, personalidade agradável
e maternal, caracter, sim, mas só se for pouco,
as virtudes tendem a ser um estorvo na cama
ainda que possam dar jeito in times of trouble –
se um tipo for preso, ou Deus nos livre.
Com isto, no tempo, se constrói uma mulher, uma amante,
um qualquer objecto feminino útil.
Thanks, but no thanks.

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Aforismo surrealista XIV

 

 

Quando Leão B. (mais tarde Leão T.) entrou pela última vez com vida no parque Lisky sentiu uma dor imensa num dos aros dos óculos. Súbita, metálica, de um tartaruga muito vivo. Pragmático, limpou o ouvido esquerdo com a unha de um mujik esfomeado que por ali andava e lançou-se ao Mar Negro.

Diz um jornalista americano que assistiu à cena que Leão B. nadou para cima de dez dias sem nunca se esquecer de cofiar a barbicha entre cada duas braçadas. A viúva de um Marechal que foi feliz para sempre haveria, muitos anos mais tarde, numa roda de amigas, de asseverar exatamente o mesmo.

Lembraria ainda o jornalista pertinente que naquela época do ano o calendário era ainda Juliano e Leão B. chegou atrasado ao médico. Viria mesmo a morrer nos trópicos de uma série de complicações nos óculos.

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