Reset

RESET

Não há plano.
Não há sonho.
Não há futuro.
Só há agora:
de hora a hora
até o passado se desfaz.

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Vi-lhes a alma

Não podemos ser todos Sócrates, pensou David E. Kelley, o produtor de “Big Little Lies”, pequena mini-série ovo, com clara televisiva e gema cinematográfica protegidas por robusta casquinha social. Não vi melhor este ano.

Sócrates, o da Apologia, recusava falar do que falavam os grandes homens do seu tempo. Pedia-lhes que cuidassem da alma. Imagino-o na ágora, a desviar conversas, a encafifar interlocutores com perguntas risíveis, quando eles queriam falar sobre os grandes temas. Com licença de Eça, naquele tempo havia já Acácios e Pachecos.

Ah, os grandes temas! Os grandes temas são a selva amazónica da nossa ágora, o seu ponto de exclamação. Os grandes homens e mulheres deste tempo peroram sobre os grandes temas. Respeitemos-lhes a grandeza e sejamos de uma homérica injustiça: a ágora, jornais, revistas, rádios e televisão estão sobrepovoados de Acácios e Pachecos. Os próprios grandes temas já são acacianos e pachequianos. O nosso tempo não é socrático, o que algum Sócrates contemporâneo poderá nostalgicamente atestar. Sócrates era o não-especialista: prezava a sua ignorância. Com ironia, digamos. Fazia perguntas a Acácios e Pachecos, mas não os admirava. Hoje, Acácios e Pachecos vingam-se: da boca de nenhum se ouvirá um socrático “como nada sei, estou certo de não saber”.

David E. Kelley sabe que ninguém, neste tempo, pode ser um Sócrates. Fez “Big Little Lies” e enche de pequenas mentiras, em vez de grandes verdades, os sete episódios dessa mini-série casquinha de ovo. Acácios e Pachecos desunhar-se-iam a falar de bullying escolar, de violência doméstica, de controlo parental. Com quatro mulherzinhas troianas, Kelley arranca a vida da selva amazónica, que são os grandes temas, e mostra-a numa mistura de riso suave e doçura intensa. É a grande esmola que a mão direita de “Big Little Lies” nos dá para esconder as grandes tragédias que a mão esquerda camufla.

Bem sei que vi tudo, copo de Quinta São Sebastião Colheita 2014 na mão, mas vi e ouvi a alma de Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Laura Dern, Shailene Woodley e dos homens delas. E, com ecos de édipos, eléctras e traquínias (com perdão dos gregos), entraram-me em casa o amor e a violação, os filhos e a escola, o sexo e o híper-sexo, as inomináveis boas intenções. O cenário é um cheiro a mar.

Aviso a quem, por um mero acaso venha a ler daqui a 100 anos: esta crónica foi publicada num jornal chamado Expresso. Na verdade, era uma publicação semanal e vendia-se em vários lotes de folhas de papel dobradas. Um, maior, de folhas soltas a que se chamava “caderno principal”; outro, com uma capa e presa por agrafos, a que se chamava “revista”. Por estranho que vos pareça era tudo feito por pessoas e não por robots. Mais curioso ainda, pagava-se para ler… Estão-me ali a fazer sinais, pedindo-me que defina o que era pagar… Olhem, deixem ficar assim, está bem: era uma coisa antiga. Tinha imensa graça.
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Sobre a Diferença

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Revolução

REVOLUÇÃO

Fechar o coração é muito triste,
mais do que o tecido necroso e pior
do que o amortecimento da alma
são os cantos da boca descaídos
onde antes estava o riso. E as veias
endurecem: a circulação amorosa
é a oxigenação pela alegria.
Não percebes nada do que digo –
não me conheces, pois não?
Que é lá isso de fechar o coração…
Eu mostro-me: se me ofereceres
o inferno, primeiro ardo, e depois
queimo-o e das cinzas faço o
primeiro dia, e a primeira noite,
e o primeiro vento e com ele a criação.
Não me conheces, nem se de um alfabeto faço versos –
não percebes, pois não?
Eu conto-te como o caos e o desconhecido
são só outro nome para a Ordem Invisível.
De Agar, Abraão teve Ismael. E por Isaac,
e por Sara, se despediu deles. Assim,
só assim, a caravana de ismaelitas,
os descentes do expulso, compraram José filho de Israel
aos irmãos que o venderam. Assim, só assim,
se cumpriu a vida de José: se não fora ele
como entrariam os israelitas no Egipto fugidos
da fome? Como se abriria tão depois o mar
para que fugissem?
O mundo não tem uma cronologia
tem uma cosmologia, uma intenção, e não é essa,
fechar o coração. E não percebes, sei que não.
Não sou Deus. O meu corpo é corruptível e
tem mecanismos secretos de auto-destruição.
Não me posso refazer do barro, não sou Deus.
Não sou mas tenho uma centelha
do fogo do Seu espírito. A essa luz vê-se o longe:
vê-se a expulsão de Ismael, para José, a salvação.
E uma centelha basta para o incêndio.
E das cinzas farei o primeiro dia
e o avanço do reino. Amor. Glória. Alegria.
Não percebes nada, pois não? Fechar o coração, eu?
Não. Eu sou a revolução.

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Um Eu ou um Ou?

Um dia, aqui há muito tempo, Prometi que falava de Thomas More e falo agora. Ao escrever “Um pequeno livro verdadeiramente de ouro, não com menos benefício do que entretenimento, do melhor estado de uma república e de uma nova ilha Utopia” (o título e a obra foram escritos em Latim, no ano de 1516 e editados na Flandres por Erasmo de Roterdão), o padroeiro dos políticos deixou uma dúvida. Ao grafar Utopia referia-se a Eutopos ou Outopos? Qual a importância? Toda.

Utopia antiga

Se for Eutopos a dar Utopia, tal quer dizer que esse seria o ‘Bom Lugar’ (Eu, como Eutanásia quer dizer ‘boa morte’, é o prefixo com esse significado). Se for Outopia quer dizer o ‘Não lugar’ (ou, como em o(u)cioso, o não ocupado, é o prefixo da negação). Ora entre saber se a Utopia é um lugar real a que devemos aspirar ou se é um lugar impossível que apenas serve de referência, mas não de objetivo, já levou a mais desgraças do que muitas outras coisas. Basta ler a Revolução de Outubro, com a sacrossanta e religiosa cronologia de Manuel S. Fonseca, onde está tudo, quase dia-a-dia, desde o momento em que mataram o irmão de Lenine até ao descalabro, para perceber do que é capaz uma Eutopia.

Utopia moderna

 

Mas não foi isso, obviamente, que tornou santo Thomas More. A santidade deve-se, em resumo, ao facto de nunca ter aceite Henrique VI de Inglaterra como chefe da Igreja Anglicana, pois, apesar de ter sido seu chanceler ou em linguagem moderna primeiro-ministro, jamais quis quebrar a lealdade ao Papa e à Igreja Católica Apostólica Romana. Afinal, se uma palavra que escreveu no título de uma obra (Utopia) pode ter várias interpretações, a palavra dada no que toca às convicções foi apenas uma. Padroeiro dos políticos? Antes fossem todos tão atreitos à palavra dada. Quanto ao livro, recomendo-o – há inclusivamente boas edições em pdf – para que cada um retire as suas conclusões.

 

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Sim

SIM

De entre coisas que um dia nunca,
um dia não,
não saberia nem conseguiria,
um dia sim, sem surpresa, com certeza,
o não é sim.
– e a gente a julgar que tem uma só natureza.

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Agora mesmo

Na estação, nem o meu Cão nem o meu namorado. Não me detive na plataforma a ver se os via – como se pudesse não os ver com este feitio de valha-me Deus, viúva perfeita. É uma irrelevância a morte, ou a evaporação amorosa, tanto me faz, gosto, gosto, pronto, acabou-se. Gostaria mais, pois não, de os ver aos dois ali, compostos à minha espera, uma gare é um lugar literário por excelência, e por cliché romântico, e estava frio, o saco pesado. Ele diria tinhas o frigorífico vazio, comprei-te leite Vigor e fruta. Mas o que é que tens neste saco, pedras? Eu riria, claro, enquanto fazia os cumprimentos iniciais ao lindo Cão, mas que valente que é, veio enfrentar o frio siberiano para vir buscar a sua dona? Seria assim. Se houvesse buracos no tecido do tempo, seria. Se a morte coexistisse pacificamente com a vida e passado e futuro dessem em ser anacrónicos seria assim mesmo, e mal percebo que tenho isto plasmado no pensamento, já a caminho do supermercado a caminho de casa onde ia comprar Leite Vigor e uma frutinha, páro. Uma linha de quarto crescente desaparece atrás de uma nuvem. Volto para trás tal é a urgência em andar para a frente. Chego à bilheteira: a que horas sai o próximo comboio para o hoje? É um bilhete, se faz favor.

 

 

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Sobre a Surdez

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Sobre a Cegueira

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Quem dá o que tem no bolso…

Ela tira os óculos, que não por acaso lhe ficam bem, solta o cabelo apanhado, vira-se em valsa lenta, boca semiaberta, num sorriso que a ponta da língua interrompe tocando no canto direito do lábio superior. Distraído a abrir uma garrafa de “pretty good rye”, Bogart, que já estava a fazer conversa com ela há dez minutos, levanta a cabeça e, como se acabasse de ver nascer Vénus, solta o mais vivaldiano “hello” da história do cinema.

E agora pergunto, se nunca correram um estore, que raio de vida é a vossa? Corre-se um estore, em “The Big Sleep”, filme a preto-e-branco, de 1946. Quem corre o estore é uma livreira em que deviam pôr os olhos os patrões das livrarias Bertrand, FNAC, Almedina, Ler Devagar, até mesmo da fabulosa Lello. Tem vinte e um anos, vende livros e, se não sabe tudo, sabe pelo menos muito sobre edições raras. Uma coisa temos garantida para a eternidade: nós é que nunca saberemos o nome dela. Nem William Faulkner, nem Raymond Chandler no guião, nem Howard Hawks, o realizador, lhe deram um nome. Quem devia ter o nome grande, que a história do cinema ainda não lhe reconheceu, é Dorothy Malone, a mulher morena que dá aquele vagaroso corpo a essa menina livreira.

Bogart vem da livraria em frente e entra na ACME Book Shop de Malone. Ele é um detective. Falam e floresce entre os dois aquele indesmentível interesse humano que nos protege de um húmido dia de chuva. Bogart vai ter de fazer uma espera e em vez de se ir molhar lá fora, tira do bolso uma garrafa de uísque americano, com que podem molhar-se, ela e ele, no calor da livraria. É então que Dorothy Malone, com medido vagar, fecha a porta e corre o estore como mais ninguém na vida há-de correr um estore, numa rotação em que a deliciosa velocidade angular do corpo dela contrasta com a firme vontade do rosto: “Looks like we’re closed for the rest of the afternoon.”

Fala-se muito, e com menosprezo, de quem tem um passado. Tenho uma teoria: “Ai de quem nada tem a esconder.” A livreira da ACME corre o estore sabendo que está a construir o seu passado. É uma tarde só – one afternoon stand –, mas é o segredo esplêndido de um encontro bom. É que não há sequer um grão de insensual inquietação de futuro em toda essa cena de que Dorothy Malone é senhora e rainha. Bogart, “hello!”, oferece apenas o que tem no bolso.

Publicado no Expresso, dia 13 de Janeiro

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Quase Uma Sensação de Perigo

Os melhores filmes de 2017 não são, em larga medida, os melhores filmes estreados no ano passado nas salas portuguesas. A distribuição nacional está doente. Uma parte do problema não lhe é imputável (a outra parte é-o em absoluto: a do comodismo; a do paradoxal esforço vanguardista, desadequado a um público fora do eixo Chiado – Clérigos; a da rudimentar incompetência). Mas a crise maior pertence ao abissal refluxo produtivo dos últimos anos, em permanentes mas geniais desequilíbrios, dos blockbusters aos indies das micro-cinematografias, das séries dos gigantes streaming às TV’s generalistas em luta espúria pela sobrevivência, dos canais de subscrição por  cabo à individualíssima mole de editores DVD, Blu-Ray, Ultra-HD e offstream, baby.

A forma de sorvermos emocionalmente um filme mudou. E continua a mudar. Está repartida por (cada vez mais) breves pedaços de ficção.Estes tanto podem surgir na sequência de um sonho hiperrealista de certo director arrítmico criado no i-phone (Sean Baker e o seu Florida Project) como da infinita verborreia, planeada nas pranchas de um best-seller autobiográfico, desaguando em memórias do cárcere (David Fincher/Joe Penhall e Mindhunter). Mas a força da surpresa mantém-se, milagrosamente, numa multitude de impulsos. Como o flash daquela tripe super feliz. A primeira imagem de alívio após o despertar de ressaca. O passeio na praia depois de nove anos de involuntário calabouço. Porque as imagens que ficam são breves: o instantâneo de um orgasmo; o “Sim, Quero” matrimonial; a cabeça emergindo da água ao fim de cinquenta segundos sem ar; um bebé trincando o parto; a vida ansiosa por ser vivida.

For your enjoyment, portanto ( qualquer dia – e que belo dia será -, os formatos extinguir-se-ão, restando o encanto da Imagem Eterna):

 

FILMES

 Manchester by the Sea, de Kenneth Lonergan (EUA)

Moonlight, de Barry Jenkins (EUA)

Jackie, de Pablo Larraín (EUA/Argentina)

The Trust, de Alex e Benjamin Brewer(EUA)

Toni Erdmann, de Maren Ade (Alemanha)

John Wick: Chapter 2, de Chad Stahelski (EUA)

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho (Brasil)

Valley of Love, de Guillaume Nicloux (França)

The Lost City of Z, de James Gray (EUA)

Get Out, de Jordan Peele (EUA)

Ma  Vie de Courgette, de Claude Barras (Suíça, França)

Colossal, de Nacho Vigalondo (EUA/Espanha)

I Am Not Your Negro, de Raoul Peck (EUA)

Hjartsteinn, de Gudmundur Arnar Gudmundsson (Islândia)

Paterson, de Jim Jarmusch (EUA)

Lady Macbeth, de William Oldroyd (Inglaterra)

Atomic Blonde, de David Leitch (EUA)

Wind River , de Taylor Sheridan (EUA)

Una,  de Beneditch Andrews (Grã-Bretanha, Canadá)

Good Time, de Benny e Josh Safdie (EUA)

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve (EUA/Canadá)

The Love Witch, de Anna Biller (EUA)

The Big Sick, de Michael Showalter (EUA)

Quand on a 17 Ans, de André Téchiné (França)

Lucky, de John Carroll Lynch (EUA)

Testrol és Lélekrol, de Ildikó Enyedi (Hungria)

Becoming Cary Grant, de Mark Kidel (EUA/Inglaterra)

A Ghost Story, de David Lowery (EUA)

Dawson City: Frozen Time, de Bill Morrison (Canadá/EUA)

La Fille Unconnue, de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica)

The Florida Project, de Sean Baker (EUA)

Córki Dancingu, de Agnieszka Smoczynska (Polónia)

Marjorie Prime, de Michael Almereyda (EUA)

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, de Martin McDonagh (EUA/Inglaterra)

Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino (Itália/França)

Nocturama, de Bertrand Bonello (França)

Brawl in Cellblock 99, de  S. Craig Zahler  (EUA)  – Prémio Foda-se! Série Z do Ano

Raw, de Julia Ducournau (França/Bélgica) – Prémio Comíamo-nos Todos da Década

Ak – Nyeo, de Byung-gil Jung (Coreia do Sul)

Logan, de James Mangold (EUA)

Thelma, de Joachim Trier (Noruega)

Mudbound, de Dee Rees (EUA)

 

SÉRIES

 The Deuce, de George Pelecanos, David Simon

Mindhunter, de David Fincher, Joe Penhall

Apple Tree Yard, de Jessica Hobbs, Amanda Coe, Louise Doughty

Halt and Catch Fire 4, de Christopher Cantwell, Christopher C. Rogers

The Missing 2, de Tom Shankland, Harry Williams, Jack Williams

Game of Thrones 7,  de David Benioff, D.B. Weiss

Taboo, de Steven Knight, Tom Hardy

Stranger Things, de Matt e Ross Duffer

The Sinner, de Derek Simmonds

The Keepers, de Ryan White

Mr. Mercedes, de David E. Kelley

Big Little Lies, de David E. Kelley

Godless, de Scott Frank

Twin Peaks: The Return, de David Lynch

Top of the Lake: China Girl, de Jane Campion, Gerard Lee

Legion, de Noah Hawley

 

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Short à beira-mar

– Hey Nic, racconta a mio papá la storia del tuo bisnonno. Pápi senti Nicolas!

Nicolas olha para mim um pouco embaraçado com a proposta e a insistência do meu filho. Pela expressão do rosto não me parece que tenha muita vontade de contar a história do seu bisavô. Ali, com os pés enterrados na areia da beira mar, o que quer mesmo é dar um par de mergulhos nas ondas da Praia Grande de que há tanto tempo ouve falar. Mesmo que a ouvir essa história seja eu, o pai do seu melhor amigo e companheiro de carteira da Escola Alemã de Milão, que o convidou a vir passar umas férias em Portugal. Mas mesmo assim, porque é o seu amigo que lho pede ou talvez devido à enorme cerimónia que ainda faz comigo, lá se decide a contar a história que tem para contar. Nicolas é um Frank. Um Frank dos antigos. Um Frank descendente dos velhos banqueiros que durante séculos dominaram a Europa. Descendente de dinheiros velhos e muito usurados. Descendente por isso também, de um pudor discreto e avesso a indiscrições incómodas.

Em 1938, os Frank viviam em Génova e viviam bem. Trasladados há várias gerações da Alemanha para a Itália do Norte, dedicavam-se tranquilos á produção de bons vinhos e a animais de raça. E raça para eles era isso mesmo, a diferença de tamanho, pelagem e dentadura entre um Dachshund e um Jack Russell. E por isso, quando as leis raciais Italianas foram publicadas, devem ter sido colhidos de surpresa. Ou pensando melhor talvez não.

“Le razze umane esistono / Esistono grandi razze e piccole razze / Il concetto di razza è puramente biologico / Esiste oramai una pura razza italiana / E’ tempo che gli italiani si proclamino francamente razzisti / Gli ebrei non appartengono alla razza italiana”  – Manifesto della razza” (luglio ’38)

Otto, o bisavô de Nicolas, devia ser homem de precaução, indústria e inteligência. Perante as novas leis e a cerrada campanha nos media que precedeu a sua promulgação, decide deixar Génova. Transfere a sua família para o anonimato de Milão, e proporciona a todos, até ao verão de 1943, um estilo de vida relativamente digno sob uma certa aparência de normalidade. Os rendimentos acumulados permitem a sua autossuficiência e a vida corre-lhes bem. Os Milaneses também ajudam, com a sua tendência a uma certa benevolência e ao desrespeito pela lei. A Itália tem em Mussolini um líder que convenientemente não se decide: “Discriminare e non perseguitare!”.    

No entanto, quando em Setembro de 1943 se dá a reviravolta e a Alemanha invade a Itália, a caça aberta aos judeus inicia-se alterando-se drasticamente para eles a situação. Sabendo que o seu nome constaria das listas compiladas pela questura de Milão, Otto decide fugir para a Suíça mas durante a fuga a família é denunciada pelo proprietário de uma trattoria onde jantavam em Domodossola sendo feita de imediato prisioneira da RSHA Alemã. Otto tem consigo a mulher, dois filhos e duas filhas. O filho mais velho de doze anos chama-se Albert e tem uns grandes olhos azuis. Com ele viaja também uma sua irmã e um primo de alguma idade. São todos transferidos para o campo de concentração de Fossoli nos arredores de Modena e  umas semanas mais tarde deportados para Birkenau.

Nicolas conta tudo á sua maneira com um sorriso inocente de adolescente. Ouviu certamente esta história da boca do seu avô Albert, o menino dos olhos azuis. Não conta mais pormenores desejoso que está de ir para o banho.

Durante dois anos, Otto e Albert, sobreviveram unidos, fintando a fome e os trabalhos forçados, resistindo sempre à perigosa tentação da esperança. Do resto da família ficou só o fumo da memória. Regressaram em 1946 a uma Itália em escombros para reconstruir a vida e o futuro. Otto voltou a casar e a fazer uma nova família. Com a indústria no sangue e a dor como catalisador conseguiu voltar a ser um Frank. Voltou a Génova, aos cães e ao vinho.

A história está terminada.  Hoje em dia Nicolas tem dois pastores alemães, netos da Bianca, a cadela do Avô Albert, que vivem felizes na quinta que este construiu no pitoresco vale de Ovada entre Milão e Génova.

Numa gargalhada correm os dois para as ondas num repente. O passado é isso mesmo.

Uma onda que veio, rebentou e já se foi.

 

PS1: O Verão já lá vai. De volta a Milão, num encontro de pais, converso com Max, pai de Nicolas. Não resisto e pergunto-lhe pelo seu avô Otto, o pai Albert e por tudo aquilo que ficara por contar. No final da noite pergunto-lhe o porquê de apesar de tudo, ter o filho numa escola Alemã. Olha para mim com um olhar firme. Sou Alemão responde. E Italiano e judeu. E disso não abdico.

PS2: O mês passado, no campo de futebol da escola Alemã de Milão, sei que explodiu uma refrega violenta entre miúdos. A Nicolas foi atirado, em Italiano, um – sporco ebreo, ainda acabas num cinzeiro! Velhas histórias que tristemente parecem ecoar de novo entre nós. Aparentemente Nicolas selou o insulto com um uppercut e a promessa que para a próxima dava mais. Os amigos exultaram. Não se brinca com um Frank.

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to see…

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O cinema e a Tcheka

Felix Dzerjinski

O cinema e a Tcheka
Manuel S. Fonseca

À cidade podemos chamar-lhe o que quisermos, São Petersburgo, Petrogrado ou Leninegrado. Mas à pistola que Fridrikh Ermler atirou para cima da secretária com arrojo e estrondo, nunca quereremos chamar-lhe senão uma Browning.

 As portas snobes das artes

Antes de se chamar Ermler, já Vladimir Markovich Breslav agarrara nos seus 17 anos e viera da tundra russa para Moscovo. Queria ser uma estrela. Queria ser actor nesse cinema que em 1915 dava, mudo, os primeiros passos. Teria pouco mais ou pouco menos do que a 4ª classe e esbarrou nas portas snobes das artes. Não teve escolha que não fosse a de mudar de nome para Fridrikh Ermler e, patrioticamente, ir trabalhar de espião nos territórios russos, que as tropas alemãs ocupavam na I Grande Guerra em curso. Descobriu uma vocação, e espião ou polícia continuaria, integrando a Tcheka, a assassina polícia política que a Revolução de Outubro, mal nasceu, logo criou.

Ermler era um tchekista convicto. Acreditava firmemente estar do lado do bem. Com a mesma firmeza, acreditava que o seu destino era o cinema. Em 1923, em Leninegrado, voltou a bater às portas das Artes, já a Revolução ia a caminho da consolidação, depois de Lenine e Trotski afogarem, num mar de sangue, a rebelião dos marinheiros de Cronstadt. No Instituto de Artes Cinematográficas olharam para as habilitações de Ermler e nem lhe quiseram dar a ficha de inscrição. Meteu então a mão ao bolso, sacou a persuasiva Browning e bateu com ela em cima da secretária, dizendo alto e bom som: “Aqui está a minha ficha de inscrição!” Não me admira que a direcção do Instituto o tenha aceitado: com vénia à teatralidade do gesto, eu faria o mesmo. E diga-se, Ermler pode ter-se enganado ao pensar que, estando do lado da pidesca Tcheka, estava do lado do bem. Mas não se enganou na sua vocação cinematográfica. Recentemente convidado pela Cinemateca, o especialista russo Peter Bagrov veio explicar a Lisboa que Ermler é um dos expoentes do cinema soviético, ao lado de Eisenstein ou Vertov. Cineastas clássicos como Chaplin ou Pabst prestaram-lhe homenagem suficiente para pensarmos que a sua obra não se reduz à suspeita hagiografia do regime, que os quatro prémios Estaline pareceriam denunciar.

Fridrikh Ermler

A estética redentora

Deixo um aviso revolucionário: a veemente Browning de Ermler, que ele não deixaria de usar em algumas filmagens como argumento de direcção artística com actores mais renitentes ou insubordinados, está longe de ser um episódio isolado na história do cinema russo do período épico da revolução de Outubro. Vejamos, a Tcheka teve uma considerável influência nas artes soviéticas, da literatura ao cinema. Félix Dzerjinski, que foi, a pedido de Lenine, a alma mater da polícia política, era um espírito requintado, polaco-lituânio de origens aristocráticas, católico antes de ser comunista, místico antes de ser revolucionário, fluente em polaco, iídiche, russo e latim. Implacável no comando do Terror Vermelho, ao ponto de afirmar de si mesmo “Derramei tanto sangue humano, que já não mereço viver”, Dzerjinski quis revestir o terror policial com uma estética que o redimisse. Em vez de esconder a repressão e o gulag, Dzerjinski quis mostrá-los controlando rigorosamente a forma como seriam vistos. Se e quando Estaline veio chamar aos artistas revolucionários “engenheiros da alma humana”, foi porque a tanto o inspirou a praxis (oh, as saudades que tinha desta velha palavra!) da Tcheka e, em particular, de Dzerjinski, que foi, ao deixar a presidência dessa polícia política, o presidente da Sociedade dos Amigos do Cinema Soviético, organismo que deveria destruir o fosso entre os filmes, os cineastas e o público russo.

Não foi só o cinema: há um tardio exemplo literário, que é até multimédia avant la lettre, de 1933. É um livro de vários escritores sobre a construção do Canal Belomor, que ligou o Mar Branco ao Báltico. O livro inclui a prosa de Maximo Gorki e as fotografias de Aleksander Rodchenko, para mencionar só os mais notáveis artistas. A construção desse canal usou o trabalho forçado dos prisioneiros do gulag e a representação pública, em documentário, desenhos, fotografias, foi co-editada, na parte literária, por Gorki e pelo comandante da polícia política no campo de concentração, Semen Firin.

Uma das fotos de Rodchenko glorificando o gulag

O campo e o trabalho forçado são literária e artisticamente redefinidos como uma epopeia reeducativa, em que os inimigos de classe e os criminosos reencontram uma função social e se redimem do mal. O genial fotógrafo Rodchenko, sinceramente esmagado pelo gigantismo do empreendimento, afirmou: “Fiquei em estado de choque com a sensibilidade e sabedoria que são usadas para reeducar o povo.” O livro foi, claro, um enorme êxito popular e um enorme êxito da Tcheka.

O convulsivo dilema revolucionário

Arrebatador, porém, foi o sucesso do primeiro filme sonoro soviético, de 1931, um projecto nado e criado intestinamente na e pela polícia secreta. Putyovka v zhizn, a que em português chamaremos “O Caminho da Vida”, foi o acabado exemplo de utilização do cinema, “a mais importante de todas as artes” no famoso cliché de Lenine, como arma ideológica. A acção tem lugar numa colónia de trabalho juvenil e os actores, na sua maioria, são jovens presos autênticos, em regime de reeducação pelo trabalho.

Começamos por ver os miúdos em gangs juvenis, na cidade, até serem presos pela Tcheka e, luminosamente, os polícias conceberem um campo de reeducação onde os enfiam. Realizado por Nikolai Ekk, que estudou com Meyerhold e foi assistente de Eisenstein, dois expoentes da vanguarda do teatro e cinema russos, o filme combina duas colheres de melodrama e uma navalha de manipulativa narrativa conservadora, com algumas cenas de delirante e inovadora mise-en-scène, que confirmam as origens artísticas de Ekk.

Projectado no Festival de Veneza de 1932, “O Caminho da Vida” teve um prémio do público, e deram a Ekk o prémio da realização mais convincente. A polícia política, que Dzerjinski fundara, via, assim, reconhecida artisticamente a sua estratégia de apresentação pública do gulag. E o público russo, ao contrário do que fazia com o experimentalismo formal de Eisenstein ou Dziga Vertov, encheu as salas, transformando “O Caminho da Vida” no maior êxito que o cinema soviético conheceu até essa altura. O filme termina com uma declamada santificação de Félix Dzerjinski. Um actor, em tom épico e oficial, que faria o nosso teatro nacional roer-se de inveja, vem chamar-lhe “o melhor amigo das crianças”, surgindo o busto desse patrono das artes e dos órfãos em fundo. Que uma parte desses órfãos deva a sua circunstância ao facto da Tcheka de Dzerjinski lhes ter executado os pais é um tema que extravasa a discussão dos galões cinematográficos de “O Caminho da Vida” e, por certo, não diminui o convulsivo dilema moral e revolucionário com que Dzerjinski se debateu, nem diminui os surpreendentes méritos de um filme que eu gostava de ver projectado em sessão dupla com “Aniki-Bobó”, de Manoel de Oliveira: há uma crença similar numa bondade natural da criança, se civilizada pelo amor no caso de Oliveira, se civilizada pelo trabalho correccional no caso do filme de Nekk, inspirado pelas teorias do pedagogo soviético Makarenko.

Neste filme, mas já antes no cinema mudo, com “Solovki”, um documentário feito sobre o mais brutal campo de concentração soviético, a Tcheka quis fazer a festa, deitar os foguetes e apanhar as canas, num registo orwelliano, se quisermos usar um qualificativo de prestígio: fez os gulags, levou os espectadores a vê-los e controlou a imagem que deles o público soviético (e Veneza) devia ter. Com o registo documental de “Solovki” as coisas correram tão bem que o filme teve de ser retirado de circulação: os operários soviéticos, ao verem o ar de férias de Verão que o gulag tinha, com os prisioneiros a comerem bem, a participarem em peças de teatro, a pescarem, a lerem jornais e com um museu no campo, protestaram contra as idílicas condições desses inimigos de classe, muito superiores às agruras da vida real que era a deles. O cinema excedeu-se: deu aos prisioneiros do gulag o que a utopia soviética não conseguia dar aos seus cidadãos.

Publicado na revista Visão-História, no número dedicado à Revolução de Outubro

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1991

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